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08 julho 2014

BRASIL X ALEMANHA: já circulando na web. AZAR?


6 dilma

01 julho 2014

MORDERAM DILMA, por Ricardo Noblat


Dilma na posse do novo ministro dos Transportes, Paulo Passos (Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República)
Dilma na posse do novo ministro dos Transportes, Paulo Sérgio (Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República)
Nota de Ricardo Noblat publicada em sua excelente coluna no site de O Globo
Na última sexta-feira, em Salvador, ao participar da convenção que lançou o candidato do PT ao governo do Estado, Lula afirmou que a política vive um momento de descrédito e que é preciso moralizá-la.
E completou: “Aos olhos do povo parece uma coisa vergonhosa”.
E não é?
Ora, Lula e o PT, mas não somente eles, contribuem para que boa parcela dos brasileiros sinta nojo da política e dos políticos.
Um dia antes, em Brasília, a presidente Dilma Rousseff havia dado posse a Paulo Sérgio Passos, o novo ministro dos Transportes.
Ministro costuma ser empossado em uma das amplas salas do segundo andar do Palácio do Planalto. As cadeiras, ali, jamais são suficientes para o número pessoas interessadas em prestigiar o novo ministro.
Pois a cerimônia ocorreu numa sala menor do terceiro andar. Durou menos de 20 minutos. E foi quase clandestina. Políticos de peso não compareceram. O discurso de Dilma não passou de uma peça chocha e cínica.
Ela disse que a ocasião se prestava para uma “pequena reorganização do time que toca a infraestrutura e logística do governo”. E concluiu: “Estou realocando as melhores pessoas em funções diferentes”.
Referia-se à transferência de Paulo Sérgio, presidente da Empresa de Planejamento e Logística, para o lugar de César Borges, até então ministro dos Transportes.
Borges foi rebaixado à condição de ministro da Secretaria Especial dos Portos em substituição a Antônio Henrique Silveira, que doravante responderá pela secretaria-executiva do ministério de Borges.
Por que esse troca-troca?
A implacável faxineira ética do início do governo, a dura executiva que não perdoa falhas dos seus auxiliares, a mulher valente que se orgulha de manter distância dos políticos por considerá-los desprezíveis, enfim essa senhora antipática e refratária a salamaleques rendeu-se à pressão de uma agremiação inexpressiva chamada Partido da República (PR).
Piscou primeiro. E ofereceu o ombro para ser mordido. Arrancaram-lhe uma fatia de autoridade.
Preocupada em assegurar o apoio do PR à sua reeleição e, por tabela, pouco mais de um minuto de propaganda eleitoral na televisão e no rádio, Dilma demitiu do Ministério dos Transportes quem mais de uma vez apontara como um dos seus melhores ministros.

‘As ‘convicções’ de Dilma’, editorial do Estadão

Publicado no Estadão deste domingo
Amanhã, último dia estabelecido pela legislação eleitoral para a realização de convenções partidárias destinadas a definir candidatos e deliberar sobre coligações para o pleito de 5 de outubro, estará se encerrando a mais despudorada temporada de compra e venda de minutos e segundos da propaganda eleitoral gratuita, que estará no ar a partir de 19 de agosto, jamais registrada neste país. E à afronta à Nação representada por esse vergonhoso espetáculo soma-se o cinismo de quem tem a responsabilidade maior de zelar pela seriedade na vida pública: “A política que aprendi a praticar ao longo da minha vida desde a minha juventude, que me levou inclusive à prisão, implica em construir relações que sejam baseadas não em conveniências, mas em convicções”.
Dilma Rousseff permitiu-se esse cínico rompante ao discursar na convenção nacional do PSD que na quarta-feira selou o apoio à sua reeleição. Não explicou a quais “convicções” se referia, mas recomendou a todos que não aceitassem “provocações que buscam baixar o nível do debate, que buscam acirrar o antagonismo”. E não deixou de se gabar das “transformações rápidas e profundas” realizadas por seu governo, garantia, no futuro, de “um ciclo ainda mais rápido e duradouro de mudanças”.
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‘Nova ameaça ao dinheiro público’, de Fernando Tibúrcio Peña


Publicado no Estado de Minas
FERNANDO TIBÚRCIO PEÑA
Em 1968, o ecologista americano Garrett Hardin publicou artigo em que apresentava aos leitores da então já prestigiada revista Science um curioso dilema, segundo o qual certos indivíduos, atuando de forma racional e olhando para os próprios umbigos, usavam de maneira desmedida recursos comuns e limitados até o ponto em que a superexploração acabava por trazer prejuízos para todos.
Para ilustrar o dilema, Hardin citou o exemplo hipotético de uma pastagem compartilhada por um número qualquer de pastores, que por sua vez tinham um número determinado de animais. Em um dado instante, os pastores perceberam que, apesar do uso intensivo, havia ainda espaço para mais animais. E, então, foram paulatinamente colocando novos animais na pastagem, até que ela se esgotou e toda a criação pereceu. Não é por menos que Hardin deu ao seu emblemático artigo o título de a Tragédia dos comuns.
No Brasil, hoje, vivemos uma realidade em que grupos com os mais diversos interesses vêm sistemática e progressivamente obtendo benefícios do Estado. Os sindicatos têm as suas próprias demandas. Também os aposentados, funcionários públicos, plantadores de maçã e os pescadores de lagosta. Com o passar do tempo, tais grupos de interesse vão ganhando terreno e, na ausência de visão sistêmica do governo para modular as investidas, os recursos públicos tendem a se exaurir. Tal estado de coisas tem um peso fundamental na desaceleração do crescimento da economia brasileira e faz com que, na América do Sul, o Brasil fique em termos de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) somente à frente da Argentina e da Venezuela.
Num momento em que o país está vivendo uma indisfarçável crise de gestão – algo que começa a ser percebido nas pesquisas eleitorais –, o governo decidiu não percorrer a rota cheia de armadilhas que passa pela reforma das velhas estruturas que fazem com que a nossa economia avance a passos de tartaruga (candidatos da oposição que arquem sozinhos com o custo político de explicar ao povo brasileiro a verdade inconveniente que dá sentido ao que se pode chamar de “medidas necessárias”).
O governo preferiu seguir por uma estrada aparentemente mais tranquila e criou por decreto a Política Nacional de Participação Social (PNPS), o coelho morto que o Palácio do Planalto tirou em tom messiânico da cartola com o propósito anunciado de “consolidar a participação social como método de governo”.
O problema é que essa estrada de mão única termina num despenhadeiro. Os recursos públicos, assim como a pastagem imaginada por Hardin, são bens comuns e, portanto, finitos. É sob esse contexto que deve ser vista a PNPS.
Mais do que discutir se foi bolivarianamente inspirada nos conselhos comunais de Hugo Chávez ou se o Executivo estaria invadindo um campo reservado exclusivamente ao Legislativo, a questão primordial está em saber se a nova política – em vez de fomentar a propagada desconcentração e descentralização do poder político – poderá resultar numa relação perigosa, em que determinados grupos sociais se empenharão para desfrutar de uma condição ainda mais privilegiada junto ao governo, ganhando, agora que ostentam a qualidade de protagonistas, a musculatura necessária para dele exigir a ampliação dos benefícios obtidos no passado.
A se confirmar esse sombrio cenário, as contas públicas não vão aguentar, e, aí, não serão as ovelhas ou as vacas de Hardin que sofrerão as consequências. Seremos nós

30 junho 2014

Entrevista com Marco Antonio Zago, reitor da USP: “O foco na qualidade e na meritocracia não predomina na administração do ensino superior no país”


"As universidades, como as agências de pesquisa, favorecem mais a prudência do que a inovação", diz o reitor da USP, Marco Antonio Zago (Foto: Lailson Santos)
“As universidades, como as agências de pesquisa, favorecem mais a prudência do que a inovação”, diz o reitor da USP, Marco Antonio Zago (Foto: Lailson Santos)
É PRECISO ARRISCAR MUITO MAIS
O reitor da Universidade de São Paulo diz que o sistema atual favorece a acomodação dos pesquisadores estáveis na carreira, que nada criam e se bastam repetindo experimentos
Entrevista a Lucas Souza e Mariana Barros publicada em edição impressa de VEJA
O médico Marco Antonio Zago assumiu em janeiro a reitoria de uma instituição que já teve dias melhores. A Universidade de São Paulo (USP) perdeu posições importantes nos rankings internacionais, vive uma dramática crise financeira e sai de uma greve para entrar em outra. Zago, no entanto, vê soluções.
Na escala de preocupações desse paulista de Birigui, o desconhecimento da língua inglesa pelos alunos ocupa hoje o primeiro lugar (“Inglês é a ferramenta de que eles precisarão para trabalhar globalmente”). A falta de ousadia dos pesquisadores e a predominância da cultura sindicalista na vida universitária são outros entraves que tiram o sono do reitor. Zago falou a VEJA em seu gabinete na Cidade Universitária.
A USP perdeu onze posições no mais recente ranking de reputação universitária da revista britânica Times Higher Education e na lista das melhores caiu da 158ª posição para a faixa que vai da 226ª à 250ª. O que explica essa queda?
Nada. As oscilações são normais e não representam mudança significativa de qualidade. Além do mais, as classificações são obviamente relativas e, se alguns dão saltos de qualidade, isso pode determinar a queda de outros que não necessariamente pioraram. Por outro lado, os índices anuais acusam oscilações cuja natureza pode ser apenas metodológica.
Mas a USP caiu também na listagem deste ano da britânica QS Rankings. Foi ultrapassada pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Chile como a melhor da América Latina.
Os rankings comparam universidades de dimensões, missões e focos diferentes. Nós estamos em segundo agora, mas a USP tem 92 000 estudantes. A PUC do Chile tem 22 000 alunos e um orçamento expressivo para o seu tamanho. Para mim, a queda nessa lista latino-americana não significa nada.
A USP continua sendo a universidade mais relevante da América Latina. Mas claro que há problemas. Sobretudo porque não temos ensino secundário de qualidade no Brasil. O aluno que traz da escola dificuldades de escrever bem, compreender textos e fazer cálculos básicos não poderá ter um bom desempenho no ensino superior.
Outra questão deriva do fato de as universidades brasileiras enfrentarem enormes dificuldades de gestão. Seria muito melhor se houvesse um orçamento anual definido e a prerrogativa de contratar ou demitir de acordo com o desempenho. Porém, o foco na qualidade e na meritocracia é algo estranho à administração do ensino superior no Brasil.
A estabilidade precoce de professores e funcionários paralisa as coisas. Isso não existe em nenhum outro lugar do mundo.
O que é preciso para a USP implantar o modelo que privilegia a meritocracia?
Isso depende de questões políticas e de leis federais. Mas, internamente, é preciso abandonar a dinâmica de sindicalismo na vida universitária. Não é fácil dar esse passo. Mas ele é essencial e já foi dado em outros países.
O que a USP está fazendo para aperfeiçoar o sistema de avaliação de professores?
Infelizmente, ainda não se definiu claramente como avaliar o desempenho dos docentes na USP. Por isso, criamos um grupo de trabalho para determinar o que deve ser entendido como excelência.
Não basta verificar se o pesquisador está publicando trabalhos ou não. Há outras formas de análise, como a produção de patentes, de material crítico e a realização de debates.
A USP leva em conta o mérito ao contratar professores?
Em lugares como Harvard ou o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT, os diretores das universidades contratam pesquisadores pagando o salário que consideram que eles valem. Aqui, isso não é possível. Não temos diferenciação salarial. Não oferecemos premiações.
Portanto, o único mecanismo de controle – e que não tem sido usado com muita eficiência – é a promoção. Mas são concursos em que o profissional concorre com ele mesmo, caso da livre-docência, ou com os demais, caso das vagas de professor titular. Há vantagens salariais nos dois casos.
Um programa instituído em 2011 criou a progressão horizontal, sistema em que o profissional passa de doutor 1 para doutor 2 e vai evoluindo. As mudanças não pressupõem aprovação de uma banca, e os aumentos salariais que proporciona são menos significativos. É cedo ainda para saber se isso surtiu o efeito desejado.
Criamos também um grupo para propor mudanças no regime de dedicação exclusiva, revendo critérios de promoção e progressão na carreira.
O sistema atual compromete a inovação?
Os pesquisadores precisam se arriscar mais, sair da zona de conforto que os leva a projetos de sucesso garantido de antemão. Ora, isso permite que a vida deles transcorra sem surpresas muito positivas ou negativas, o tempo passa, eles criam vínculos estáveis e passam a dispor de uma estrutura de pesquisa. Para quê? Para con­ti­nua­rem repetindo experimentos consagrados.
Tudo bem que isso, de certa forma, contribui para o progresso, mas não é essa abordagem que produz grandes e decisivas descobertas. Sem salto no escuro não surgem avanços revolucionários. Os que se arriscam mais são sempre os mais jovens. Depois eles se casam, têm filhos, ficam mais prudentes, e o sistema aceita.
Atualmente, no Brasil, tanto as universidades quanto as agências de pesquisa premiam a prudência e inibem a inovação.
Recentemente, 110 alunos do programa Ciência sem Fronteiras retornaram ao Brasil por não terem fluência em inglês. Como essa deficiência afeta a produção acadêmica?
Esse problema no Ciência sem Fronteiras serviu de alerta para todos. Ele é resultante também da má qualidade do ensino secundário. De modo geral, um estudante da PUC do Chile teve acesso ao ensino médio de maior qualidade e, diferentemente do brasileiro, já chega à faculdade competente em inglês. Mas não podemos nos esquivar do problema. Quando o graduando receber o diploma, ele trabalhará em uma sociedade global em que o inglês é necessário.
Posso dizer que a prioridade número 1 da USP hoje é garantir o conhecimento da língua inglesa para os seus alunos. Já neste ano, a USP oferecerá aulas de inglês aos estudantes da graduação em parceria com o British Council.
A USP atualmente compromete 105% do que capta com a folha de pagamento e está próxima da insolvência. O senhor fazia parte do Conselho Universitário que aprovou as contas da gestão anterior. Como se chegou a essa situação?
O Conselho Universitário não tinha consciência dessa situação financeira. Durante todo o segundo semestre do ano passado não houve reuniões do Conselho Universitário. Nem o próprio orçamento foi discutido e aprovado. Tivemos de aprová-lo neste ano.
Esses fatos não foram discutidos, ninguém tinha informações reais. Precisamos investigar onde tais decisões foram tomadas e onde as informações pararam de circular. Para isso, resolvemos contratar uma auditoria externa para buscar respostas a essas perguntas. Essa história precisa ser contada de maneira formal.
Mas não é verdade que a universidade se encontra em estado de insolvência. Há uma dificuldade financeira conjuntural que será resolvida. » Clique para continuar lendo

UM ESPANTO: Fidel Castro e sua inacreditável ilha particular (que não é Cuba)


PARAÍSO SECRETO — Localizada a 15 quilômetros do litoral sul de Cuba, Cayo Piedra é, desde a década de 60, o refúgio particular e preferido de Fidel Castro (Foto: Reprodução/VEJA)
PARAÍSO SECRETO — Localizada a 15 quilômetros do litoral sul de Cuba, Cayo Piedra é, desde a década de 60, o refúgio particular e preferido de Fidel Castro (Foto: Reprodução/VEJA)
A ILHA DO CARA
Revelado o segredo dos altos índices de desenvolvimento humano em Cuba.
Eles devem estar sendo medidos na ilha privativa de Fidel Castro, um paraíso nababesco
Reportagem de Leonardo Coutinho publicada em edição impressa de VEJA
Cultuado pelos partidos de esquerda do Brasil e da América Latina, Fidel Castro vende com facilidade a falsa imagem do revolucionário despojado, metido antes em farda de campanha e, agora, na decrepitude, em agasalhos esportivos Adidas que ganha de presente da marca alemã.
Inúmeros relatos de pessoas que privaram da intimidade de Fidel haviam arranhado a aura de asceta do ditador cubano. Sabia-se que ele manda fazer suas botas de couro, sob medida, na Itália; que tem um iate e um jato particulares; come do bom e do melhor – enfim, nada diferente da vida luxuosa levada, em despudorado contraste com a miséria do povo, por tantos ditadores de todos os matizes ideológicos no decorrer da história.
Mas, como manda o manual do esquerdismo latino-americano, que nunca conseguiu se afastar do culto ao caudilhismo populista, se a realidade sobre Fidel desmentir a lenda, que prevaleça a lenda. Assim, a farsa sobrevive. Assim, as novas gerações vão sendo ludibriadas.
Resta ver se a farsa vai resistir às revelações sobre a corte de Fidel que aparecem na autobiografia de um ex-guar­da-costas do ditador, Juan Reinaldo Sánchez. O livro, que está chegando às livrarias brasileiras no fim de junho com o título A Vida Secreta de Fidel (Editora Paralela), revela excentricidades que seriam aberrantes mesmo para um bilionário capitalista.
Algum rentista de Wall Street tem uma criação particular de golfinhos destinados unicamente a entreter os netos?
Fidel tem.
Os líderes das empresas mais valorizadas do mundo, Google e Apple, que valem centenas de bilhões de dólares, são donos de ilhas particulares secretas, vigiadas por guarnições militares e protegidas por baterias antiaéreas?
Com um total de 1,5 quilômetro de extensão, as duas ilhotas têm uma estrutura luxuosa e recebem exclusivamente familiares e amigos íntimos do ditador (Foto: Reprodução/VEJA)
Com um total de 1,5 quilômetro de extensão, as duas ilhotas têm uma estrutura luxuosa e recebem exclusivamente familiares e amigos íntimos do ditador (Foto: Reprodução/VEJA)
Fidel tem tudo isso em sua ilha – e não se está falando de Cuba, que, de certa forma, é também sua propriedade particular.
O que o ex-guarda-costas revela em detalhes é a existência de uma ilha ao sul de Cuba onde Fidel Castro fica boa parte do seu tempo livre desde a década de 60. Nada mais condizente com uma dinastia absolutista do que uma ilha paradisíaca de usufruto exclusivo da família real dos Castro.
Juan Reinaldo Sánchez narra a liturgia diária do séquito de provadores oficiais que experimentam cada prato de comida e cada garrafa de vinho que chegam à mesa do soberano para garantir que não estejam envenenados. “A vida inteira Fidel repetiu que não possuía nenhum patrimônio além de uma modesta cabana de pescador em algum ponto da costa”, escreve Sánchez no seu livro.
A modesta cabana de Fidel é uma imensa casa de veraneio de 300 metros quadrados plantada em Cayo Piedra, ilha situada a 15 quilômetros da Baía dos Porcos, no mar caribenho do sul de Cuba. Quando Fidel conheceu Cayo Piedra, logo depois do triunfo de sua revolução de 1959, o lugar lhe pareceu o refúgio ideal para alguém decidido a nunca mais deixar o poder.
Eram duas ilhotas desertas sobre um banco de areia com uma rica fauna marinha. Condições excelentes para a caça submarina, um dos passatempos do soberano resignatário de Cuba. Muito se especulava sobre a existência do resort de Fidel, mas sua localização só se tornou conhecida agora, depois da publicação do livro de Sánchez. » Clique para continuar lendo

‘Na melhor hipótese, um filme-catástrofe’, de Rolf Kuntz


Publicado no Estadão deste sábado
ROLF KUNTZ
A presidente Dilma Rousseff parece ter-se inspirado em filmes-catástrofe para governar. Se esse for mesmo o caso, ainda há esperança: aqueles filmes terminam bem, ou pelo menos tão bem quanto possível depois de muita devastação. Mas essa, por enquanto, é só uma hipótese otimista, rejeitada por economistas do Banco Central (BC) e desmentida, até agora, pelas principais fontes oficiais de informação. As novas projeções do BC apontam inflação maior e crescimento econômico menor que os previstos em março no relatório trimestral de inflação. O desastre fiscal de maio – um rombo de R$ 10,5 bilhões nas contas primárias do governo central – confirmou a piora geral do quadro econômico. Foi o pior resultado das contas públicas neste ano, mas perfeitamente compatível com a evolução das finanças federais. De janeiro a maio, a receita líquida do governo central, R$ 412,74 bilhões, foi 6,5% maior que a de um ano antes, mas a despesa, R$ 393,58 bilhões, ficou 11,1% acima da contabilizada nos primeiros cinco meses de 2013.
Como consequência, o superávit primário, destinado ao pagamento de juros, ficou em R$ 19,16 bilhões, 42,4% abaixo do valor do mesmo período do ano anterior. Esse resultado foi equivalente a apenas 0,91% do produto interno bruto (PIB). Parece muito difícil, nesta altura, a meta fixada para o ano, um resultado primário correspondente a 1,9% do PIB. Mas a meta será alcançada, prometeu na sexta-feira o secretário do Tesouro, Arno Augustin. Ele se dispensou de dizer como esse alvo será atingido. Mas a experiência indica uma resposta muito provável: como fez em anos anteriores e nos primeiros meses deste ano, o governo federal poderá recorrer a arranjos contábeis para fechar o balanço das contas públicas.
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‘A Marcha dos Infames’, nova música de Lobão


lobao
A MARCHA DOS INFAMES
(Lobão)
Aqueles que não são
E que jamais serão
Abusam do Poder
demência e obsessão
Insistem em atacar
Com as chagas abertas do rancor
E aos incautos fazer crer
Que seu ódio no peito é amor

Tanto martírio em vão
Estupro da nação
Até quando esse sonho ruim,
esse pesadelo sem fim?
Apedrejando irmãos
E os que não são iguais
A destruição é a fé,
E a morte e a vida, banais
E um céu sem esperança
a Infâmia cobriu
com o manto da ignorância
o desastre que nos pariu
E o sangue dos ladrões
De outros carnavais
Na veia de vilões
Tratados como heróis
E até quando ouvir
Cretinos e boçais
Mentir, mentir, mentir
Eternamente mentir
Mas o dia chegará
em que chão da Pátria irá tremer
e o que não é, não mais será
em nome do povo, o Poder
Clique aqui para escutar A Marcha dos Infames

27 junho 2014

Acuado, o PT decide acionar a tecla da intolerância, com decreto bolivariano e lista negra de jornalistas_Por José Serra

O PT não é um partido muito tolerante já a partir de seus próprios pressupostos originais e de seu nome: quem se pretende um partido “dos” trabalhadores, não “de” trabalhadores, já ambiciona de saída a condição de monopolista de um setor da sociedade. Mais ainda: reivindica o poder de determinar quem pertence, ou não, a essa categoria em particular. Assim, um operário que não vota no PT, por exemplo, não estará, pois, entre “os” trabalhadores; do mesmo modo, o partido tem conferido a “carteirinha” de operário padrão a pessoas que jamais ganharam o sustento com o fruto do próprio trabalho.
A fórmula petista é conhecida: a máquina partidária suja ou lava reputações a depender de suas necessidades objetivas. Os chamados bandidos de ontem podem ser convertidos à condição de heróis e um herói do passado pode passar a ser tratado como bandido. A única condição para ganhar a bênção é estabelecer com o ente partidário uma relação de subordinação. A partir daí não há limites. Foi assim que o PT promoveu o casamento perverso do patrimonialismo “aggiornado”, traduzido pela elite sindical, com o patrimonialismo tradicional, de velha extração.
(…)
Não tendo mais auroras a oferecer, não sabendo por que governa nem por que pretende governar o País por mais quatro anos, e percebendo que amplos setores da sociedade desconfiam dessa eterna e falsa luta do “nós” contra “eles”, o petismo começa a adentrar terrenos perigosos. Se a prática não chega a ameaçar a democracia – tomara que não! –, é certo que gera turbulências na trajetória do País. No apagar das luzes deste mandato, a presidente Dilma Rousseff decide regulamentar, por decreto – quando poderia fazê-lo por projeto de lei –, os “conselhos populares”. Não por acaso, bane o Congresso do debate, verticalizando essa participação, num claro mecanismo de substituição da democracia representativa pela democracia direta. Na Constituição elas são complementares, não excludentes. Por incrível que pareça – mas sempre afinado com o bolchevismo sem utopia –, o modelo previsto no Decreto 8.243 procura substituir a democracia dos milhões pela democracia dos poucos milhares – quase sempre atrelados ao partido. É como se o PT pretendesse tomar o lugar da sociedade.
Ainda mais detestável: o partido não se inibe de criar uma lista negra de jornalistas – na primeira fornada estão Arnaldo Jabor, Augusto Nunes, Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Guilherme Fiuza, Danilo Gentili, Marcelo Madureira, Demétrio Magnoli e Lobão –, satanizando-os e, evidentemente, expondo-os a riscos. É desnecessário dizer que tenho diferenças, às vezes severas, com vários deles. Isso é parte do jogo. É evidente que o regime democrático não comporta listas negras, sejam feitas pelo Estado, por partidos ou por entidades. Mormente porque, por mais que se possa discordar do ponto de vista de cada um, em que momento eles ameaçaram a democracia? Igualmente falsa – porque há evidência dos fatos – é que sejam tucanos ou “de oposição”. Não são. Mas, e se fossem? Num país livre não se faz esse tipo de questionamento.
Acuado pelos fatos, com receio de perder a eleição, sem oferecer uma resposta para os graves desafios postos no presente e inexoravelmente contratados para o futuro, o PT resolveu acionar a tecla da intolerância para tentar resolver tudo no grito. Cumpre aos defensores da democracia contrariar essa prática e essa perspectiva. Não foi assim que construímos um regime de liberdades públicas no Brasil. O PT está perdendo o eixo e tende a voltar à sua própria natureza.
Leia a íntegra aqui

16 junho 2014

Deu na PewResearch

Leiam. É em inglês. 
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Brazilian Discontent Ahead of World Cup

President Rousseff Gets Poor Marks on Key Issues
Sharp Uptick in Brazilian DissatisfactionThe national mood in Brazil is grim, following a year in which more than a million people have taken to the streets of major cities across the country to protest corruption, rising inflation and a lack of government investment in public services such as education, health care and public transportation, among other things. A new survey by the Pew Research Center finds that 72% of Brazilians are dissatisfied with the way things are going in their country, up from 55% just weeks before the demonstrations began in June 2013.
Economic Ratings Plummet in BrazilOpinions about the national economy have changed even more dramatically over this one-year period. Two-thirds now say Brazil’s once-booming economy is in bad shape, while just 32% say the economy is good. In 2013, the balance of opinion was reversed: a 59%-majority thought the country was in good shape economically, while 41% said the economy was bad. Economic ratings had been consistently positive since 2010, when Pew Research first conducted a nationally-representative survey of Brazil.
Most Say Hosting World Cup Is Bad for BrazilBrazilians are also concerned about the impact that hosting the World Cup, which begins June 12, will have on their country. About six-in-ten (61%) think hosting the event is a bad thing for Brazil because it takes money away from schools, health care and other public services — a common theme in the protests that have swept the country since June 2013. Just 34% think the World Cup, which Brazil will host for the first time since 1950 and which could attract more than 3.5 million people to the nation’s twelve host cities, will create more jobs and help the economy.
There is also skepticism about the international benefit of hosting the World Cup. About four-in-ten (39%) say it will hurt Brazil’s image around the world while an almost equal number (35%) say it will help; 23% say it will have no impact.
These are among the major findings from the latest survey of Brazil by the Pew Research Center. The survey is based on face-to-face interviews conducted between April 10 and April 30, 2014 among a representative sample of 1,003 randomly selected adults from across the country.
Inflation, Crime, Health Care and Corruption Top ConcernsThe survey also finds widespread concern about rising prices: 85% say this is a major problem in the country. And at least two-thirds also say a lack of employment opportunities and the gap between the rich and the poor are very big problems.
In addition to economic concerns, large majorities also describe crime (83%), health care (83%), political corruption (78%) and poor quality schools (64%) as major problems. To be sure, these are not new challenges in Brazil. Pew Research surveys conducted since 2010 have documented similarly widespread concern with a range of social, political and economic issues, including crime, corruption and inflation. But the current level of frustration Brazilians express with their country’s direction, its economy and its leaders is unmatched in recent years.

Rousseff’s Dismal Ratings on Key Issues

Mixed Views of Rousseff's InfluenceBrazilian President Dilma Rousseff receives overwhelmingly negative ratings for her handling of important issues facing the country. And while about half say the president is having a positive influence on the way things are going in the country, this is in sharp contrast to opinions of Rousseff’s predecessor and supporter, Luiz Inácio Lula da Silva, in the last year of his two-term presidency. In 2010, more than eight-in-ten (84%) said Lula was having a positive impact on Brazil.
Like Lula, Rousseff receives better overall ratings from those with lower incomes and lower levels of education. But while Lula’s influence was seen in a positive light by majorities across all demographic groups, Rousseff receives negative ratings from most Brazilians with a post-secondary education (70%) and higher incomes (61%).1 Majorities of those with a primary education or less (56%) and lower incomes (58%) say the president’s overall impact on the country is positive.
Widespread Disapproval of Rousseff's Handling of Key IssuesOpinions of Rousseff’s handling of specific issues are far more negative than assessments of her overall influence. Clear majorities disapprove of the way the president is dealing with all nine issues tested: corruption (86% disapprove), health care (85%), crime (85%), public transportation (76%), foreign policy (71%), education (71%), preparations for the World Cup (67%), poverty (65%) and the economy (63%).
Disapproval of the president’s handling of key issues is high across demographic groups, but tends to be particularly widespread among the more affluent and more educated, as well as among those who live in urban areas.
Rousseff Viewed More Favorably than Her ChallengersYet, despite her low approval ratings, the president is viewed more favorably than her main challengers in the October election, who remain less well known. Roughly half (51%) have a favorable opinion of Rousseff, who represents the Workers’ Party (PT), about double the share that say the same about Aécio Neves (27%), the candidate of the Brazilian Social Democracy Party (PSDB), or Eduardo Campos (24%) of the Brazilian Socialist Party (PSB). All three candidates have unfavorable ratings hovering around the 50% mark. Roughly one-in-four do not offer an opinion of Rousseff’s challengers.

Declining Views of National Groups and Institutions

Views of Groups and Institutions Souring in BrazilBrazilians express far less confidence in key groups and institutions than they did four years ago. Fewer than half (47%) say the national government is having a positive influence on the way things are going in Brazil, down from 75% in 2010.
The police, already among the lowest-rated institutions in Brazil four years ago, receive even less support today. Amid reports of excessive use of police force during last  year’s protests and highly publicized cases of police brutality, just 33% of Brazilians currently say the police are having a good influence on their country, compared with 53% in 2010.
Similarly, about half (49%) now say the military is having a positive impact on the way things are going in Brazil, down from the 66% that shared this view in 2010. And while the media still receives mostly positive ratings, fewer say its influence is positive than did so four years ago (69% vs. 81% in 2010).
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09 junho 2014

ELEIÇÕES 2014: Porque os números do Datafolha de sexta-feira são muito ruins para Dilma

Republico o post de Ricardo Setti (Veja.com):
Em ordem alfabética, os candidatos a presidente Aécio Neves (PSDB), Dilma Rousseff (PT), Eduardo Campos (PSB) e Marina Silva, vice de Campos (Fotos: J. R. Duran :: Ueslei Marcelino :: Lia Lubambo :: Exame)
Em ordem alfabética, os candidatos a presidente Aécio Neves (PSDB), Dilma Rousseff (PT), Eduardo Campos (PSB) e Marina Silva, vice de Campos (Fotos: J. R. Duran :: Ueslei Marcelino :: Lia Lubambo :: Exame)
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Deixei de comentar no dia — na sexta-feira, 6 — mas, com essas coisas (pesquisa de intenção de voto para presidente), nunca é tarde para dar um pitaco.
Quem achar que é implicância o que vou escrever sobre a presidente Dilma, que ache — fazer o quê?
Faço a análise que acho correta dos dados do Datafolha, na minha modesta opinião pessoal o instituto mais confiável de todos, por não trabalhar nunca para partidos e candidatos.
Aécio Neves (PSDB) mudar de 20% das preferências para 19% significa, na prática, estabilidade, ainda mais para um pré-candidato que tem até agora exposição quase zero nas emissoras de TV e que ainda não é suficientemente conhecido pelo eleitorado.
Já a presidente Dilma cair de 37% para 34% — mais uma queda, entre várias que vêm ocorrendo em diferentes institutos — é um sintoma grave para uma candidatura que começou explodindo de favoritismo.
Pior do que para Dilma são as notícias que chegam a Eduardo Campos, do PSB, o ex-governador de Pernambuco que se aliou a Marina Silva. Ir de 11% para 7% significa realmente desabar, acima de qualquer margem de erro.
Ainda é cedo para dizer isso, mas começa a apontar no horizonte uma fuga de eleitores de Campos-Marina rumo aos indecisos e que, como não são votos petistas, poderão cair no colo de Aécio mais adiante.
A foto tirada pelo Datafolha ao realizar o levantamento não é agradável para a presidente em vários outros aspectos. Ela apresentava 44% das intenções de voto no Datafolha de fevereiro, e Aécio e Eduardo Campos, juntos, chegavam a 25% — uma diferença de 19 pontos percentuais. Agora, em maio, os dois candidatos de oposição têm praticamente a mesma coisa, pouquinho mais (26%), mas, com seus 34%, Dilma fez a diferença realmente DESPENCAR — de 19 pontos percentuais para apenas 8!!!
Outro dado péssimo para a presidente para se refere ao segundo turno. Se em fevereiro ela venceria um dos nomes da oposição — no caso, Aécio — com o dobro dos votos, ou seja, 54% a 27% dos válidos, em junho a presidente exibe 46%, ao passo que Aécio pula para com 38%.
Dilma caiu 8 pontos, Aécio, sem cobertura quase alguma na TV, subiu 11— a diferença diminuiu uma enormidade, repito, uma ENORMIDADE, passando de 19 pontos percentuais para somente 8.
Também diminuiu a rejeição a Aécio e a Eduardo Campos, e subiu a de Dilma, mas, como lembrou o Reinaldo Azevedo, referindo-se a dados aos quais a mídia confere pouquíssimo destaque, “nada menos de 74% dos que responderam à pesquisa esperam que as ações do próximo governo sejam diferentes das que aí estão, e só 21% querem mais do mesmo”.
E Reinaldo conclui: “Quando indagados sobre quem poderia, então, operar essas mudanças, o nome mais lembrado ainda é o de Lula, com 35%, mas quem aparece em seguida, com 21%, é o tucano Aécio Neves. Dilma está apenas em terceiro, com 16%. Vale dizer: as pessoas querem outro rumo para o país e não acham que a atual presidente seja capaz de liderar a transformação”.

Cai, cai, Dilmão...vai perder a reeleição...

a charge datafolha

04 junho 2014

A charge de SPONHOLZ: os Silva e a corrupção do PT


a charge os silva

Educação terá 10% do PIB. Resolverá?

Leiam o que vai no blog de Reinaldo Azevedo (Veja.com):
Em relação ao PIB, o Brasil está entre os países que mais investem em educação: mais do que o Reino Unido (5,6% do PIB), a Suíça (5,5%), os EUA (5,5%) e o Japão (3,8%). Não obstante, apresentamos um dos piores desempenhos. Vamos ver: a Holanda investe percentualmente pouco mais do que nós: 5,9% do seu PIB. Está em 10º lugar no Pisa, o exame internacional que mede a proficiência dos estudantes. Investindo 5,7%, o nosso país está em 53º lugar.
Vejam a tabela de países da OCDE com o percentual de investimento em relação ao PÌB, a posição no ranking e o desempenho no PISA.
investimento-em-educação-OCDE
Se este país chegar mesmo a investir 10% do seu PIB em educação — o que, se querem saber, duvido que aconteça um dia —, saltará para o topo do ranking, sempre considerando, claro!, que o nosso Produto Interno Bruto está ali pelo sétimo ou oitavo lugar. E sabem o que vai acontecer? Se não houver uma profunda reforma no sistema educacional, a resposta é nada. Teremos quase o dobro do gasto de hoje para colher os mesmos resultados pífios.

Pew Research Center, em ampla pesquisa, afirma que brasileiros desaprovam o governo Dilma

O descontentamento com o governo se estende às mais diversas áreas, segundo aponta o Pew Research Center, em quadro publicado pelo Estadão. Vejam:
descontentes com Dilma

03 junho 2014

‘O governo acabou’, de Marco Antonio Villa

Publicado no Globo desta terça-feira
MARCO ANTONIO VILLA
O governo Dilma definha a olhos vistos. Caminha para um fim melancólico. Os agentes econômicos têm plena consciência de que não podem esperar nada de novo. Cada declaração do ministro da Fazenda é recebida com desdém. As previsões são desmentidas semanas depois. Os planos não passam de ideias ao vento. O governo caiu no descrédito. Os ministérios estão paralisados. O que se mantém é a rotina administrativa. O governo se arrasta como um jogador de futebol, em fim de carreira, aos 40 minutos do segundo tempo, em uma tarde ensolarada.
Apesar do fracasso — e as pífias taxas de crescimento do PIB estão aí para que não haja nenhum desmentido —, Dilma é candidata à reeleição. São aquelas coisas que só acontecem no Brasil. Em qualquer lugar do mundo, após uma pálida gestão, o presidente abdicaria de concorrer. Não aqui. E, principalmente, tendo no governo a máquina petista que, hoje, só sobrevive como parasita do Estado.

A permanência no poder é a essência do projeto petista. Todo o resto é absolutamente secundário. O partido necessita da estrutura estatal para financeiramente se manter e o mesmo se aplica às suas lideranças — além dos milhares de assessores.
É nesta conjuntura que o partido tenta a todo custo manter o mesmo bloco que elegeu Dilma em 2010. E tem fracassado. Muitos dos companheiros de viagem já sentiram que os ventos estão soprando em sentido contrário. Estão procurando a oposição para manter o naco de poder que tiveram nos últimos 12 anos. O desafio para a oposição é como aproveitar esta divisão sem reproduzir a mesma forma de aliança que sempre condenou.
Como o cenário político foi ficando desfavorável à permanência do petismo, era mais que esperada a constante presença de Lula como elemento motivador e agregador para as alianças. Sabe, como criador, que o fracasso eleitoral da criatura será também o seu. Mas o sentimento popular de enfado, de cansaço, também o atingiu. O encanto está sendo quebrado, tanto no Brasil como no exterior. Hoje suas viagens internacionais não têm mais o apelo do período presidencial. Viaja como lobista utilizando descaradamente a estrutura governamental e intermediando negócios nebulosos à custa do Erário.
Se na campanha de 2010 era um presidente que pretendia eleger o sucessor, quatro anos depois a sua participação soa estranha, postiça. A tentativa de transferência do carisma fracassou. Isto explica por que Lula tem de trabalhar ativamente na campanha. Dilma deve ficar em um plano secundário quando o processo eleitoral efetivamente começar. Ela não tem o que apresentar. O figurino de faxineira, combatente da corrupção, foi esquecido. Na história da República, não houve um quadriênio com tantas acusações de “malfeitos” e desvios bilionários, como o dela. O figurino de gerentona foi abandonado com a sucessão de “pibinhos”. O que restou? Nada.
Lula está como gosta. É o centro das atenções. Acredita que pode novamente encarnar o personagem de Dom Sebastião. Em um país com uma pobre cultura democrática, não deve ser desprezada a sua participação nas eleições.
A paralisia política tem reflexos diretos na gestão governamental. As principais obras públicas estão atrasadas. Boa parte delas, além do atraso, teve majorados seus custos. Em três anos e meio, Dilma não conseguiu entregar nenhuma obra importante de infraestrutura. Isto em um país com os conhecidos problemas nesta área e que trazem sérios prejuízos à economia. Mas quando a ideologia se sobrepõe aos interesses nacionais não causa estranheza o investimento de US$ 1 bilhão na modernização e ampliação do porto de Mariel. Ou seja, a ironia da história é que a maior ação administrativa do governo Dilma não foi no Brasil, mas em Cuba.
Os investimentos de longo prazo foram caindo, os gastos para o desenvolvimento de educação, ciência e tecnologia são inferiores às necessidades de um país com as nossas carências. Não há uma área no governo que tenha cumprido suas metas, se destacado pela eficiência e que o ministro — alguém lembra o nome de ao menos cinco deles? — tenha se transformado em referência, positiva, claro, pois negativa não faltam candidatos.
O irresponsável namoro com o populismo econômico levou ao abandono das contas públicas, das metas de inflação e ao desequilíbrio das tarifas públicas. Basta ver o rombo produzido no setor elétrico. A ação governamental ficou pautada exclusivamente pela manutenção do PT no poder. As intervenções estatais impuseram uma lógica voluntarista e um estatismo fora de época. Basta citar as fabulosas injeções de capital — via Tesouro — para o BNDES e os generosos empréstimos (alguns, quase doações) ao grande capital. E a dívida pública, que está próxima dos R$ 2,5 trilhões?
No campo externo as opções escolhidas pelo governo foram as piores possíveis. Mais uma vez foi a ideologia que deu o tom. Basta citar um exemplo: a opção preferencial pelo Mercosul. Enquanto isso, o eixo dinâmico da economia mundial está se transferindo para a região Ásia-Pacífico.
Ainda não sabemos plenamente o significado para o país desta gestão. Mas quando comparamos os nossos índices de crescimento do PIB com os dos países emergentes ou nossos vizinhos da América Latina, o resultado é assustador. É possível estimar que no quadriênio Dilma a média sequer chegue a 2%. A média dos emergentes é de 5,2%, e da América Latina, de 3,2%. E o governo Dilma ainda tem mais sete meses pela frente. Meses de paralisia econômica. Haja agonia.

GOL CONTRA – Insatisfação de brasileiros com o país é igual à de populações de países árabes convulsionados, aponta instituto

Por Cláudia Trevisan, no Estadão:
A percepção do brasileiro em relação à situação do País, à conjuntura econômica e ao governo Dilma Rousseff se deteriorou de maneira acentuada em apenas um ano, desde que milhares de pessoas tomaram as ruas do País para protestar contra a corrupção e a má qualidade dos serviços públicos, como revela levantamento inédito do Pew Research Center, um dos principais institutos de pesquisa dos EUA.
A radical mudança de humor em um espaço tão curto de tempo é rara, disse ao Estado Juliana Horowitz, brasileira responsável pelo trabalho. Segundo ela, o Pew Research realizou levantamentos em 82 países desde 2010 e só viu oscilações tão acentuadas em lugares que passaram por crises ou rupturas institucionais, como o Egito.
“O nível de frustração expressado pelos brasileiros em relação à direção de seu país, sua economia e seus líderes não tem paralelo em anos recentes”, diz o texto de apresentação da pesquisa. Horowitz ficou surpresa com a magnitude da transformação na opinião pública e atribuiu essa mudança principalmente à piora da situação econômica e ao aumento da inflação. A insatisfação com a realização da Copa do Mundo no Brasil também contribuiu: 61% dos entrevistados responderam que o evento é ruim para o País, por tirar recursos que poderiam ser usados em serviços públicos. Na comparação com o ano passado, a mudança mais acentuada de humor ocorreu na percepção da situação econômica. O porcentual dos entrevistados que a classifica de “ruim” subiu de 41% para 67%, enquanto o índice dos que a consideram boa caiu de 59% para 32%. A inflação foi apontada como o principal problema brasileiro por 85% dos entrevistados, pouco acima da criminalidade e da assistência médica, ambos com 83% das menções.

01 junho 2014

O pibinho, os gringos e a conspiração de São Pedro_Por Rolf Kuntz (no Estadão)

O pibinho, os gringos e a conspiração de São Pedro
* Rolf Kuntz
Com o desastre econômico do primeiro trimestre, uma expansão miserável de 0,2% combinada com inflação alta e enorme rombo comercial, a presidente-gerente Dilma Rousseff completou três anos e três meses de fracasso econômico registrado oficialmente. O fracasso continua, como confirmam vários indicadores parciais, e continuará nos próximos meses, porque a indústria permanece emperrada e o ambiente econômico é de baixa produtividade. Mas o ministro da Fazenda, Guido Mantega, parece desconhecer a história dos últimos três anos e um quarto. Em criativa entrevista, ele atribuiu o baixo crescimento brasileiro no primeiro trimestre a fatores externos e a problemas ocasionais. A lista inclui a instabilidade cambial, a recuperação ainda lenta das economias do mundo rico e a inflação elevada principalmente por causa dos alimentos. Culpa dos gringos, portanto, e isso vale igualmente para o judeu Simão, também conhecido como São Pedro, supervisor e distribuidor das chuvas e trovoadas.
No triste cenário das contas nacionais divulgadas nesta sexta-feira, só se salva a produção agropecuária, com crescimento de 3,6% no trimestre e de 4,8% no acumulado de um ano. Os detalhes mais feios são o investimento em queda e o péssimo desempenho da indústria. Em sua pitoresca entrevista, o ministro da Fazenda atribuiu o baixo investimento à situação dos estoques e ao leve recuo - queda de 0,1% - do consumo das famílias, causado em grande parte pela alta do custo da alimentação. A explicação pode ser instigante, mas deixa em total escuridão o fiasco econômico dos últimos anos, quando o consumo, tanto das famílias quanto do governo, cresceu rapidamente.
O investimento em máquinas, equipamentos, construções civis e obras públicas - a chamada formação bruta de capital fixo - caiu, como proporção do produto interno bruto (PIB), durante toda a gestão da presidente Dilma Rousseff.
No primeiro trimestre de 2011, quando o governo estava recém-instalado, essa proporção chegou a 19,5%. Caiu seguidamente a partir daí, até 17,7% nos primeiros três meses de 2014. Durante esse período o consumo das famílias aumentou velozmente, sustentado pela expansão da renda e do crédito, mas nem por isso os empresários investiram muito mais.
Além disso, o governo foi incapaz de ir muito além da retórica e das bravatas quando se tratou de executar as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Nem as obras da Copa avançaram no ritmo necessário, apesar do risco de um papelão internacional.
A estagnação da indústria reflete o baixo nível de investimentos, tanto privados quanto públicos, e a consequente perda de poder de competição. Por três trimestres consecutivos a produção industrial tem sido menor que nos três meses anteriores. Encolheu 0,1% no período julho-setembro, diminuiu 0,2% no trimestre final de 2013 e 0,8% no primeiro deste ano. Não há como culpar as potências estrangeiras ou celestiais por esse desempenho.
O conjunto da economia brasileira é cada vez menos produtivo, embora alguns segmentos, como o agronegócio, e algumas empresas importantes, como a Embraer, continuem sendo exemplos internacionais de competitividade.
O baixo crescimento do PIB, apenas 0,2% no trimestre e 2,5% em 12 meses, reflete essa perda de vigor, associada tanto à insuficiência do investimento em capital fixo quanto à escassez crescente de pessoal qualificado. Não por acaso, o País apareceu em 54.º lugar, numa lista de 60 países, na última classificação de competitividade elaborada pelo International Institute for Management Development (IMD), da Suíça.
O baixo desempenho da economia, especialmente da indústria, tem tudo a ver com a piora das contas externas. O efeito mais evidente é a erosão do saldo comercial. No primeiro trimestre, período de referência das contas nacionais atualizadas, o País acumulou um déficit de US$ 6,1 bilhões no comércio de mercadorias. O resultado melhorou um pouco desde abril, mas na penúltima semana de maio o buraco ainda era de US$ 5,9 bilhões. O Banco Central (BC) continua projetando um saldo de US$ 8 bilhões para o ano, muito pequeno para as necessidades brasileiras. No mercado, a mediana das projeções coletadas em 23 de maio na pesquisa semanal do BC indicava um superávit de apenas US$ 3 bilhões.
Estranhamente, os deuses parecem ter poupado outros países dos males atribuídos pelo ministro da Fazenda ao quadro externo. Outras economias continuaram crescendo mais que a brasileira e com inflação menor, apesar de sujeitas à instabilidade dos mercados financeiros e a outros problemas internacionais. A inflação no Brasil tem permanecido muito acima da meta oficial, 4,5%, e a maior parte das projeções ainda aponta um resultado final em torno de 6% para 2o14. Até agora, o recuo de alguns preços no atacado pouco afetou o varejo e os consumidores continuam sujeitos a taxas mensais de inflação superiores a 0,5%. O ritmo poderá diminuir nos próximos meses, mas, por enquanto, as estimativas indicam um repique nos quatro ou cinco meses finais de 2014.
O aperto monetário, interrompido pelo BC na quarta-feira, pode ter produzido algum efeito, mas o desajuste das contas do governo ainda alimenta um excesso de demanda. Na quinta-feira o Tesouro anunciou um superávit primário de R$ 26,7 bilhões nos primeiros quatro meses. Quase um terço desse total, R$ 9,2 bilhões, ou 31%, correspondeu a receita de concessões e dividendos. As concessões renderam 207,4% mais que no período de janeiro a abril do ano passado. Os dividendos foram 716,4% maiores que os do primeiro quadrimestre de 2013. Chamar isso de arrecadação normal e recorrente sem ficar corado vale pelo menos um Oscar de ator coadjuvante. A economia vai mal, mas a arte cênica brasileira ainda será reconhecida. Há mais valores entre o céu e a terra do (que) sonham os críticos da política econômica.