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27 agosto 2024

Auto-biografia do prof. Pinheiro (*) < Cap. I >

 

< Capítulo I >

MEU PAI 'VALDÉ' - UM ARIGÓ SOLDADO DA BORRACHA

 

Meu pai 'Valdé' (assim chamado por minha mãe Alzira - modo carinhoso para Waldetário, seu verdadeiro (?) nome, isto quando ela esta 'de bem' com ele),  tinha 18 ou 19 anos quando se alistou em Fortaleza como ‘soldado da borracha’, por volta de 1941. Após se alistar, Valdé ‘foi embarcado’ em um daqueles ‘itas do Norte’ (alusão à música de Dorival Caymi) e, sem passar por Manaus, foi mandado direto para o ‘inferno verde’ (Euclides da Cunha) das bandas do 'Acre’.

Não sei que vantagem haveria para um sujeito sair do sertão (onde Pernambuco se encontra com o Ceará), entre Crato e Granito, onde o sol inclemente ferve os miolos do sertanejo, para embrenhar-se nos seringais “do Acre”. Valdé se alistou no Exército para extrair o 'leite' de seringa e assim ajudar os aliados no esforço de guerra (II Guerra Mundial). Enquanto nosses heróis da FEB compabiam os alemães e italianos na europa, nossos soldados da borracha “combatiam”, além do sistema servil a que foram relegados nas selvas do Amazonas, os mesmos tinham de combater outros inimigos: ‘mosquitos da malária e febre amarela’; ‘cobras peçonhentas’; ‘tifo’, e outras mazelas.

Valdé me dizia ser de Granito – lugarzinho de pé de serra, vizinho do Crato cearense -, onde ele nasceu aí por volta de 1923. Tudo na vida de Valdé era incerto. Nesse ‘pé-de-serra’ - dizia ele - para obter água tinha de “ia buscar por léguas e léguas de distância, em lombo de jumento”.

O calor escaldante da selva era diferente do calor seco do sertão. Na servidão do aviamento, Valdé viveria um outro tipo de inferno. Fora outras questões como doenças, a bebida e a violência, ‘o calor amazônico cozinhava o cérebro’. Esse relato foi do próprio Valdé (Waldetário, assim chamado quando estava sóbrio; quando bêbado, Walter Dário. Vá saber...). Valdé morreu de câncer do estômago em fevereiro de 1977. Aos 55 anos. Um desperdício... Valdé era um homem de muitas prendas: ourives; relojoeiro; marceneiro e carpinteiro; pintor; e cachaceiro (de fazer e de beber cachaça).

Pelos relatos, a vida de ‘soldado da borracha’ não era diferente da vida dos antigos ‘seringueiros’. Estes, ao chegarem em um seringal, ou ‘colocação’ (na linguagem deles), recebia um ‘kit’ composto por roupas próprias para o trabalho no seringal (calça e camisas de mangas compridas, feitas de algodão cru); botas de borracha; poronga de cabeça (lamparinas a querosene); caneca de coletar a seiva; ferramenta para “sangrar” as árvores de seringueira, etc.

Ao receber esse 'kit', o soldado/seringueiro já chegava no seringal devendo. Esse 'kit' seria pago com borracha coletada. Ou seja, com o fruto do trabalho de coleta.

Da mesma maneira se dava a aquisição, pelos soldados/seringueiros, de ‘produtos da cidade’, levados pelos 'regatões' (barcos que trocavam açúcar; café; sal; cachaça; arroz; feijão; etc., por borracha, - o 'aviamento'). Era um verdadeiro escambo. O soldado/seringueiro sempre ficava devendo ao 'aviador', pois os preços desses ‘produtos da cidade’ eram sempre mais caros do que o preço da borracha produzida pelos seringueiros. Era uma relação de servidão.

Naquela época, a borracha ficou conhecida como ‘ouro negro’ (pelo seu grande valor e em razão da cor das ‘pélas’ - bolas de borracha após a defumação do látex).

O látex é uma seiva leitosa retirada das árvores das seringueiras. As seringueiras nativas ficam espalhadas aleatoriamente na selva, à mercê do pipocar das sementes de seringas. A seringueira não admite concorrência de outras árvores de sua espécie.

A coleta da seiva era controlada por meio de “estradas”, traçadas idealmente pelos seringalistas no meio da selva, na tentativa de se evitarem disputas.

Entre 1880 e 1912, a borracha fez a fortuna dos ‘seringalistas’, os ‘imperadores do Acre’ (no dizer de Márcio Souza in ' Galvez, o impredor do Acre'; ‘A expressão amazonense’; e 'Mad Maria').

O centro histórico de Manaus ainda hoje reflete o fausto daquela época com seu opulento teatro e suas casas em estilos inglês e francês por conta da riqueza gerada pela borracha. Ganhou imponentes construções, casarões em estilos europeus. Ingleses, franceses, etc. O Teatro Amazonas é a mais vistosa dessas construções. Foi construído a fim de proporcionar a execução de peças de óperas, de recitais de músicas clássicas orquestradas, em grandes eventos culturais somente encontrados em grandes teatros de Viena, de Paris... Em contraponto, havia o ‘cabaré chinelo’ (recentemente restaurado), que fazia a delícia dos ‘coronéis’, com putas francesas de fino trato e grandes “cachês”. Lembram a música ‘The lady is a trump’, na voz de Frank Sinatra. As damas eram umas vagabundas. Chiques. Cheirosas. Falando francês e inglês.

 Voltando aos seringais, onde os infelizes seringueiros comiam o ‘pão que o Diabo amassou’, a vida corria lenta, ao sabor dos rios e igarapés, da umidade de quase 100%, que garante um calor que torna esse lugar em um verdadeiro ‘estágio para o inferno’. Mas há um contraste: as noites podem ser extramente frias.

Os soldados-seringueiros passavam seus dias cortando as cascas dos caules das árvores de seringueiras - cortes feitos em formato de “y”, feitos com ferramentas próprias para isso -, recolhendo-lhes o ‘leite’ ao final de cada dia. Como já dito, esse “leite” era a seiva da árvore (branca como leite), que escorria de cima a baixo e eram recolhidos em ‘canecas’ que eram incrustradas na árvore, no final do corte em “y”.

A borracha era chamada de “ouro negro”, como já explicado, e essa cor era adquirida em razão da maneira pela a qual os seringueiros defumavam esse ‘leite’ e faziam com ele uma espécie de “bola de futebol americano” em uma vara que girava como se fosse um churrasco, sob a fumaça, enquanto se derramava o leite sobre a “bola”, fazendo-a ficar cada vez maior, camada após camada.

Em 1912, a economia do látex chegou ao seu pico de produção e preço. Manaus, de Parias dos Trópicos passou a 'porto-de-lenha' (em alusão aos catanarães a vapor que cruzavam os rios do Amazonas).

Esse ano também coincidiu com o início da produção de borracha na Malásia (possessão inglesa onde as sementes e mudas de seringueiras da Amazônia foram furtadas, aclimatadas e plantadas racionalmente em 'estradas' retas, o que facilitava a coleta e tornava seus custos de produção e de extração extremamente baixos. Deflação de custos. Um verdeiro paradoxo. Maior produção e maior preço para, em seguida, estagnação da produção e menor preço internacional.

Portanto, nós amazônidas, fomos na verdade “furtados” pelos ingleses. A Amazônia até hoje é objeto da ambição estrangeira pelos seus recursos naturais: minérios; biodiversidade, etc. E fruto de ambição e contrabando de nossas riquezas minerais e biológicas e farmacológicas.

O ‘seringal’ da Zona Franca de Manaus (ZFM) também está se acabando.

“Mas essa terra ainda vai cumprir seu ideal: ainda vai tornar-se um império colonial”. (Chico Buarque, parodiando Fernando Pessoa).

De 1.912 em diante, Manaus e a Amazônia viveram sua bancarrota. Viraram ‘porto de lenha’ da música de Torrinho (como já dito, em alusão aos barcos a vapor que na época faziam o transporte de passageiros na região. Os famosos catamarãs. Os ‘itas do Norte’, da música de Caymi).

Voltando aos seringais, onde Valdé servia à 'pátria-mãe-gentil', este, não aguentando o sistema servil que ali imperava e sem atinar que estava ali também como ‘soldado’ e não como mero seringueiro, evadiu-se, desertou, escafedeu-se, e fugiu rio abaixo, e foi parar nas bandas do Careiro da Várzea.

No Careiro da Várzea, o delegado Setembrino Diniz emitiu um RG para o Valdé. Gostava dele pelas cantorias e por limpar ao redor da delegacia como pena após a brigas de cachaça.

Valdé se considerava um 'artista', com sua viola de doze cordas, repentista que era, passou a fazer ‘cantorias’ pelas fazendas e sítios naquela ilha de várzea e arredores: Careiro; Manaquiri; Autazes; Lago do Janauacá; Curari, etc.

O Careiro da Várzea invariavelmente alaga, ano após ano, pelas eras sem fim. Ali Valdé conheceu e conquistou Alzira (minha mãe e de mais dois irmãos, Renato e Jânia), filha de Guilherme, um cearense do sertão do Crato, vizinho de Granito, terra de Valdé, da família dos ‘Pinheiros’. Judeus Sefarditas.

Reza a lenda que eram judeus que mudaram seus nomes como ‘stein’, ‘cohen’, ‘ben’, p.e., para nomes de árvores, tais como: ‘Pinheiro’; ‘Pereira’; ‘Mangueira’; ‘Mangabeira’, etc. Outros, mudaram seus nomes para nomes de animais, tais como: ‘Bezerra’; ‘Carneiro’; ‘Leão’; ‘Leitão’, etc. Outros ainda, para nomes de insetos como: ‘Barata’; ‘Puga’; ‘Aranha’, etc.

Guilherme e Maria, portanto, eram meus avós maternos. Maria era índia da etnia dos Muras: índios autóctones da região do Careiro, Autazes, Manacapuru, Manaquiri. Maria era índia dos cabelos lisos e caídos, “negros como a noite que não tem luar” (da música de Cascatinha e Inhãna). Imagino que olhar para a minha avó Maria era o mesmo que olhar para minha mãe; para minha tia Alice; e para as minhas filhas Bruna; Alice; e Clara. Santo DNA!

Valdé, agora casado e pai de dois filhos, Raimundo e Renato, partiu para ‘ganhar a vida’. Alguns dizem que ele ‘caiu na vida’. Como já dito, além de ‘cantador’, também era ‘ourives’; ‘relojoeiro’; ‘agricultor’; ‘carpinteiro’; ‘pintor’; ou seja, um ‘homem de sete instrumentos’. Após a morte de meus avós, Valdé sumia na várzea e nos abandonava, eu, meu irmão Renato e minha mãe Alzira. Depois se somou nessa desdita nossa irmã Jânia.

Quando Valdé parava em casa, no sítio herdado pela minha mãe Alzira, podíamos ver nele um profícuo agricultor. Ao contrário dos caboclos da região, Valdé limpava o beiradão do sítio enquanto a água ia subindo. Na vazante, a terra já estava pronta para o plantio, ganhando tempo. Eu fazia isso junto com ele. Com uma vara pontiaguda, eu socava o solo e punha as sementes que levava em uma sacola: tomate; pepino; abóbora; maxixe; quiabo; milho; etc. Produtos de ciclo curto. Em três meses havia colheita.

O sítio era uma nesga de terras de 150 m de frente (pelo Paraná do Careiro) e cerca de 1000m, ou mais, de fundos (pelo Lago dos Reis). Ao o rio iniciar sua vazante, o solo estava próprio para plantar. E Valdé plantava de tudo o que se podia em termos de produtos de ciclo curto: batatas; abóboras; pimentões; milho; tomates, etc. Descrevo isso a partir de minha própria experiência e memória de menino de seus cinco anos.

Contudo, o prazer da colheita logo dava lugar à frustração em razão do preço obtido pela venda desses produtos, como resultado do abandono dos produtores pelo Poder público, que deixava os mesmos ao sabor da sanha dos atravessadores, os quais pagavam um valor miserável ao produtor.

Desanimado com essa situação, Valdé desistia de ser agricultor e voltava às suas atividades “artísticas” de 'cantador', as quais lhe davam mais dinheiro e mais prazer. Cantava os cordéis de Cego Aderaldo; João Grilo; 'Deus e o diabo na terra do sol'...

Minha mãe Alzira, eu e meu irmão Renato ficávamos vivendo daquilo que ainda sobrava das colheitas; das frutas e verduras; das galinhas e seus ovos; de peixes pescados por amigos; de leite, coalhada e queijos feitos pelos fazendeiros amigos. Que também doavam as vísceras e alguma carne para minha mãe a cada quinze dias. Havia fartura. Não passávamos fome no ‘Careiro da Várzea’. Acho que Valdé se fiava nisso.

Meus avós morreram e foram enterrados em frente do sítio, onde ficava o cemitério do Careiro da Várzea. Minha mãe morria de medo de cemitério. Eu não entendia por quê. Isso fez com que ela acabasse aceitando a ideia de Valdé, que era de vender o sítio e irmos nos aventurar em Manaus. Contra a vontade de meus tios Waldemar; Alice; Edgar; Antônio. Não sabíamos da desgraça que seria essa nefasta decisão de vender o sítio e ir morar em Manaus! Estou escrevendo essa história em cordel.

 

 (*) Prof. Pinheiro é técnico em estradas; administrador; advogado; mestre em administração, e especialista em docência superior.

20 agosto 2024

 

Prof. Pinheiro (*)

Os donos do Poder no Brasil: patrimonialismo e estamento burocrático.

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O Brasil é um país sui gêneris! Ou seja, difícil de copiar. Não é para amadores...

Já na origem da dominação portuguesa no Brasil, com a chegada da armada de Cabral, o ‘Estado’ português se fez presente por estas bandas. Os autóctones (índios, na narrativa fraudulenta de Cabral e cia), foram cooptados pela troca de presentes como espelhos, apitos, instrumentos de corte, etc. Em contrapartida, os tuxauas ofereciam macacos, frutas, araras, e suas meninas à luxúria dos marinheiros (vide Darcy Ribeiro, in ´O povo brasileiro´). O marinheiro que se desse ao desfrute dessas “Evas” tropicais sem saber estava se “casando” com toda a família dela, a começar pelo pai dela, o Tuchaua. Daí o termo ´cunhadismo´ de Darcy Ribeiro. Até hoje é assim. Cunhado não é parente, mas se acha...

Os caboclos advindos dessa miscigenação não se identificavam nem com o índio e nem com o português, passando à condição de ´zé ninguém´. Assim foi-se formando o ´povo brasileiro´, composto por essa ´ninguemzada´, sem raça definida e sem identidade nacional.

Mais tarde, o mesmo fenômeno de miscigenação se deu pelo relacionamento entre os filhos dos senhores de engenho com as negras escravas nos engenhos de açúcar, descrito por Gilberto Freire em sua monumental obra ´Casa grande e senzala´.

O sentimento de brasilidade demorou a surgir. Ou foi se amoldando lentamente com o passar do tempo. Apenas no século dezenove essa brasilidade aparece mais explícita, culminando na Inconfidência Mineira. Cumpre aqui lembrar a influência da independência dos EUA (1.776) e da Revolução francesa (1.789).

Portanto, a ‘nação brasileira’ é fruto dessa miscigenação acerba, que foi se formando ao longo dos séculos de dominação portuguesa. Como corolário desse fenômeno, tem-se a criatividade proverbial do brasileiro. Mas também sua indisciplina. Aqui virtude se confunde com defeito.

Após o fim da escravidão, em 1.888, vieram os europeus para exploração do café e de outras atividades, formando verdadeiros enclaves populacionais (colônias fechadas). Italianos, alemães, japoneses, turcos, libaneses, etc.

Assim, o primeiro ‘Estado’ “brasileiro” chegou pronto de Portugal nas caravelas de Cabral.  Com sua armada, sua bandeira, seu hino, e sua burocracia. Portanto, antes mesmo que houvesse uma ‘Nação brasileira’, o Brasil foi administrado pelo Estado português. Pero Vaz de Caminha lavrou em sua famosa Carta o ato de posse da terra. Há relatos que dão conta da presença anterior dos portugueses no Brasil por meio da esquadra de Gaspar de Lemos, que inclusive integrava a frota de Cabral. Mas essa é outra história.

Voltemos ao conceito de Estado: ´Estado é a Nação politicamente organizada´. Assim, pela falta de uma ‘Nação brasileira’ (na época haviam inúmeras nações, constituídas pelos indígenas, que viviam em sua condição primitiva, sem organização estatal), foi o Estado português que se fez presente desde o descobrimento. Um Estado sem Nação. Para que surja a figura do Estado são necessárias as existências de três elementos: território, povo e língua (ou cultura). Principalmente que esses elementos formem uma unicidade cultural.

No Brasil na época do descobrimento haviam os elementos todos, mas de maneira multifacetada. Haviam muitos povos, muitas línguas e muitas culturas, mas faltava unidade. Por isso, o Direito era emanado a partir das ‘Ordenanças’ portuguesas ‘Manoelina’ (referente a Dom Manoel) e ‘Filipinas’ (referente a Dom Felipe).

O Estado é uma forma superior de organização. Antes disso, são os costumes que prevalecem. Geralmente por imposição de uma figura carismática e religiosa. Com a crescente complexidade das relações sociais, com a divisão do trabalho e a estratificação social em castas (ou estamentos), com as ´classes´ sociais estratificadas em forma piramidal, cuja base é composta por escravos ou servos e os soldados (os que trabalham, a infraestrutura social); e, no topo, a nobreza (reis, sacerdotes, escribas, etc.), compondo a superestrutura social (os que não trabalham). As ´Classes´ intermediárias vão se acomodando, tendo como suporte as ordens vindas de cima, da superestrutura (com os seus privilégios hereditários, por meio dos ‘aparelhos ideológicos’). A classe média, em todos os tempos e em todo lugar, reproduz a ideologia dominante emanada do topo da pirâmide. E a impõe às classes subalternas por meio dos seus aparelhos repressores.

O termo ´classe´ social é aceito pelos historiadores e sociólogos apenas para descrever o fenômeno capitalista a partir da industrialização, no século dezenove.

Raymundo Faoro, em sua magistral obra ‘Os donos do Poder’, identifica nosso proverbial ´patrimonialismo´ e ´estamento´ burocrático como tendo sua gênese no Estado português a partir de cerca de 1.300 a.D.

Antes de prosseguirmos, ofereço aqui a ‘operacionalização’ dos conceitos de ´patrimonialismo´ e ´estamento burocrático´: o primeiro termo se refere ao desvio moral dos burocratas, pelo qual estes se apropriam dos dinheiros públicos para enriquecimento pessoal. Já o termo ´estamento burocrático´ é a falta de mobilidade social entre as classes.

Num verdadeiro ciclo vicioso, o ´patrimonialismo´ instrumentaliza o ´estamento burocrático´. Os recursos desviados do patrimônio público para os patrimônios particulares garantem a perpetuação dos burocratas no Poder. Isso se dá mediante fraudes e regras jurídicas criadas casuisticamente para lhes favorecer.

No Brasil, o sistema eleitoral, tal como descrito em meu artigo anterior, é o órgão burocrático garantidor do ‘sistema’. O TSE surge aqui como o árbitro-mor do estamento burocrático, que legitima o patrimonialismo.

No período histórico identificado por Raymundo Faoro, se formou o Estado português tendo por base o ´direito divino´ dos reis, a ´monarquia absolutista´ e o ´monopólio comercial´. O rei era o comerciante-Mor. Isso enriqueceu o monarca. E empobreceu a Nação. Esse modelo deu azo a um Estado extremamente pesado, inchado e corrupto. Quando esse Estado aportou no Brasil em 1.500 trouxe consigo toda sorte de descalabro administrativo, financeiro e moral. Está na origem do nosso patrimonialismo e do nosso estamento burocrático.

Laurentino Gomes (in ‘1.808’) demonstra “como uma rainha louca (D. Maria I), um príncipe medroso (D. João) e uma corte corrupta enganaram Napoleão Bonaparte e mudaram a História de Portugal e do Brasil”.

Para manter um Estado com essas características, faz-se necessária uma carga tributária imensa. Daí a ordem da Coroa portuguesa de estabelecer, por volta de 1.789, uma cobrança desproporcional de 20% (um quinto) de todo ouro existente em posse dos brasileiros. Eram os “quintos dos infernos” (verbalizado por D. Carlota Joaquina ao deparar-se com o Rio De Janeiro).

Essa cobrança escorchante e confiscatória desembocou na ‘Inconfidência Mineira’, e na delação dos inconfidentes (alferes Tiradentes e seus seguidores) por um contumaz devedor de tributos à Coroa portuguesa (Joaquim Silvério dos Reis). Tiradentes foi esquartejado por ordem de D. Maria I, a Louca. Seus companheiros foram degredados para outras colônias portuguesas na África. A ordem de morte e esquartejamento de Tiradentes foi executada pelo Marquês de Pombal.

Interessante é que, hoje, nossa ´máquina pública´ cobra cerca de 40% de carga tributária para que o ‘estamento burocrático’ se mantenha no Poder. E isso não causa nenhuma comoção insurgente.

A pergunta que não quer calar é a seguinte: por que o povo não se revolta com isso?

A resposta é até certo ponto simples: porque a nossa carga tributária é indireta, isto é, não atinge diretamente os patrimônios. Os tributos indiretos são repassados para “toda” a sociedade, posto que incorporados aos preços dos produtos. ICMS, ISS, IOF, IPI, etc., são repassados aos preços. O povo não sabe identificar quanto está pagando de carga tributária. É um modelo perverso e desproporcional, pois quem tem menos acaba pagando mais. Os pobres carregam nas costas o estamento burocrático. E este concentra cada vez mais riqueza em suas mãos.

O estado brasileiro vem tentando se organizar desde o Império. De lá para cá, foram feitas as Constituições de 1824; 1.989; 1934; 1.946; 1964-69; e 1.988. O estamento burocrático sempre esteve no comando dessas tentativas.

 Com a “reforma” tributária que está sendo feita, a mencionada carga tributária aumentará mais ainda, e seu produto se concentrará nas mãos da União (governo federal), que distribuirá esses recursos sem nenhum critério constitucional claro. É o famoso IVA (com seus desdobramentos). Sob o comando do ‘’estamento burocrático. Em benefício dos patrimonialistas.

Já os tributos diretos (IR, IPTU, IPVA, ITR, etc.), que atingiriam o patrimônio e a renda dos brasileiros, estes são objeto de “planejamento” tributário, pelo qual o ´estamento burocrático’, legislando em seu favor, deixa de pagar. É a tal de elisão fiscal.

O Brasil não é para amadores.

O estamento burocrático é hereditário. Daí o fenômeno do ‘filhotismo’ político, sobre o qual trataremos em artigo próximo.

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(*) Administrador e advogado, mestre em Administração e especialista em docência superior.

19 agosto 2024

 Prof. Pinheiro (*)

Brasil: quem são os donos do Poder.

As eleições no Brasil nunca se contentaram em circunscrever-se apenas aos distritos regional ou local. E nem aos períodos de tempo designados para cada pleito.

As estratégias eleitorais montadas pelos caciques partidários (são 29 partidos registrados nesta data, segundo site do TSE: www.tse.jus.br), vão desde a designação dos candidatos pensando nos resultados imediatos da atual refrega e se estendem às candidaturas das eleições seguintes.

O Brasil saiu de um quadro bipartidário em 1980 (Arena x PDS) para o quadro multipartidário de hoje. Aliás, não é de hoje. Desde a anistia política de 1979 e a consequente repatriação dos antigos caciques da esquerda, como Leonel Brizola, Miguel Arraes e outros, o quadro partidário se segmentou, dadas as vaidades e interesses pessoais desses caciques. Desde então, o Brasil se esfarelou partidariamente. Mas, na verdade, o que conta mesmo no geral são três espectros políticos: os partidos de esquerda (PT e seus partidos satélites); os partidos de direita (PL e seus satélites. Se muito, uns três partidos), e os partidos de centro (aqueles que oscilam entre esquerda e direita, ao sabor das negociatas). Todos se dizendo “democráticos”.

Para gerir essa geleia partidária, o Brasil criou uma jabuticaba: o TSE e seus espelhos regionais (os TREs), com poderes quase absolutos sobre o Processo Eleitoral, legislando e julgando todos os atos sobre as eleições; sobre os partidos; sobre os candidatos; sobre a propaganda eleitoral; sobre as finanças; e sobre os resultados eleitorais. A par das urnas eletrônicas sem apuração pública do somatório dos votos, que é feito por um computador centralizado no TSE e que tem dado margem a inúmeras controvérsias. Principalmente o seu custo financeiro, sua estrutura nababesca e as mordomias de seus membros. Fora as dúvidas acerca das decisões tomadas ao sabor dos casuísmos.

O processo eleitoral brasileiro ainda conta com um grande problema que é o financiamento das campanhas. Seja privado, seja público, pela via dos seus Fundos partidário e eleitoral, os caciques se digladiam para comandar esses Fundos e daí exercerem seus nacos de Poder.

Abstraindo todo esse caldo de cultura, tendo como certos os seus resultados, montam-se os cenários municipal, regional e federal. Uns dependendo dos outros.

Daí que uma eleição nunca é apenas uma eleição, mas várias concatenadas umas nas outras, em que os resultados de umas influenciam as outras. Dos resultados eleitorais de 2024 se processarão as estratégias para 2026.

Dando nomes aos bois, nesta eleição de 2024 se movimentam Lula e o PT x Bolsonaro e o PL. Este provavelmente com maior influência nas Regiões Norte, Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Aquele com maior influência no Nordeste. Os resultados dirão quem irá se cacifar melhor para 2026. Tudo sob a supervisão do TSE...

 

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(*) Administrador e advogado, mestre em Administração e especialista em docência superior.

 

Prof. Pinheiro (*)_19.08.2024

O Camelô morreu! Viva o Camelô!

Silvio Santos (Senor Abravanel) morreu neste sábado.

Pablo Marçal “nasceu” no debate eleitoral da BAND!

Ambos tinham em comum a mesma origem “profissional”.

Sílvio Santos começou a vida vendendo bugigangas nas ruas. Fazia, sem teoria nenhuma, o que os marqueteiros recomendam aos bons vendedores: oferecia às pessoas “coisas de que (talvez) não necessitavam, para pagarem com dinheiro que (eventualmente) não tinham ”. Em outras palavras, criava necessidade. Despertava o interesse em seu público. Chamava a atenção dos transeuntes para seus "incríveis" produtos. Despertava neles o interesse, o desejo. E finalmente a aquisição. Na verdade, era um excepcional animador de plateias. Fez disso a razão de sua vida com o Baú da Felicidade. Na Globo, na TVS e no SBT. Nunca deixou de ser camelô. Fez fortuna! Cada uma das filhas (7), dizem, receberá algo como R$ 100 milhões. A viúva, cinco vezes mais! Soma de mais de 1 bilhão de reais.

É emblemático que quase ao mesmo tempo surja no cenário nacional a figura de um Pablo Marçal. Ao contrário de Sílvio, já chega rico, milionário, e “vendendo” aos paulistanos o “sonho” de terem parte de seus problemas resolvidos nas áreas mais diversas, tendo como substrato teórico a formação de animador de investidores de internet (que os adversários chamam pejorativamente de coaching), de financista, além de bacharel em direito. Principalmente um gestor de inúmeros negócios bem-sucedidos. Um empreendedor.

Marçal se apresentou no debate de maneira completamente disruptiva, debochada mesmo, vestido de maneira informal, com boné na cabeça (e mensagem subliminar com um M estampado), quebrando as regras há tanto tempo estabelecidas pelos marqueteiros eleitorais e pelas emissoras de tv, que transformaram os debates eleitorais em algo detestável de assistir. Um festival de platitudes sobre temas previamente estabelecidos, sorteados, com tempo de pergunta e de resposta. Um saco!

Marçal destruiu com isso tudo. De propósito. Tornou-se a sensação do pleito. Em uma semana tocou o terror nas três candidaturas até então melhor avaliadas pelos institutos de pesquisa. Parece que não irão mais a nenhum debate com a presença de Pablo. Fugiram?

Boulos foi “exorcizado“ com a CTPS em resposta à provocação de que Pablo era uma espécie de “padre Kelmon”. Viralizou nas redes sociais! Boulos virou meme.

Nunes se apequenou. Não tem posição definida. Nem esquerda, nem direita. Virou um “zé ninguém”. Provavelmente, vai amargar o abandono dos bolsonaristas.

Tábata foi rotulada por Pablo como “para-choque de comunista” e “adolescente mimada”.

Datena provavelmente seguirá os passos de Boulos. Apoiador de comunista e invasor de propriedades (um valor desprezado pelos comunistas desde sempre).

É paradoxal que o direitista Pablo Marçal tenha feito hoje o mesmo que fez o esquerdista Mário Covas  com Paulo Maluf nos anos 80/90: quebrou todas as regras do debate.

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(*) Administrador e advogado, mestre em Administração e especialista em docência superior.

08 agosto 2014

A contadora de Alberto Yousseff conta tudo à revista VEJA. Prefeituras do PT eram a grande fonte do doleiro

Vou republicar aqui o post de Reinaldo Azevedo. É, infelizmente, um caso corriqueiro nestes últimos 12 anos, quase 13.
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A revista VEJA desta semana traz uma reportagem com Meire Bonfim Poza. Eis a capa.
capa da veja
Quem é ela? Meire era a contadora do doleiro Alberto Yousseff. Meire viu, ouviu e participou de algumas das maiores operações do grupo acusado de lavar R$ 10 bilhões de dinheiro desviado de obras públicas e destinado a enriquecer políticos corruptos e a corromper outros com pagamento de subornos. Qual era a fonte privilegiada da mamata? Prefeitura do PT.
Meire Poza viu malas de dinheiro saindo da sede de grandes empreiteiras, sendo embarcadas em aviões e entregues nas mãos de políticos. Durante dois anos, Meire manuseou notas fiscais frias, assinou contratos de serviços inexistentes, montou empresas de fachada, organizou planilhas de pagamento. Ela deu ares de legalidade a um dos esquemas de corrupção mais grandiosos desde o mensalão.
Meire sabe quem pagou, quem recebeu, quem é corrupto, quem é corruptor. Conheceu de perto as engrenagens que faziam girar a máquina que eterniza a mais perversa das más práticas da política brasileira. Meire Poza era a contadora do doleiro Alberto Youssef — e ela decidiu revelar tudo que viu, ouviu e fez nos dois anos em que trabalhou para o doleiro.
“O Beto era um banco de dinheiro ruim. As empreiteiras acertavam com os políticos, e o Beto entrava para fazer o trabalho sujo. Ele passava o tempo todo levando e trazendo dinheiro, sacando e depositando. Tinha a rede de empresas de fachada para conseguir notas e contratos forjados”, diz. Um dos botes mais ousados de Youssef, segundo ela, tinha como alvo prefeituras comandadas pelo PT.
O doleiro pagava propina de 10% para cada prefeito que topasse apostar em um fundo de investimento criado por ele. “E era sempre nas prefeituras do PT. Ele falava: ‘Onde tiver PT, a gente consegue colocar o fundo’”. André Vargas era um parceiro fiel. O deputado estava empenhado em fazer com que dois fundos de pensão de estatais, o Postalis (dos Correios) e a Funcef (da Caixa Econômica Federal), injetassem R$ 50 milhões em um dos projetos do doleiro.
Leiam a reportagem. É de estarrecer. As empreiteiras que fizeram contratos com a Petrobras não se saem bem na história. É um esquema de corrupção que rivaliza com o do mensalão e que, muito provavelmente, o supera no valor movimentado. Vejam qual é o “modus operandi” deles.

06 agosto 2014

‘Para ocultar a podridão’, editorial do Estadão


Publicado no Estadão desta terça-feira
Só pode ter uma causa a farsa armada pelo governo, o PT e a Petrobrás na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o escândalo da compra da Refinaria de Pasadena, em curso no Senado – a seleção sob medida e o repasse antecipado das questões a cair nas sabatinas a que se submeteriam figurões da estatal, como revelou a revista Veja -: a ânsia de calafetar até a mais microscópica das frestas do caso para que permaneçam nas sombras as dimensões do pântano profundo que recobre os subterrâneos da transação.
Segundo o transcrito de uma conversa de 20 minutos filmada a que a publicação teve acesso, o chefe do escritório da Petrobrás em Brasília, José Eduardo Sobral Barrocas, comentou com o advogado da empresa, Bruno Ferreira, e um terceiro interlocutor não identificado que o assessor especial da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, Paulo Argenta; o assessor da liderança do governo no Senado, Marco Rogério de Souza; e o assessor da liderança do PT na Casa, Carlos Hetzel, foram os autores das perguntas previamente encaminhadas à presidente da petroleira, Graça Foster, ao seu antecessor Sérgio Gabrielli e ao ex-diretor Nestor Cerveró, para que combinassem as respostas a fim de não cair em contradição. Eles depuseram na CPI entre os dias 20 e 27 de maio.
Dos 13 membros do colegiado, que tem 180 dias de prazo para apurar o negócio de Pasadena e as ligações de funcionários da Petrobrás com o doleiro Alberto Youssef, 10 são governistas. Maioria na Casa, as lideranças do PMDB, PT e de outras siglas da base do Planalto haviam se apropriado, numa operação a que não esteve alheia a presidente Dilma Rousseff, de uma iniciativa da oposição, quando ficou claro que não seria possível bloqueá-la. Lesados, os oposicionistas conseguiram emplacar outra CPI, dessa vez mista, e ignoraram a contrafação montada no Senado, tendo como presidente o peemedebista Vital do Rêgo e como relator o petista José Pimentel. Nem essa confortável situação era o bastante, agora se sabe. “Risco zero” foi a palavra de ordem.
Isso não pode ser atribuído a um velho cacoete petista nem, apenas, ao cuidado para que nada, absolutamente nada, possa respingar no projeto da reeleição de Dilma – que, em 2006, chefiando o Conselho de Administração da Petrobrás, autorizou a compra de metade da refinaria, por 8,5 vezes mais do que a sua proprietária, o grupo belga Astra Oil, havia pago pelo empreendimento inteiro, apenas um ano antes. A estatal acabaria enterrando na tenebrosa transação US$ 1,245 bilhão, com um prejuízo de US$ 792 milhões, segundo o Tribunal de Contas da União. Em decisão recente, que se seguiu a intenso trabalho de lobby, o órgão isentou a presidente de qualquer responsabilidade pelo maior rombo na história da empresa e resolveu abrir outra ação contra 11 dos seus diretores ou ex-diretores.
Por que então os operadores do Planalto, com a presumível cumplicidade do relator José Pimentel, prepararam e entregaram a “cola” da prova aos sabatinados? Repita-se: o único motivo que faz sentido era impedir que, por descuido, um deles desse uma pista das enormidades que possam estar por trás do escândalo de Pasadena. Não que inexistam indícios veementes disso. Basta citar um exemplo pontual, uma ponta de iceberg: um relatório da própria Petrobrás, obtido em abril pelo jornal O Globo, descobriu que, em fevereiro de 2010, US$ 10 milhões foram retirados da conta da refinaria mediante mera autorização verbal – não se sabe de quem, para quem e para quê. E Pasadena muito provavelmente não foi um raio em céu azul.
O PT no poder, ao aparelhar a Petrobrás, “criou um monstro”, como disse certa vez o general Golbery do Couto e Silva da sua criatura, o Serviço Nacional de Informações (SNI). E se há uma personagem central nesse processo, que permitiu o inadmissível na estatal, é a então ministra de Minas e Energia, depois titular do Gabinete Civil e, enfim, chefe do governo. Ninguém, ao longo desses anos, nem mesmo o ex-presidente Lula, há de ter tido influência comparável na estatal. É dela, portanto, a responsabilidade objetiva – não por uma ou outra decisão desastrosa ou falcatrua, mas pelo conjunto da obra.

27 julho 2014

‘O fiasco do Mercosul e a diplomacia de banquinho’, de Rolf Kuntz

O material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:
Publicado no Estadão deste sábado
ROLF KUNTZ
Foi uma semana dura para a diplomacia brasileira e revoltante para os anões. Na quinta-feira, o governo de Israel ofendeu os baixinhos de todo o mundo ao descrever o Brasil como um anão diplomático. Três dias antes, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, havia cobrado, em tom quase paternal, mais empenho de Brasília para a conclusão do acordo comercial do Mercosul com o bloco europeu. Os dois fatos evidenciaram, mais uma vez, a desmoralização e a falência da política externa brasileira, tanto na área comercial quanto na geopolítica. O fato coberto com maior destaque foi o bate-boca entre funcionários de Brasília e de Tel-Aviv, mas os dois episódios são partes da mesma história.
Anões, ao contrário da atual diplomacia brasileira, inaugurada em 2003, podem ser inteligentes, eficientes, equilibrados e relevantes. Outros governos têm pressionado o de Israel e cobrado a suspensão ou moderação dos ataques à Faixa de Gaza, mas nenhum deles pagou o mico de se explicar e de responder em tom quase meigo a um porta-voz de chancelaria. A explicação oferecida: o Brasil criticou apenas a violência “desproporcional” de Israel, sem contestar seu direito de defesa. A resposta complementar: o Brasil mantém relações diplomáticas com todos os membros da ONU e, portanto, se houver algum anão, será outro país. A explicação e a réplica foram apresentadas pelo chanceler Luiz Alberto Figueiredo. Polidamente, ele se absteve de mostrar a língua e de chamar de feio o funcionário israelense.

25 julho 2014

Como já era de se esperar, Dilma despencou nas pesquisas após a derrota da Seleção na Copa — e a situação atual não dá esperanças ao governo

Republico aqui a análise feita por Veja e publicada por Ricardo Setti, por importantíssima  para as pessoas de bem:


É TÓIS? — O Brasil lamenta o quarto gol da Alemanha: outros três ainda viriam. E Dilma não passou impune (Foto: AP Photo/Natacha Pisarenko)
É TÓIS? — O Brasil lamenta o quarto gol da Alemanha: outros três ainda viriam. E Dilma não passou impune (Foto: AP Photo/Natacha Pisarenko)

SIM, SOBROU PARA ELA
Os números da primeira pesquisa pós-Copa são ruins para a presidente Dilma. Mas a verdadeira má notícia para a petista é que eles deverão piorar
Reportagem de Pieter Zalis publicada em edição impressa de VEJA

O Datafolha respondeu à pergunta que estampou a capa de VEJA na semana de 16 de julho. A candidata Dilma Rousseff não passou impune pela indignação popular produzida pela pior derrota sofrida pela seleção brasileira em sua história. O levantamento do instituto, feito nos dias 15 e 16, mostrou uma piora em todos os indicadores da petista.
“Sobrou para a presidente na medida em que ela perdeu o bônus que os bons resultados logísticos e de organização do evento prometiam trazer para sua campanha”, diz o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino.
As pistas desse bônus apareceram na pesquisa realizada pelo instituto durante a Copa, entre os dias 1º e 2 de julho, quando Dilma subia 4 pontos nas intenções de voto. “Depois do jogo trágico, o cenário das eleições voltou à situação pré-Copa.”
O levantamento divulgado na quinta-feira pelo Datafolha mostra que Dilma Rousseff perdeu 2 pontos nas intenções de voto e que a taxa de descontentes com seu governo é a pior desde o início de seu mandato – mais baixa até do que nos protestos de junho do ano passado: 29% de ruim ou péssimo, contra 25% no auge das manifestações.
Mas a má notícia de fato para a presidente não é que sua situação está ruim, como revelam os números – é que tende a piorar, como eles indicam numa análise mais atenta.
Afirma o cientista político Antonio Lavareda: “Como os candidatos da oposição ainda têm uma alta taxa de desconhecimento, o peso da avaliação do governo hoje é mais importante do que as intenções de voto. Será impossível Dilma se reeleger com uma aprovação de apenas 32% (taxa dos que ­veem seu governo como ‘ótimo ou bom’, se­gundo o Datafolha)”.
O cenário não está a favor da presidente Dilma (Gráfico: VEJA)
O cenário não está a favor da presidente Dilma (Gráfico: VEJA)
Há outro complicador para a petista, que pela primeira vez empata no segundo turno com o tucano Aécio Neves (44% a 40% para ela, com margem de erro de 2 pontos). Seu potencial de crescimento é o menor entre todos os principais candidatos.
O potencial de crescimento é um indicador do Datafolha que relaciona, com base em um cálculo matemático, os eleitores que não votam no candidato, mas o conhecem e não o rejeitam. Segundo Paulino disse a VEJA, o da presidente é de 18%, enquanto o de Aécio chega a 53% e o de Eduardo Campos (PSB) a 73%.
Afirma Paulino: “Hoje, o cenário de crescimento é claramente favorável aos candidatos da oposição”. Ou, dito de outra forma: a disputa eleitoral está ainda mais apertada do que mostram os números que castigam a presidente.

24 julho 2014

‘Estabilidade enganosa’, por Merval Pereira

Publicado no Globo desta quarta-feira
MERVAL PEREIRA
A boa notícia para a presidente Dilma que a pesquisa do Ibope Inteligência, feita a pedido da TV Globo e do Jornal O Estado de S. Paulo, traz é a estabilidade da corrida presidencial, embora sua tendência de queda tenha sido registrada, assim como o crescimento da candidatura oposicionista de Aécio Neves, ambas dentro da margem de erro.
Os indícios de que o futuro não guarda boas notícias para a incumbente estão, porém, registrados na pesquisa, assim como o noticiário econômico reforça a idéia de que ela não tem boas notícias daqui até a eleição. O fato de o próprio governo já estar admitindo uma inflação mais alta, próxima do teto da meta de 6,5% no ano, e o crescimento mais baixo, de 1,9%, já indica que dificilmente a situação econômica ajudará o projeto de reeleição.
A perspectiva de que entremos em uma recessão técnica, com dois trimestres negativos, é uma realidade que o governo terá que enfrentar. Esses dados têm como conseqüência a má avaliação do governo Dilma, com apenas 31% dos eleitores considerando-o bom ou ótimo, quando as pesquisas mostram que dificilmente um candidato à reeleição consegue êxito se tem avaliação de ótimo e bom abaixo de 35%.
A situação para um eventual segundo turno, que a pesquisa do Ibope indica ser provável, mostra a presidente Dilma com uma distância pequena, mas consistente, contra seu principal adversário, o candidato tucano Aécio Neves.
Melhor situação que o empate técnico apontado pelas pesquisas do Datafolha e do Sensus, mas sendo reduzida ao longo da campanha. Todos os gráficos mostram um crescimento dos oposicionistas e um decréscimo da presidente Dilma. Ela é escolhida por 41% dos eleitores brasileiros, enquanto o candidato do PSDB recebe 33%. É sintomático que a presidente Dilma cresça apenas três pontos em relação ao primeiro turno, e que Aécio acrescente 11 pontos percentuais à sua escolha. Até o candidato do PSB Eduardo Campos, que não cresce na pesquisa do primeiro turno, na simulação de um segundo turno contra Dilma aumenta incríveis 20 pontos percentuais, enquanto Dilma fica nos mesmos 41%.
A resiliência da presidente Dilma, no entanto, é uma força de sua candidatura. Independentemente de em quem irão votar, o Ibope constatou que mais da metade dos eleitores brasileiros (54%) acredita na sua reeleição. Isso não impede, no entanto, que Dilma continue sendo a candidata mais rejeitada de todos os que concorrem à presidência da República. Tem 36% de rejeição, contra 16% de Aécio Neves e 8% do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos.
A maneira como a presidente Dilma está governando o país é desaprovada por metade (50%) dos eleitores brasileiros, e aprovada por 44%. São números que mostram uma estabilidade enganosa, mas destacam também a dificuldade que os candidatos de oposição estão tendo para convencer que são capazes de realizar as mudanças desejadas por nada menos que 70% dos eleitores.

22 julho 2014

A queda de Dilma

Assistam a esse vídeo! É hilário!
Por essa eu não esperava tão cedo!

21 julho 2014

A HORA DA SAIDEIRA_João Ubaldo Ribeiro

Republico aqui o que Aufusto Nunes também republicou no seu blog em Veja.com:
Pena que João Ubaldo não tenha vivido para ver a derrocada do Império da Safadeza
Em 1° de outubro de 2012, o escritor João Ubaldo Ribeiro publicou no jornal O Globo uma crônica que retratou com perturbadora nitidez o desprezo de Lula por códigos éticos e a decomposição moral do PT. Pena que o grande romancista não tenha vivido para ver o desmoronamento do Império da Safadeza, anunciado pelas rachaduras no trono ainda ocupado por Dilma Rousseff.
Com dois anos de atraso, as pesquisas eleitorais vão desenhando o desfecho previsto no texto abaixo reproduzido. Confira. (AN)
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A HORA DA SAIDEIRA
João Ubaldo Ribeiro
Na semana passada, li um artigo do professor Marco Antonio Villa, que não conheço pessoalmente, mostrando, em última análise, como a era Lula está passando, ou até já passou quase inteiramente, o que talvez venha a ser sublinhado pelos resultados das eleições. Achei-o muito oportuno e necessário, porque mostra algo que muita gente, inclusive os políticos não comprometidos diretamente com o ex-presidente, já está observando há algum tempo, mas ainda não juntou todos os indícios, nem traçou o panorama completo.
O PT que nós conhecíamos, de princípios bem definidos e inabaláveis e de uma postura ética quase santimonial, constituindo uma identidade clara, acabou de desaparecer depois da primeira posse do ex-presidente. Hoje sua identidade é a mesma de qualquer dos outros partidos brasileiros, todos peças da mesma máquina pervertida, sem perfil ideológico ou programático, declamando objetivos vagos e fáceis, tais como “vamos cuidar da população carente”, “investiremos em saneamento básico e saúde”, “levaremos educação a todos os brasileiros” e outras banalidades genéricas, com as quais todo mundo concorda sem nem pensar.
No terreno prático, a luta não é pelo bem público, nem para efetivamente mudar coisa alguma, mas para chegar ao poder pelo poder, não importando se com isso se incorre em traição a ideais antes apregoados com fervor e se celebram acordos interesseiros e indecentes.
A famosa governabilidade levou o PT, capitaneado por seu líder, a alianças, acordos e práticas veementemente condenadas e denunciadas por ele, antes de chegar ao poder. O “todo mundo faz” passou a ser explicação e justificativa para atos ilegítimos, ilegais ou indecorosos.
O presidente, à testa de uma votação consagradora, não trouxe consigo a vontade de verdadeiramente realizar as reformas de que todos sabemos que o Brasil precisa — e o PT ostentava saber mais do que ninguém.
No entanto, cadê reforma tributária, reforma política, reforma administrativa, cadê as antigas reformas de base, enfim? O ex-presidente não foi levado ao poder por uma revolução, mas num contexto democrático e teria de vencer sérios obstáculos para a consecução dessas reformas.
Mas tais obstáculos sempre existem para quem pretende mudanças e, afinal, foi para isso que muitos de seus eleitores votaram nele.
O resultado logo se fez ver. Extinguiu-se a chama inovadora do PT, sobrou o lulismo. Mas que é o lulismo? A que corpo de ideias aderem aqueles que abraçam o lulismo? Que valores prezam, que pretendem para o país, que programa ou filosofia de governo abraçam, que bandeiras desfraldam além do Bolsa Família (de cujo crescimento em número de beneficiados os governantes petistas se gabam, quando o lógico seria que se envergonhassem, pois esse número devia diminuir e não aumentar, se bolsa família realmente resolvesse alguma coisa) e de outras ações pontuais e quase de improviso?
É forçoso concluir que o lulismo não tem conteúdo, não é nada além do permanente empenho em manter o ex-presidente numa posição de poder e influência. O lulismo é Lula, o que ele fizer, o que quiser, o que preferir.
Isso não se sustenta, a não ser num regime totalitário ou de culto à personalidade semirreligioso. No momento em que o ex-presidente não for mais percebido como detentor de uma boa chave para posições de prestígio, seu abandono será crescente, pois nem mesmo implica renegar princípios ou ideais. Ele agora é político de um partido como qualquer outro e, se deixou alguma marca na vida política brasileira, esta terá sido, essencialmente, a tal “visão pragmática”, que na verdade consiste em fazer praticamente qualquer negócio para se sustentar no poder e que ele levou a extremos, principalmente considerando as longínquas raízes éticas do PT. Para não falar nas consequências do mensalão, cujo desenrolar ainda pode revelar muitas surpresas.
O lulismo, não o hoje desfigurado petismo, tem reagido, é natural. Os muitos que ainda se beneficiam dele obviamente não querem abdicar do que conquistaram. Mas encontram dificuldades em admitir que sua motivação é essa, fica meio chato. E não vêm obtendo muito êxito em seus esforços, porque apoiar o lulismo significa não apoiar nada, a não ser o próprio Lula e seu projeto pessoal de continuar mandando e, juntamente com seu círculo de acólitos, fazendo o que estiver de acordo com esse projeto.
Chegam mesmo à esquisita alegação de que há um golpe em andamento, como se alguém estivesse sugerindo a deposição da presidente Dilma. Que golpe? Um processo legítimo, conduzido dentro dos limites institucionais?
Então foi golpe o impeachment de Collor e haverá golpe sempre que um governante for legitimamente cassado? Os alarmes de golpe, parecendo tirados de um jornal de trinta ou quarenta anos atrás, são um pseudoargumento patético e até suspeito, mesmo porque o ex-presidente não está ocupando nenhum cargo público.
É triste sair do poder, como se infere da resistência renhida, obstinada e muitas vezes melancólica que seus ocupantes opõem a deixar de exercê-lo. O poder político não é conferido por resultados de pesquisas de popularidade; deve-se, em nosso caso presente, aos resultados de eleições.
O lulismo talvez acredite possuir alguma substância, mas os acontecimentos terminarão por evidenciar o oposto dessa presunção voluntarista. Trata-se apenas de um homem — e de um homem cujas prioridades parecem encerrar-se nele mesmo.

17 julho 2014

Datafolha: Aécio empata com Dilma no 2º turno; rejeição à presidente cresce; cai a aprovação ao governo, e cresce a reprovação

Republico aqui as análises feitas por Reinaldo Azevedo sobre a pesquisa Datafolha:
Datafolha 17.07.2014 segundo turno
A pesquisa Datafolha encomendada pela Folha e pela Globo é muito ruim para a presidente Dilma Rousseff, do PT, candidata à reeleição. Se a disputa fosse hoje, ela teria 36% das intenções de voto. O tucano Aécio Neves aparece com 20%, e o peessebista Eduardo Campos, com 8%. Há 15 dias, o mesmo instituto conferia 38% à petista. Aécio tinha os mesmos 20%, e Campos, 9%. O pior para a presidente não está no primeiro turno, mas no segundo. No levantamento de agora, ela aparece com 44%, e Aécio, com 40%. Como a margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos, há uma situação de empate técnico. Em fevereiro deste ano, há cinco meses, a distância era de 27 pontos: 54% a 27%. Há duas semanas, de 7 (todos os gráficos que aparecem foram publicados pela Folha Online.
Também a distância que separa a petista do peessebista caiu drasticamente. Contra o ex-governador de Pernambuco, ela teria hoje 45% contra 38%. Em fevereiro, a distância era de 32 pontos: 23% a 55%. Há duas semanas, era de 35% a 48% — 13 pontos viraram sete. É feia a coisa. E pode piorar: a rejeição a Dilma também cresceu 3 pontos em relação ao começo do mês: de 32% para 35%. Em seguida, vem Pastor Everaldo, com 18%, seguido por Aécio, com 17% e por Campos, com 12%.
datafolha 17.07.2014
Observem: como é que um candidato com 8% das intenções de voto, ainda desconhecido por muita gente, como Campos, consegue 38% quando confrontado com Dilma, no mano a mano? Para quem está empatado com a presidente no segundo turno, Aécio mantém um índice ainda modesto no primeiro. Também ele tem um índice de conhecimento ainda muito inferior ao dela. O conjunto dos dados parece indicar que cresce a massa de eleitores que não quer mesmo saber de Dilma.
Datafolha 17.07 rejeição
17.07 primeiro turno
Avaliação do governo
A reprovação ao governo e a aprovação empataram, uma situação sempre temida pelos candidatos à reeleição: hoje, acham seu governo ótimo ou bom 32% dos entrevistados — há duas semanas, eram 35%. Consideram-no ruim ou péssimo, 29% (26 na pesquisa anterior). E os mesmos 28% o avaliam como regular.
O Datafolha ouviu 5.377 eleitores em 223 municípios na terça (15) e nesta quarta-feira (16). O levantamento foi encomendado pela Folha em parceria com a TV Globo.

A charge de SPONHOLZ: o que Lula não lê


a charge lula fhc

15 julho 2014

Voto eletrônico no Brasil não é confiável

Eu sempre desconfiei dessas urnas. Leiam o que foi publicado no blog de Ricardo Setti (Veja.com):
ATENÇÃO, ISTO É MUITO IMPORTANTE: Entre todos os países que adotaram o voto eletrônico, o Brasil é o único que ainda utiliza urnas que podem ser manipuladas
(Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
Urnas eletrônicas com tecnologia ultrapassada são utilizadas apenas no Brasil (Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
AS URNAS BRASILEIRAS ESTÃO ULTRAPASSADAS
Texto de Walter Del Picchia, professor aposentado da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e participante do Fórum do Voto Eletrônico
Um estudo publicado no site do voto eletrônico pelo engenheiro Amilcar Brunazo Filho, coordenador do Fórum do voto eletrônico e um dos maiores especialistas em segurança de dados, demonstra cabalmente que nossas urnas eletrônicas, endeusadas como a oitava maravilha do mundo, na realidade estão tecnicamente ultrapassadas pelas utilizadas nos dez países onde se realizam eleições informatizadas (Modelos e Gerações das máquinas de votar – Janeiro/2014).
Ele descreve os três modelos conhecidos (DRE, VVPAT e E2E), denominando-os como de Primeira, Segunda e Terceira gerações. Estas denominações traduzem o fato de que os três modelos surgiram como evolução, um após o outro, para resolver algum problema do modelo anterior.
Em todo o mundo onde se usa voto eletrônico, excluindo-se o Brasil, modelos de 1ª geração já foram abandonados, devido à sua inerente falta de confiabilidade e absoluta dependência do software (ou seja, modificações intencionais ou erros não detectados no software poderiam causar erros não detectados nos resultados da votação).
A 1ª Geração – DRE
Nas urnas de 1ª geração, conhecidas por DRE (Direct Recording Electronic voting machine — máquina de gravação eletrônica direta do voto), os votos são gravados apenas eletronicamente, não oferecendo possibilidade de auditoria por outros meios. Deste modo, a confiabilidade do resultado publicado fica totalmente dependente da confiabilidade do software instalado no equipamento.
Máquinas DRE foram usadas em eleições oficiais em 1991 na Holanda, em 1992 na Índia e desde 1996 no Brasil. O modelo brasileiro chegou também a ser usado em alguns países latino americanos entre 2002 a 2006.
A falta de confiabilidade do modelo DRE (utilizado no Brasil) fez com que, a partir de 2004, este modelo fosse substituído por outros mais evoluídos e confiáveis. De 2004 a 2012, a Venezuela, a Holanda, a Alemanha, os Estados Unidos, o Canadá, a Rússia, a Bélgica, a Argentina, o México e o Paraguai abandonaram o modelo DRE de 1ª Geração.
Em 2014, a Índia e o Equador adotarem modelos mais avançados, de maneira que restou apenas o Brasil ainda usando o modelo DRE de 1ª Geração em todo o mundo.
A 2ª Geração – IVVR ou VVPAT
A 2ª Geração foi proposta formalmente em 2000 (tese de doutorado da Ph.D Rebecca Mercury, disponível na internet). Na tese, foi proposta a possibilidade de auditoria contábil da apuração por meio de uma segunda via de registro do voto, além do registro eletrônico usual.
Este novo registro deveria ser gravado em meio independente que não pudesse ser modificado pelo equipamento de votação e deveria poder ser visto e conferido pelo eleitor antes de completar sua votação. Ela propôs o nome “Voter Verifiable Paper Audit Trail” (Documento de Auditoria em Papel Conferível pelo Eleitor), ou VVPAT.
Urna VVPAT brunazo.eng.br
Uma urna VVPAT — que produz “voto impresso conferível pelo eleitor” — fabricada na Espanha desde 2006 (Foto: brunazo.eng.br)
Posteriormente, a literatura técnica adotou também o nome “Independent Voter Verifiable Record” (Registro Independente Conferível pelo Eleitor), ou IVVR. No Brasil é comum ser chamado de “Voto Impresso Conferível pelo Eleitor”, ou VICE.
A principal característica de equipamentos com VVPAT (IVVR ou VICE) é que passam a ser independentes do software. O Registro Digital dos Votos (RDV) e a sua apuração eletrônica podem, neste caso, ser conferidos por ações contábeis de auditoria, independentes do desenvolvedor do software e do administrador do sistema.
Assim, em 2006, desenvolveu-se o Princípio da Independência do Software em Sistemas Eleitorais que, aos poucos, passou a ser exigido em todos os países que usam voto eletrônico, fora o Brasil. Ele diz: Um sistema eleitoral é independente do software se uma modificação ou erro não-detectado no seu software não pode causar uma modificação ou erro indetectável no resultado da apuração ou na inviolabilidade do voto.
No Brasil, em 2002, houve um teste com urnas com VICE, de 2ª Geração, o qual resultou em fracasso, decorrente da falta de planejamento e condução da experiência. Em seguida, em 2004, a Venezuela implantou equipamentos de 2ª Geração com VICE, com todo sucesso, demonstrando que a proposta é perfeitamente viável, ao contrário do que afirma o TSE no Brasil.
A partir de 2006, equipamentos de 2ª Geração, com voto impresso ou escaneado, passaram a substituir os equipamentos de 1ª Geração em todos os países.
A 3ª Geração – E2E
A partir de 2008, várias iniciativas começam a apresentar sistemas eleitorais independentes do software, que aprimoravam e/ou facilitavam os procedimentos de auditoria, tanto do registro do voto como de sua apuração e totalização.
Na Argentina (2010) foi apresentada uma cédula eleitoral com um chip de radio-frequência (RFID) embutido, onde, num só documento, estão presentes o registro digital e o registro impresso do voto. Esse documento é chamado de “Boleta de Voto Electrónico” (BVE) e propicia muita facilidade para os eleitores e para os fiscais de partido poderem conferir o registro do voto, a apuração e a transmissão dos resultados.
O sistema argentino está descrito no 2º Relatório CMind (ver no site do voto eletrônico), com várias tabelas comparativas do desempenho desse sistema de 3ª Geração em relação ao sistema brasileiro de 1ª Geração.
Urna  (Foto: brunazo.eng.br)
Urna com o sistema Scantegrity II: independência do software e facilidade de auditoria independente em todo o processo (Foto: brunazo.eng.br)
Em 2009, no município de Tacoma Park, nos EUA, foi testado o sistema Scantegrity II, onde o voto criptografado é impresso e entregue ao eleitor, que poderá verificar posteriormente o seu processamento, sem, no entanto, conseguir revelar o conteúdo do seu voto. Logo em seguida, em Israel, foi apresentado o Wombat, muito parecido ao Scantegrity.
As características comuns de todos esses sistemas de 3ª geração são a independência do software e a grande facilidade de auditoria independente, de ponta a ponta. Por esse motivo, os sistemas de 3ª geração são designados “End-to-End verifiability” ou, E2E.
No site do voto eletrônico, em sua página de abertura, está o link para o estudo aqui resumido. Nele há um mapa com a distribuição dos modelos usados no mundo. Estão divididos em:
— País que ainda usa sistema DRE de 1ª Geração (dependente do software): Brasil
— Países que testaram e abandonaram sistemas de 1ª Geração por falta de transparência ou falta de confiabilidade e, no momento, não estão usando votação eletrônica: Alemanha, Holanda, Irlanda, Inglaterra, Paraguai
— Países que abandonaram sistemas de 1ª Geração e passaram a usar sistemas VVPAT de 2ª Geração (independentes do software): Bélgica, Russia, Índia, EUA, Canadá, México, Venezuela, Peru, Equador, Argentina
— Países que adotaram ou estão testando sistemas E2E de 3ª Geração (independentes do software, com auditoria facilitada): EUA, Israel, Equador, Argentina
Na Página Principal do site do voto eletrônico encontra-se a Cartilha Básica do voto-e no Brasil, que resume críticas e propostas para as eleições informatizadas brasileiras.

‘Montoro, pedagogo da política’, de Marco Antonio Villa

Este é um texto que não pode ficar restrito, sem ampla difusão. Dou aqui minha contribuição para isso. Republico o que vai nas páginas do Estadão e no blog de Augusto Nunes, de autoria do professor Marco Antonio Villa:
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Publicado no Estadão desta terça-feira
MARCO ANTONIO VILLA
Amanhã, dia 16 de julho, completam-se 15 anos do falecimento de André Franco Montoro. Ele percorreu um caminho raro entre os políticos brasileiros: foi vereador, deputado estadual, deputado federal, senador, governador e ministro de Estado. Contudo nunca afastou o exercício da função pública da elaboração de ideias que tivessem aplicação prática na vida das pessoas. O fortalecimento da sociedade civil sempre foi uma preocupação central da sua ação, isso num país onde o papel do Estado foi superdimensionado, tanto pela direita como pela esquerda.
Montoro teve na democracia cristã do pós-guerra a sua matriz ideológica. E com base nesse pensamento agiu como um pedagogo da política, escrevendo, debatendo e formando militantes. Por onde passou foi deixando a sua marca. Nos dez meses em que esteve à frente do Ministério do Trabalho, durante o Gabinete Tancredo Neves, foi pioneiro no incentivo à sindicalização rural – tema, à época, explosivo – e criou o salário-família.
Na Câmara dos Deputados destacou-se na defesa dos trabalhadores e da democracia. Tanto que, após a extinção dos partidos políticos, em 1965, foi um dos primeiros a organizar o MDB. Cinco anos depois foi eleito senador, numa eleição marcada pelo medo, no auge do regime militar.
Nos anos de vida parlamentar foi um incansável propagador da integração econômica e cultural com a América Latina. De início foi voz solitária. Poucos se interessavam. Mas a pregação foi ganhando adeptos até ser incorporada à Constituição de 1988.
Assumiu o governo de São Paulo em março de 1983. O País estava em recessão – o produto interno bruto (PIB) caiu 2,9% – e com uma inflação anual de 211%. A economia estadual passava por uma profunda crise. O número de desempregados não parava de aumentar. E as finanças estaduais estavam em petição de miséria após o trágico quadriênio Maluf-Marin.
Organizou um secretariado de nível ministerial. Teve entre seus principais colaboradores (incluindo os bancos e empresas estatais paulistas) José Serra, João Sayad, Luiz Carlos Bresser-Pereira, Almino Affonso, Miguel Reale Júnior, Almir Pazzianotto, José Gregori, Paulo Renato e Paulo de Tarso, entre outros. Nomeou para a Prefeitura de São Paulo Mário Covas. Entendeu que na administração pública deviam ser escolhidos os melhores. E que o governador não devia temer a competência dos seus auxiliares, muito pelo contrário.
Pôs em prática os princípios defendidos desde os anos 1950. Fez da descentralização um dos carros-chefes do governo. Insistiu na tese de que o município é a base da democracia, da boa gestão e onde o cidadão vive. Fez o saneamento financeiro zerando o déficit orçamentário graças à austeridade nos gastos. Diversamente do governo anterior, deu à ética um papel central.
Relacionou-se com a Assembleia Legislativa de forma republicana. Acentuou a necessidade da participação do cidadão nos negócios públicos. E foi o primeiro governador a ter preocupação (e ação) com o meio ambiente – basta recordar o tombamento da Jureia, onde Paulo Maluf queria construir duas usinas nucleares.
Conviveu com diversos movimentos grevistas. Reivindicações contidas à força pelos governos anteriores acabaram eclodindo. Soube buscar soluções harmoniosas em meio à tensão política. No tristemente célebre episódio da derrubada das grades do Palácio dos Bandeirantes agiu com moderação. Sabia que estavam em jogo a abertura democrática e o exercício da autoridade. Era uma provocação arquitetada pelos extremismos à direita e à esquerda. Tomou as decisões necessárias e saiu engrandecido.
A campanha das diretas teve início – efetivamente – no dia 25 de janeiro de 1984, no comício da Praça da Sé. Foi um ato de ousadia e coragem política. Poucos acreditaram no sucesso do comício. E a participação de 300 mil pessoas demonstrou a correta análise de conjuntura do governador Montoro. A partir daí, a campanha deslanchou. Foram realizados dezenas de atos por todo o Brasil. E em São Paulo, em 16 de abril, foi encerrada com o maior comício da História do Brasil.
A derrota da Emenda Dante de Oliveira não desanimou o governador. Tornava-se indispensável a união da oposição. Passou a articular uma frente de governadores. Era natural que fosse o candidato oposicionista no Colégio Eleitoral. Afinal, o PMDB de São Paulo tinha a maior bancada na Câmara dos Deputados, o presidente nacional do partido era paulista, governava o mais importante Estado da Federação e tinha sido eleito com mais que o dobro de votos do segundo colocado.
O interesse do País, porém, estava acima de qualquer veleidade pessoal. Montoro identificou no governador de Minas Gerais, Tancredo Neves, o nome ideal para unir a oposição e dividir o PDS, estimulando o surgimento de uma dissidência, essencial para obter a maioria no Colégio Eleitoral. E foi no Palácio dos Bandeirantes que Tancredo foi lançado candidato do PMDB à Presidência da República. Não deve ser esquecido que naquele momento, agosto de 1984, a sorte da sucessão presidencial não estava decidida. O País corria o sério risco de ter Paulo Maluf como presidente da República por seis anos e com poderes arbitrários garantidos pela desastrosa Emenda Constitucional n.º 1 de 1969.
Desiludido com os rumos do PMDB, foi fundador do PSDB, em 1988. Criou o símbolo do partido: o tucano. Foi um defensor do parlamentarismo. Mesmo adoentado continuou entusiasmado pela política. Morreu quando estava a caminho de um seminário no México.
O esquecimento de Franco Montoro é um ato perverso. Perverso para a jovem democracia brasileira, tão carente de exemplos que dignifiquem o compromisso com o interesse público. Perverso porque vivemos um momento em que abundam políticos profissionais e são cada vez mais raros os homens públicos.

14 julho 2014

Nas Páginas AMARELAS de Veja: O Brasil deve esquecer o Mercosul, deixar a Argentina de lado e fazer, sozinho, um acordo de livre comércio com a União Europeia


(Foto: Lailson Santos)
(Foto: Lailson Santos)
O BRASIL DEVE SEGUIR SOZINHO
O economista e ex-diretor da área internacional da Fiesp diz que é hora de deixar a enrolada e endividada Argentina de lado e fazer um acordo de livre-comércio com a União Europeia
Entrevista a Duda Teixeira publicada em edição impressa de VEJA
Por nove anos, o economista Roberto Giannetti da Fonseca foi diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), entidade que representa 41% do setor industrial nacional. Até o ano passado, quando deixou o cargo, trabalhou dentro dessa instituição para que o Brasil se abrisse para o mercado internacional.
Aos 64 anos, ele agora se dedica a sua consultoria econômica, a Kaduna. “Por causa da decisão de priorizar o Mercosul, o Brasil ficou muito dependente das exportações para a Argentina”, diz o economista. Para Giannetti, com o país vizinho à beira de um novo calote na dívida externa, fica claro quanto o Brasil se arrisca em não reduzir essa dependência.
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A Argentina tem até o fim deste mês para pagar uma dívida com credores estrangeiros. Qual é o risco de o país dar o calote?
É bastante alto. A Argentina caiu em uma armadilha jurídica. No contrato de reestruturação da dívida, feito alguns anos atrás, há uma cláusula muito importante. Ela determina que os credores que aceitaram receber o valor da dívida com desconto devem ter um tratamento igual ao dos demais credores.
A questão é que uma parte menor dos credores, que ficou com 8% do montante, obteve na Justiça americana o direito de receber os títulos pelo seu valor de face, ou seja, 100%. Se os outros, que aceitaram receber menos, agora também entrarem na Justiça, a Argentina terá de pagar o valor integral. Isso representaria uma dívida total de 100 bilhões de dólares, muito mais do que os 28 bilhões de dólares de reserva internacional que o país tem.
O que pode ser feito, então?
A única saída é negociar com aqueles que aceitaram o desconto e tentar retirar a cláusula. Ao mesmo tempo, é necessário convencer os outros fundos, chamados de abutres, a aceitar o valor de face, mas em um prazo mais longo.
O que aconteceria se a Argentina desse o calote?
Se o calote for inevitável, os argentinos estarão diante de uma crise da maior gravidade. Eles ficarão isolados do resto do mundo. Será uma situação caótica. Qualquer propriedade do Estado argentino no exterior – imóveis, navios e contas bancárias – poderá ser penhorada para pagar aos fundos abutres.
A comunidade internacional, porém, se esforçará para evitar esse cenário. Deve haver uma nova renegociação, com a ajuda do FMI (Fundo Monetário Internacional) e de outras instituições. Para isso, a Argentina tem de se sentar à mesa sem arrogância, com humildade.
A palavra “abutre” não é exagerada?
Pode ser, mas a analogia não deixa de fazer sentido. Esses fundos compram títulos de dívida de países ou empresas em dificuldades por uma fração da cifra original. Depois, entram na Justiça e tentam ganhar o valor integral do devedor, arrancando o seu fígado. Pode-se não gostar deles, mas a realidade é que não há nada de novo nisso. Fundos mais agressivos existem em qualquer mercado.
O erro por parte da gestão dos presidentes Néstor e Cristina Kirch­ner foi acreditar que eles não seriam um problema no futuro. Houve um certo descaso. O governo argentino deveria ter negociado antes com os administradores desses fundos e minimizado as dificuldades. Era algo que podia ter sido evitado.
Qual seria a consequência, para o Brasil, de um calote argentino?
As consequências não seriam financeiras, já que os investidores sabem muito bem diferenciar um país do outro. Os efeitos negativos ocorreriam mais no âmbito comercial. O mercado interno argentino está em franco declínio e é o destino de mais de 20% das nossas exportações de manufaturados, como peças de automóveis, sapatos e eletrodomésticos.
Sem reservas em dólar, ou seja, se der o calote, a Argentina não terá como pagar esses bens. O volume do nosso comércio com a Argentina então cairia bastante. A perda em exportação de manufaturados pode chegar a 5 bilhões de dólares por ano.
No mês passado, o Brasil alterou o acordo automotivo com a Argentina. Antes, podíamos exportar sem imposto 1,95 dólar em carros e peças para cada dólar importado. Agora, ficou em 1,5 dólar para cada dólar importado. Ou seja, ficou mais caro exportar. Foi uma decisão acertada?
Qualquer acordo é melhor do que nada. Mas, se a crise chegar, nem essa ajuda terá efeito. Eles não terão como pagar o que importam de qualquer jeito.
Dar ênfase demais ao comércio com a Argentina foi um erro?
Certamente. Preso ao Mercosul, o Brasil deixou de assinar acordos de livre-comércio com outros países. Exportar 20% dos manufaturados para um país instável como o dos nossos vizinhos é muito arriscado. Se nossa economia fosse mais aberta, estaríamos exportando esse valor para países como Japão, Estados Unidos, Canadá ou para a Europa.
O Mercosul negocia um tratado de livre-comércio com a União Europeia há catorze anos, mas a Argentina sempre atrapalha as conversas. Qual é a probabilidade de esse país embolar o jogo novamente?
Os argentinos sempre surpreendem na última hora. Deixam a negociação seguir para avaliar até onde o Brasil é capaz de chegar. Então, quando tudo está bem adiantado, dizem que não aceitam o que foi colocado na mesa. Em 2004, o Brasil chegou muito perto de fechar com a União Europeia, mas aí houve o boicote da indústria argentina, que reclamou do risco de ter tarifas reduzidas em relação aos concorrentes europeus. Houve uma sabotagem em um momento decisivo.
Foi uma pena porque, enquanto o Mercosul fracassou, o México já havia feito um acordo com a União Europeia quatro anos antes. O Chile concluiu o seu em 2003. O tratado com a Colômbia e o Peru entrou em vigor no ano passado. O elevado desempenho da economia desses países atualmente é resultado direto desses tratados. O Mercosul, contudo, foi na contramão e preferiu ficar isolado.
Pelas regras do Mercosul, o bloco só pode decidir por consenso. O Brasil está de mãos amarradas, ou há alternativas?
Os negociadores brasileiros deveriam ter assinado o acordo com a União Europeia sem a Argentina, dando cinco anos para os nossos vizinhos se adaptarem à nova situação.
Para fazer isso, há uma saída técnica. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário