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31 julho 2013

Luis Roberto Barroso é novo relator da ADPF sobre a dívida externa

Do informativo da OAB:

Brasília - A Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) n° 59, ajuizada pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para propor que seja feita ampla auditoria da dívida externa brasileira e tentar elucidar as condições em que a dívida foi construída, terá o ministro Luís Roberto Barroso como relator. A substituição se deu com base no artigo 38 do Regimento Interno do Supremo devido à aposentadoria do então relator, o ministro Carlos Ayres Britto.

29 julho 2013

“Morra por Dilma, mas não se deixe matar”

Eu adoro blague política. Esta publicada por Ricardo Noblat é saborosíssima:
 

 "Na semana passada, Arthur Lira (AL), líder do PP na Câmara dos Deputados, localizou por telefone em Nova Iorque o senador Cyro Nogueira (PI), presidente do partido.
O PP tem 40 deputados federais.
E quase todos estão dispostos a negar seus votos ao governo a partir desta semana.
– Não deixe que façam isso”, apelou o senador.
–Sinto muito, presidente, mas eles se sentem desprezados pelo governo — respondeu Arthur.
– Então proceda assim –, sugeriu Cyro. — Morra pela presidente. Mas não se deixe matar”.
E desligou.
Arthur acha que entendeu o recado.
Apenas acha."

27 julho 2013

Maílson da Nóbrega: O problema da educação não é falta de dinheiro — é falta de gestão adequada dos recursos que temos


O problema da educação no Brasil é a má gestão (Foto: Thinkstock)
O problema da educação no Brasil é a má gestão (Foto: Thinkstock)
Artigo publicado em edição impressa de VEJA

O PROBLEMA DA EDUCAÇÃO NÃO É FALTA DE DINHEIRO
Maílson da Nóbrega
Maílson da Nóbrega
A qualidade do capital humano é essencial para o desenvolvimento. A baixa qualidade da educação explica a perda da liderança econômica da Inglaterra para os Estados Unidos por volta de 1870 e para a Alemanha no fim do século XIX.
Para Rondo Cameron e Larry Neal, no livro A Concise Economic History of the World, a Inglaterra foi o último país rico a universalizar a educação fundamental. A Revolução Industrial ocorreu, segundo eles, “na era do artesão inventor. Depois, a ciência formou a base do processo produtivo”.
Em vez dos recursos da natureza — algodão, lã, linho, minério de ferro —, a indústria passou a depender cada vez mais de novos materiais, nascidos da pesquisa científica.
Nessa área, americanos e alemães, com melhor educação, venceram os ingleses. A Suécia, que era atrasada no início do século XIX. se industrializou rapidamente graças à educação. Em 1850. apenas 10% dos suecos eram analfabetos, enquanto um terço dos ingleses não sabia ler nem escrever.
No Brasil, até os anos 1960, acreditava-se que a educação seria mero efeito do desenvolvimento. Em 1950 os respectivos gastos públicos eram de apenas 1.4% do PIB. A partir dos anos 1970, a visão se inverteu. Convencemo-nos de que a prosperidade depende da educação. Os gastos subiram e hoje atingem 5,8% do PIB. A educação fundamental foi universalizada na década de 90 (um século e meio depois dos Estados Unidos e quase meio século depois da Coreia do Sul).
Agora, demandamos melhora da qualidade, mas a ideia está contaminada pelo hábito de esperar que a despesa pública resolva qualquer problema. Daí o equivocado projeto de lei que aumenta os gastos em educação para 10% do PIB. Na mesma linha, Dilma e o Congresso querem aplicar na educação grande parte das receitas do petróleo.
Proporcionalmente, nossos gastos em educação equivalem à média dos países ricos. Passamos os Estados Unidos (5.5% do PIB). Investimos mais do que o Japão, a China e a Coreia do Sul, três salientes casos de êxito na matéria (todos abaixo de 5% do PIB). Na verdade, a má qualidade da nossa educação tem mais a ver com gestão do que com falta de recursos.
O professor José Arthur Giannotti assim se referiu aos jovens que foram às ruas pedir mais dinheiro para o setor: “Pleiteiam mais verbas sem se dar conta da podridão do sistema. Mais do que verbas, é urgente uma completa revisão das instituições educativas vigentes. A começar pela reeducação dos educadores, que, na maioria das vezes, ignoram o que estão a ensinar”" (O Estado de S. Paulo, 19/6/2013).
Outro educador, Naercio Menezes Filho, citou o interessante caso de Sobral (Valor, 21/6/2013). Entre 2005 e 2011 o município cearense avançou quatro vezes mais rápido no ensino fundamental do que São Paulo, sem aumento significativo de despesa. “O gasto por aluno que Sobral usa para alcançar esse padrão de ensino nas séries iniciais é de apenas 3.130.00 reais, enquanto a rede municipal de São Paulo gasta ao redor de 6.000 reais por aluno, ou seja, duas vezes mais.”
Destinar receitas do petróleo para a educação é um duplo equívoco:
(1) o problema não é de insuficiência de recursos, mas de sua aplicação, como vimos;
(2) não é correto financiar políticas públicas permanentes com recursos finitos e voláteis. No longo prazo, as reservas de petróleo se esgotarão, enquanto os preços (e as receitas) se sujeitam às oscilações do mercado mundial de commodities.
A proposta desconhece outra lição da experiência: a receita de recursos naturais não renováveis deve pertencer às gerações futuras. O exemplo a seguir é o da Noruega, onde as receitas do petróleo são carreadas para um fundo que em 2012 acumulava 131% do PIB. O fundo serve para lidar com os efeitos de quedas dos preços do petróleo e principalmente com os custos previdenciários que advirão do envelhecimento da população.
A educação brasileira precisa de uma revolução gerencial e de prioridades, inclusive para gastar melhor os recursos disponíveis. Ampliar os respectivos gastos e destinar-lhe as receitas do petróleo agrada a certas plateias, mas o resultado poderá ser apenas o aumento dos desperdícios. Será péssimo para as próximas gerações.

26 julho 2013

2014: Serra considera que a eleição presidencial será “aberta” como a de 1989 e quer concorrer — mas não pelo PSDB


Serra com Aécio: o ex-presidenciável não quer disputar com o senador a candidatura pelo PSDB e pretende concorrer por uma coligação PPS-PV (Foto: O Globo)

ELEIÇÕES ABERTAS
Por Ilimar Franco, no jornal O Globo

O tucano José Serra, segundo aliados, vai concorrer ao Planalto em 2014. Ele não lutará para conquistar o PSDB, já comprometido com Aécio Neves.
Sua intenção é se lançar com o apoio de PPS, PV e PTB. 
Ele tem dito que as eleições estão abertas, como as de 1989, que teve dez candidatos viáveis.
Pelas suas contas, para ser competitivo, ele precisa sair de São Paulo com oito milhões de votos.
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Os presidentes do PSB, Eduardo Campos, e do PDT, Carlos Lupi, aceleraram as conversas para as eleições do ano que vem. Os aliados, que vivem às turras com o PT nos estados, decidiram ir à luta, sobretudo com a queda nas pesquisas da presidente Dilma.
Eduardo está oferecendo a vice para Osmar Dias (PR). E prometendo apoio nos estados a candidatos trabalhistas a governador: Miro Teixeira (RJ), Pedro Taques (MT), Ronaldo Lessa (AL), Waldez Góes (AP), Reguffe (DF), Vieira da Cunha (RS) e Amazonino Mendes (AM).
Os socialistas procuram um caminho próprio e, para os trabalhistas, as recentes manifestações foram como um ‘cavalo de pau’ e zeraram o jogo.
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Pelas contas do governador Geraldo Alckmin (SP), ao concorrer à reeleição ele terá o apoio dos eleitores de três candidatos à Presidência da República: Aécio Neves (PSDB), Eduardo Campos (PSB) e José Serra, ainda sem partido.

O recado do papa aos corruptos da terra e a pesquisa que consumou a capitulação dos fabricantes de recordes de popularidade (Por Augusto Nunes, de Veja.com)

Sensacional este post do Augusto Nunes!

Nesta quinta-feira, durante a visita à Favela da Varginha, o papa Francisco disse o seguinte:
“Aqui, como em todo o Brasil, há muitos jovens. Vocês, queridos jovens, possuem uma sensibilidade especial frente às injustiças, mas muitas vezes se desiludem com notícias que falam de corrupção, com pessoas que, em vez de buscar o bem comum, procuram o seu próprio benefício. (…) Não deixem que se apague a esperança”.
Embora o recado não tenha mencionado expressamente políticos ou partidos, todo mundo deduziu que o papa resolvera cutucar o governo do PT e seus parceiros. Faz sentido: depois das manifestações de protesto que implodiram a farsa do Brasil Maravilha, ficou claro que a corrupção impune anda de mãos dadas com a seita lulopetista.
Lula acha que isso é preconceito. Tem razão. O país que presta sempre foi preconceituoso com assaltantes de cofres públicos, empresários liberados para transformar canteiros de obras em plantações de maracutaias, gatunos com imunidade parlamentar e outras vertentes da grande família dos corruptos. Neste inverno, o Brasil decente mostrou que é muito maior do que imaginavam os embusteiros no poder.
E não para de crescer, vão admitindo um a um os institutos de pesquisas que, se não tivessem colidido com a revolta da rua, já estariam atribuindo a Dilma Rousseff 100% de popularidade (ou 103%, se a margem de erro oscilasse para cima). Há poucas horas, consumou-se a capitulação do Ibope. A colecionadora de recordes agora patina nos arredores dos 30% historicamente reservados a qualquer poste do PT.
Durante vários anos, o Ibope confinou em índices inferiores a 8% os brasileiros que acham ruim ou péssimo o desempenho do governo federal. Subitamente, a taxa de descontentamento decolou. Acaba de bater em 31% — e continuará subindo. Se apenas tivessem fulminado a desfaçatez dos fabricantes de porcentagens, as manifestações de protesto iniciadas em 6 de junho já teriam valido a pena. Mas as mudanças foram muito além do comércio de estatísticas.
Os destinatários do recado do papa querem acreditar que, configurado o naufrágio de Dilma, bastará lançar a candidatura de Lula para que a festa siga seu curso. Logo saberão que lidam com um país que mudou. As multidões inconformadas com o elogio do cinismo sabem que foi o ex-presidente quem instalou no Planalto o que até recentemente qualificava de “um poste que ilumina o Brasil”. Se tentar um terceiro mandato, vai descobrir que cometeu um erro semelhante ao do amigo Paulo Maluf.
Dilma Rousseff é o Celso Pitta do Lula.

25 julho 2013

Fuga para adiante_José serra

Publicado no Estadão de 25/07/2013.
A reunião deste fim de semana do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) trouxe um fato inédito. A rotina desses encontros é culpar a oposição por todas as mazelas do País, como se os petistas não mandassem no seu próprio governo. Mas desta vez foi diferente: ao analisar o quadro político e as dificuldades da administração Dilma Rousseff – mais evidentes após as grandes manifestações de junho e a queda livre nas pesquisas -, o PT pôs a culpa não na oposição, mas nos aliados! Assim, os males do Brasil seriam devidos ao fato de os petistas não conseguirem governar sozinhos, sendo obrigados a composições com os “conservadores”, santo eufemismo. Tais alianças estariam a impedir os avanços que o governo tanto deseja realizar. Será?
O PT já domina completamente o Executivo em Brasília: Presidência, Casa Civil, Fazenda, Planejamento, Saúde, Educação, Justiça, todos os principais órgãos e ministérios são controlados pelo partido. Além das pastas responsáveis pelos temas que fizeram as ruas explodir de insatisfação, estão nas mãos dele todas as estatais relevantes.
Proveitoso seria, hoje, que fizesse autocrítica e perguntasse: “Onde foi que nós erramos?”. Mas essa atitude não combina com o DNA autoritário de quem se julga portador de uma verdade histórica tão inquestionável quanto o teorema de Pitágoras. Um exemplo de autocrítica possível seria o da forma perversa das alianças: baseadas não em programas, mas no rateio dos benefícios do poder.
Assim, somos obrigados a assistir ao filme da fuga para adiante – “fuite en avant”, para lembrar a expressão de Ignacy Sachs. Ou seja, após três mandatos o PT pede mais para ele mesmo, demanda o poder absoluto para fazer o que não conseguiu realizar em mais de uma década de hegemonia.
Eis a origem do tal plebiscito sobre reforma política. O objetivo é um só: como não consegue passar de 20% nos votos para o Legislativo, o PT quer mudar as regras para que a minoria nas urnas se transforme em maioria no Congresso Nacional, minimizando a necessidade de se aliar a outros partidos. Por isso defende a lista fechada para a eleição de deputados e o financiamento exclusivamente público das campanhas eleitorais.
O PT tem cerca de 20% da preferência popular. Como a maioria do eleitorado não se identifica com nenhum partido, se o voto for na lista partidária, e não em candidatos, acredita poder transformar os 20% nas urnas em pelo menos 40% do Congresso.
Esse propósito seria bastante fortalecido pelo financiamento público das campanhas, que beneficiaria o PT de duas maneiras. Sendo o maior partido saído das últimas eleições, disporia automaticamente de mais recursos para disputar votos. Além disso, como o PT domina a poderosa máquina federal e numerosas entidades sindicais e ONGs especiais (de fato, organizações neogovernamentais), que têm expertise em fazer campanha eleitoral com recursos públicos, a proibição do financiamento privado legal o favoreceria.
Uma vez que o Congresso, com todos os seus imensos defeitos, não é composto de suicidas, o PT enfrenta forte resistência a esses projetos. O caminho normal, democrático, seria, então, fazer das suas teses bandeiras eleitorais e buscar a maioria no Congresso para elas. Mas como as relações entre o PT e a democracia são nebulosas, prefere tentar emparedar os adversários e os aliados, usando para isso o tal plebiscito.
O Tribunal Superior Eleitoral já esclareceu que precisa de 70 dias para organizar um plebiscito nacional. Ou seja, não há tempo hábil para combinar quatro coisas: 1) votar nas duas Casas do Congresso a lei que convoca o plebiscito, 2) realizar o plebiscito com tempo para horário “gratuito” de TV e rádio, 3) promover o necessário trabalho congressual para regulamentar as decisões e 4) que elas valham já em 2014, respeitando o princípio constitucional da anualidade.
A presidente Dilma Rousseff continua a insistir no tal plebiscito para valer já nas eleições de 2014 e até persegue o deputado Cândido Vaccarezza, petista histórico, que reconheceu publicamente a falta de tempo hábil. Ela deve saber que é inviável, porém insiste. Por quê? Para alimentar um impasse e depois culpar o Congresso por “não ter ouvido as ruas”. Enquanto isso, passaria à população a ideia de que está empenhada e trabalhando por algo coerente, desviando o foco dos problemas verdadeiros: economia sob estagflação e dominada por expectativas ruins, consumo e emprego desacelerando, serviços públicos aquém das expectativas.
Escrevi dias atrás que o Brasil precisa de governo. Não obrigatoriamente um bom governo, mas ao menos algum governo. É o que mais nos faz falta hoje. Talvez ainda houvesse tempo de a presidente encontrar um rumo, corrigir rotas tresloucadas que a fazem se chocar, dia após dia, com a realidade dos fatos. Infelizmente, a inclinação parece ser dobrar a dose do remédio que não dá certo. O exemplo mais emblemático é a tentativa de satanizar os médicos brasileiros, para dar a impressão de que se está fazendo algo pelo presente e o futuro da saúde.
Já se esgotou, por sorte, a velha fórmula de produzir factoides que depois serão embalados publicitariamente – e veiculados em caríssimas campanhas para induzir o povo a acreditar que o governo funciona. Isso é o que foi feito, por exemplo, com o PAC, as campanhas anticrack, os buracos de estradas, o Pronasci (da segurança), etc. Esse expediente já era. O Brasil quer governo que tenha rumo, fale menos, se antecipe aos acontecimentos, enfrente os problemas, planeje as ações, dê exemplo de boa conduta aos cidadãos e consiga entregar-lhes os benefícios mínimos que reclamam. Tão simples quanto isso.
Já passou da hora de o PT e o governo abrirem o olho. O Brasil é uma democracia sólida, o povo amadureceu e as eleições vêm aí. Certos desvios e atalhos, felizmente, repousam nos livros de História para, se Deus quiser, deles não saírem nunca mais.

24 julho 2013

‘Fatofobia’, por Rodrigo Constantino


Publicado no Globo desta terça-feira
RODRIGO CONSTANTINO
A presidente Dilma tem atacado a “postura pessimista” daqueles que criticam a situação econômica. Ela foi buscar até em Camões inspiração para acusar esses “profetas do Apocalipse”. Sinto-me, em um surto de megalomania narcisista, diretamente atingido. Afinal, tenho feito duras críticas ao modelo econômico nos últimos três anos, aqui nesse espaço, alertando que o modelo era insustentável e que teríamos sérios problemas.
Para os “desenvolvimentistas”, não há problema algum, ou, se há, eles vêm de fora. Tenho dificuldade de compreender por que as economias de Chile, Peru, Colômbia e México continuam crescendo bem mais que a nossa, e com bem menos inflação. Mas deve haver alguma explicação mirabolante que me escapa.
Ou, então, a equipe da presidente sofre do que podemos chamar de “fatofobia”. Não é “fotofobia”, ainda que possa ser medo da luz também; é “fatofobia” mesmo, ou seja, um verdadeiro pavor dos fatos. A realidade pode assustar. E o governo opta pela via fácil: negá-la.
Senão, vejamos: a presidente diz que tem “certeza” de que a inflação fechará o ano dentro da meta. A meta, não custa lembrar, é 4,5%, o que já é um patamar bastante elevado para padrões internacionais. Mas Dilma tem em mente outro valor: o topo da banda, existente para casos esporádicos.
Em seu governo, o topo virou a meta, e a presidente dorme tranquila com mais de 6% ao ano de perda do poder aquisitivo da moeda. Quem perde o sono é o povo, que precisa fazer compras no supermercado.
Outro fato que a presidente escolhe ignorar diz respeito aos crescentes gastos públicos. Eles sobem sem parar. Não tem crise na ilha da fantasia em Brasília. Não há nada de “anticíclico” neles, pois na época da bonança eles aumentam, e na época do arrefecimento também. Mas a presidente faz uma comparação em relação ao PIB e conclui que eles não subiram tanto.
Ora, presidente, permita-me a sinceridade, mas isso é malandragem! Se o próprio PIB tem crescido de forma insustentável, estimulado justamente pelo gasto público e também por muito crédito sem o devido lastro na poupança, é claro que a proporção do gasto sobre o PIB pode ficar até estável, e ainda assim isso representar um grave problema. Foi o que aconteceu na Espanha, por exemplo. O crescimento artificial da economia, turbinado pelo crédito e o governo, mascarou a magnitude do problema.
Todos sabem que o governo vem apelando para “malabarismos contábeis” bastante rudimentares. Esses truques baratos jogam a sujeira para baixo do tapete, mas ela está lá. E um dia vem à tona. Não dá para enganar todo mundo o tempo todo.
O que me remete a um pensamento assustador: nossa crise nem começou! É verdade que o clima ruim já se instalou, mas os esqueletos ainda estão bem escondidos nos armários. Além disso, o custo do capital no mundo ainda está muito barato, e a economia chinesa cresce perto de 7% ao ano. O que vai acontecer quando a taxa americana de juros subir, ou a economia chinesa embicar?
Não vamos ignorar que a China plantou seus próprios problemas, com um modelo intervencionista, totalmente calcado em investimentos direcionados pelo estado. Há inúmeros “elefantes brancos” por lá, até “cidades fantasmas”. Administrar essa transição para uma economia mais voltada para o consumo não é nada trivial. Se o trem descarrilar no processo, sai de baixo! O Brasil será duramente afetado.
Portanto, eis a situação: vamos muito mal das pernas, com baixo crescimento, parcos investimentos, e alta inflação. Mas isso tudo em um cenário em que ainda há abundância de capital nos mercados e forte crescimento chinês. Como efeito disso, ainda temos um quadro de pleno emprego. Pergunta: o que acontece com a inadimplência dos bancos se o desemprego subir, lembrando que o governo vem aumentando em mais de 20% ao ano o crédito público? Pois é…
O prognóstico não é nada bom. E quanto mais o governo fugir dessa dura realidade, tal como uma menina foge desesperada da barata, pior será o ajuste necessário depois. O governo não fez o dever de casa. Perdemos a incrível oportunidade que veio de fora. E bilhetes de loteria como este não aparecem o tempo todo. O que fazer agora?
A primeira coisa deveria ser aceitar os fatos como eles são. Como lembrou Aldous Huxley, os fatos não deixam de existir porque são ignorados. Isso demanda coragem, uma postura de estadista, que assume os erros passados para poder mudar o curso. Como não vejo isso acontecendo no atual governo, vou seguir com minha maldição de Cassandra, espalhando alertas pessimistas por aí.

23 julho 2013

DILMA ENTRE O PT E O CARGO_Editorial do jornal O Globo


O PT se agita e a relação com a presidente fica tensa, enquanto cresce no partido a turma do “queremismo”, pela volta de Lula (Foto: ABr)
O PT se agita e a relação com a presidente fica tensa, enquanto cresce no partido a turma do “queremismo”, pela volta de Lula (Foto: ABr)

DILMA ENTRE O PT E O CARGO

Editorial de hoje do jornal O Globo
À medida que saem pesquisas que mostram redução de apoio popular a Dilma Rousseff e cresce a possibilidade de segundo turno nas eleições do ano que vem, o PT se agita e a relação com a presidente fica tensa, enquanto cresce no partido a turma do “queremismo”, pela volta de Lula.
Muita coisa, afinal, está em jogo: 22 mil cargos de confiança, usados no aparelhamento da máquina pública, controle de estatais com ambicionados orçamentos etc.
É neste contexto que a presidente, no fim de semana, não foi à reunião da Executiva Nacional do partido, alegando uma agenda de trabalho sobre a visita do papa Francisco. Em carta aos militantes, defendeu as “ruas”, o plebiscito da reforma política e se colocou ao lado de Lula.
Dilma está entre o partido e a Presidência. Como a reeleição entrou em zona de risco, surgem pressões de alas petistas para que ela seja mais militante e menos presidente do Brasil. É uma armadilha, na qual Dilma cairá se não agir como chefe da nação.
Ela não deve se impressionar com pesquisas feitas a mais de um ano das urnas. Neste momento, elas refletem o clima detectado nas manifestações.
A presidente deve é se concentrar em governar, ser intransigente com a corrupção, levar a inflação o mais rapidamente possível para a meta (4,5%), recuperar, enfim, a credibilidade da política econômica, por ações como a restauração da seriedade na apresentação das contas públicas.
Isso atrairá investimentos externos em geral, e, em particular, para as licitações de projetos de infraestrutura a serem feitas neste segundo semestre. Assim, poderá conseguir uma taxa de crescimento econômico mais elevada este ano. E, se tudo isso acontecer, deverá chegar ao final do primeiro semestre de 2014 com boa parte da popularidade recuperada.
Ela precisa fugir da agenda de confronto a que petistas tentam levá-la. A ideia do plebiscito surgiu da inviabilidade legal da “constituinte exclusiva”, sonho de consumo destas alas do partido, para, numa assembleia sem a barreira da maioria qualificada, poder-se alterar regras eleitorais e, com facilidade, contrabandear para a Carta mecanismos de “democracia direta” de inspiração chavista.
Querer forçar Dilma e aliados a entrar em rota de colisão com o Poder Judiciário, em nome do tal plebiscito, é um desvario.
Fingem esquecer a nota do Tribunal Superior Eleitoral, em que é reafirmada a barreira da anualidade para qualquer alteração na legislação eleitoral entrar em vigor. A tese de facções petistas está isolada.
O deputado Candido Vaccarezza, de São Paulo, escolhido pelo presidente da Câmara, Henrique Alves, para presidir a comissão da reforma, foi alvo de manifesto de um grupo do partido por não ser muito firme na defesa do plebiscito.
O PMDB, o maior aliado, nunca embarcou no projeto.
Mesmo assim, forçam Dilma a tomar o rumo de uma crise político-institucional.

22 julho 2013

“Prendam os médicos”

Publicado no blog de Ricardo Setti (Veja. com):


PRENDAM OS MÉDICOS !

Por Milton Simon Pires, médico intensivista em Porto Alegre

 Em 1953 o título desse meu artigo era manchete no antigo Pravda, jornal oficial da extinta (para tristeza de alguns) União Soviética.
Acontece que Stalin, no seu apelo constante ao terror para controlar o país, propagou a idéia de que existia então um complô, que incluía a CIA e os médicos judeus, com objetivo de assassinar todos os grandes líderes do Partido Comunista da URSS.
Não é preciso dizer que a fraude não durou muito. Regimes totalitários apelam para esse tipo de coisa quando percebem seu poder ameaçado – o PT não é exceção.
Seja prendendo os médicos como fez Stalin ou obrigando a maior população do mundo (chinesa) a matar pardais como fez Mao, o objetivo é um só – desviar a atenção da opinião pública daquilo que é a verdade.
Já disse mais de uma vez que há médicos SUFICIENTES no Brasil. Já expliquei que somos mal pagos e que tememos trabalhar sem condição alguma. Vários outros médicos e organismos ligados à medicina fizeram o mesmo – nada adiantou.
Chegou portanto a vez do Ministro Joaquim Barbosa dar dez dias ao governo federal para explicar qual sua intenção com o Programa Mais Médicos. Apresentou-se também a necessidade do Conselho Federal de Medicina ingressar na Justiça contra essa ideia absurda, mas o que ninguém percebe é que uma coisa não volta mais – a confiança da classe médica nessa gente do governo Dilma.
Tanto faz qual vai ser o desfecho dessa confusão toda – acreditar nas intenções deles nenhum médico brasileiro vai novamente. Quem, em menos de trinta dias, tenta trazer 6.000 médicos cubanos, aumenta a duração do curso de Medicina em dois anos, e veta o Ato Médico nos declarou “guerra sem volta”.
Os petistas querem “médicos especialistas em gente” e têm a audácia de se apresentar como “gente especialista em médicos” !
Estou cansado de defender meus colegas e atacar o governo petista. Agora já é tarde demais e nem o governo nem a população vão nos apoiar em qualquer coisa.
O recado aqui vai ser mais curto. Dessa vez vai para população e para algumas classes de “profissionais da saúde” que vêm aproveitando a situação para afirmar que “somos orgulhosos”, “não gostamos de pobres”, “de morar no interior” , nem de “trabalhar em equipe”. Chutar cachorro morto é fácil, né “cumpanheros”?
Não se enganem, meus caros “amigos”, nós médicos somos apenas os “primeiros da fila”.
Não os convoco em nome da solidariedade, mas sim da pura inteligência – caso vocês acreditem que tem alguma. Somos apenas a “bola da vez”.
Um governo desses não respeita ninguém – não interessa que seja médico, enfermeira, advogado, ou “astronauta”. Hoje somos nós; amanhã serão vocês!
Em relação aos pacientes..bem com os pacientes meu discurso é mais simples. Provem que os médicos estrangeiros vêm para o Brasil e daí surgirão novos hospitais e eu rasgo tudo que escrevi.
Até lá vou continuar “sendo orgulhoso” e “não gostando de pobres” como tem sido sustentado pelo “Jornalismo do B” que agora domina o país.
Nunca foi tão fácil culpar alguém sem ter sequer necessidade de mandar prender – a internet faz um serviço mais rápido e eficaz.
Pena, para Stalin, que o ditador russo não contava com ela…
Meus colegas russos morreram de frio na Sibéria; meus colegas brasileiros vão contrair malária na Amazônia…Temperatura diferente; mas sempre a mesma história.
Porto Alegre, 21 de julho de 2013 AVC (antes da vinda dos cubanos)

Ó tempos, ó costumes!

Estes tempos de "povo nas ruas" estão carregados de simbolismo como há muito não se via...
Datam de 1984 os comícios pelas "diretas já!", quando os partidos políticos e sindicatos, uns sendo "braços" dos outros, saiam às ruas e praças para externar seu inconformismo com a eleição indireta do presidente da República pelo Congresso Nacional.
Contudo, Tancredo Neves - mineiro esperto -, avô do hoje provável candidato pelo PSDB à presidência da República, Aécio Neves, ao mesmo tempo em que participava dos "showmícios" nas praças pedindo "diretas já!" ao mesmo tempo costurava nos bastidores sua eleição indireta pelo Congresso, reunindo em sua "arca" toda sorte de "bichos políticos", de um extremo a outro do espectro. Afinal de contas, Paulo Maluf e os "milicos" eram os inimigos a serem batidos. Como sabemos, Tancredo estava certo. Se elegeu, mas a doença não o deixou assumir e governar. Causou ao povo brasileiro uma enorme frustração com Sarney e seu governo desastroso.
Desse caldo de cultura, surgiu um arrivista colorido que levou de roldão o resto de esperança do povo brasileiro: Collor de Melo. Caiu sob impecheament dois anos após sua aventura autoritária.
O país conheceu alguma racionalidade na economia e na política apenas com Fernando Henrique Cardoso, que surgiu pela mão de um homem obstinado pelo fim da inflação: Itamar Franco.
O capital econômico e político construído durante oito anos por FHC - mesmo tendo de enfrentar as crises externas do México, dos Tigres, da Rússia, da Argentina e do próprio Brasil -, deixou um legado extremamente positivo de estabilidade econômica, profissionalização da burocracia, privatizações bem-sucedidas das teles, agências reguladoras, distribuição de renda, em um cenário externo apontando para um ciclo virtuoso nos anos 2000.
Lula assumiu nesse cenário, renegando o programa de seu partido quanto a honrar com os contratos, com o superávit primário para garantir o pagamento dos juros da dívida, com a meta de inflação e com a responsabilidade fiscal herdada de seu antecessor, ou seja, uma bendita herança sob a qual navegou em mar de calmaria e não fez mais nenhuma reforma por mais necessária que fosse. Resignou-se com o que tinha herdado e passou a apresentar essa herança como sendo na verdade obra sua, a qual deveria simplesmente ser preservada e distribuir a renda por meio do programa de transferência de renda - o bolsa família -, que antes combatera como "eleitoreiro", este também na verdade uma herança de seu antecessor.
O tempo passou, Lula quase se perde politicamente com a história do mensalão, sobreviveu, se reelegeu, o tempo passou, as economia internacional dava sinais de exuberância a não mais perder de vista, o homem se assanhou, tentou o terceiro mandadato e, como não consegiu, vingou-se da classe política - e infelzmente também do país, que nenhum mal lhe fez -, e empurrou goela abaixo uma senhora incapaz, um "poste": Dilma Roussef.
Esta senhora, com fama de "gerenta", virou "presidenta" e a gora está se demonstrando na verdade ser "incompetenta", metida a xereta em matéria de economia - até porque cercada de "incompetentos" - deixou que a coisa degringolasse, passando a administrar por meio do marketing político, pois afinal de contas havia dado certo até aqui.
Algo mudou repentinamente pegando todo mundo desprevenido: o movimento das ruas de hoje, uma coisa totalmente diferente em seu modus operandi, e em quantidade de gente, de tudo o que já se tinha visto, em sua origem de classe média, em sua juventude "estudada", que se uniu em um abraço mortal para a classe política atordoada.
Essa turba antes pacífica, longínqua, apática, amorfa, inodora, insípida, desconhecida, passou a exigir dos políticos justamente as reformas não feitas, os investimentos não realizados, as oportunidades não aproveitadas, e também novas posturas na administração pública, tanto ética quanto de gestão capaz.
Até ainda há pouco não se vislumbrava quem poderia tirar alguma vantagem da situação, se é que podia.  Após as primeiras pesquisas, ao que tudo indica, surgem Aécio Neves, neto do Tancredo, como o candidato "dos políticos", dado a acordos palacianos herdado do avô, em contraposição a Marina Silva, candidata "das ruas" e "da rede", isto é, do não-partido. Trata-se de uma aposta perigosa, do tipo collorido, em uma messias de saia e da floresta, um ícone do "santo daime". Vamos ver.
A "presidenta", tonta, não tem brioches para dar para ao povo, tenta obter de seu oráculo Lula alguma luz, mas nada... O seu partido PT, tarado pela "democracia" direta (desde que amestrada, bolivariana), se fixa em plebiscitos, referendos, reformas políticas, eleitorais, etc., como hiena tentando se aproveitar de alguma "carniça" que lhe sobre dentre os cadáveres políticos...
Que tempos! Que costumes!

O “novo” sindicalismo criado por Lula nos anos 70 está morrendo — vítima do lulismo


Ato de sindicalistas bloqueia a Via Anchieta em São Bernardo do Campo (SP). O chamado “Dia Nacional de Luta com Greves e Mobilizações”, convocado pelas principais centrais sindicais do país (Foto: Anderson Gores ABC Digipress / Estadão Conteúdo)
Ato de sindicalistas bloqueia a Via Anchieta em São Bernardo do Campo (SP). O fracasso de público do chamado “Dia Nacional de Luta com Greves e Mobilizações” é sinal de um sindicalismo longe das bases e engordado com verbas oficiais (Foto: Anderson Gores ABC Digipress / Estadão Conteúdo)

Do blog Política & Economia Na Real, do jornalista José Márcio Mendonça e do economista Francisco Petros

O “NOVO” SINDICALISMO EM CONCORDATA – 1

É desses paradoxos que nem a política explica e que a razão desconhece: depois do fiasco (pela grandiosa adesão esperada pelos organizadores) do Dia Nacional de Luta, quinta-feira passada, percebe-se que o novo sindicalismo brasileiro, batizado de “autêntico”, nascido com Lula e os movimentos no ABC paulista em fins dos anos 1970, está a morrer, vítima do lulismo.
É inegável que a CUT, Força Sindical, CGT e outras centrais sindicais menos votadas, mais companhias belas como UNE e MST, esperavam levar às ruas no dia 11 de julho multidões bem maiores que as cerca de 100 mil pessoas que mobilizaram pelo Brasil inteiro.
Já os “indignados” brasileiros de junho — sem organização visível, sem estrutura, sem líderes tarimbados, sem carros de som e microfones – reuniram um milhão e meio de cidadãos também numa quinta-feira, semanas atrás.

O “novo” sindicalismo em concordata – 2

Falharam os pentecostais do trabalhismo oficial e seus penduricalhos basicamente por três razões :
1. Afastaram-se de suas bases, imantados por verbas oficiais do imposto sindical e de financiamento às organizações não-governamentais que na verdade são governamentais, começaram a recolher milhões nos últimos anos, graças às generosidades brasilienses. Perderam garra. O MST é a melhor prova disso.
2. Estão com um discurso defasado, antiquado para uma sociedade que mudou muito, política e socialmente, no último caso em boa parte graças às políticas de renda do próprio lulismo.
3. Tornaram-se extremamente semelhantes aos partidos políticos aos quais indiretamente estão ligadas.
Neopeleguistas, se quiserem sobreviver só lhes resta se reinventarem, assim como Lula inventou o sindicalismo moderno brasileiro mais de 30 anos atrás. Esse mesmo que agora fenece.

20 julho 2013

Roberto Pompeu de Toledo: O poste em curto-circuito


"Síndrome de Estocolmo": "Dilma já se entregou ao obrigatório ritual de encontrar-se com Lula duas vezes desde o início dos protestos" (Foto: Correio do Brasil)
"Síndrome de Estocolmo": a relação entre a presidente e Lula "ameaça adquirir caráter patológico, se é que já não assumiu" (Foto: Correio do Brasil)

Artigo publicado em edição impressa de VEJA
O POSTE EM CURTO-CIRCUITO
Roberto Pompeu de Toledo
Roberto Pompeu de Toledo

A crise da presidente Dilma Rousseff expõe os limites da teoria do poste.
Não foi o ex-presidente Lula quem inventou o poste. Se a memória não falha, já nos idos de 1974, nas eleições para o Senado que determinaram o início da decadência da ditadura, colou-se o apelido de “postes” nos eleitos ao embalo da súbita e surpreendente onda oposicionista.
O que Lula fez foi exacerbar a teoria e reivindicar sua aplicação como mágica pessoal.
Nenhum poste gosta de ser chamado de poste, e a cortesia manda que os fazedores de postes não os chamem pelo desprestigioso apelido. No entanto, na euforia da vitória do prefeito Fernando Haddad em São Paulo, o ex-presidente disse que “de poste em poste” o Brasil se iluminaria.
No caso da presente crise da presidente — porque a crise que começou nas ruas evoluiu, sim, para uma crise da presidente —, os efeitos perversos da eleição de um poste revelam-se nas seguintes evidências:
1 – O governo está sem rumo. Não é de hoje que a condução errática da economia, a demora em atacar os gargalos na infraestrutura, a nomeação e desnomeação de ministros e a dubiedade no combate à corrupção traem inexperiência que resulta em insegurança e indecisão.
Nas duas últimas semanas, tais sintomas viraram febre com as sucessivas trapalhadas da Constituinte exclusiva e do plebiscito.
A desconhecida Dilma foi-nos apresentada como “gerentona”. Hoje é a gerente que não gerencia uma equipe balofa e incoerente. A dureza na cobrança e a minudência no acompanhamento do trabalho dos auxiliares eram exaltadas como qualidades. Revelaram-se defeitos.
O reflexo condicionado é encobrir as insuficiências pondo a culpa na “articulação política”. A “articulação” e sua irmã gêmea, a “comunicação”, são dois gastos bodes expiatórios. Não há articulação nem comunicação que funcionem se a outra ponta não funciona. A outra ponta é o gabinete presidencial.
2 – Desaba o respeito ao governo. As vaias são o de menos. Pior é o misto de cinismo e traição que rodeia a presidente. A chamada “base aliada” esfarelou-se. Ao vácuo de liderança sucede-se a balbúrdia no Congresso.
Com a esperteza de sempre, deputados investem contra o chamado “foro privilegiado” como se fosse medida moralizadora, quando o mensalão provou que o suposto “privilégio” na verdade lhes rouba o recurso às diversas instâncias do Judiciário e às infinitas chicanas do processo ordinário.
Pior para o governo é a ameaça de se votar o tal “orçamento impositivo”, instituindo o escândalo da liberação obrigatória das já de si escandalosas emendas parlamentares. O desrespeito à presidente propicia a abertura da temporada de caça ao Erário.
3 – O poste foi feito refém. Outros postes, na política brasileira, tiveram melhor sorte. A este não se permite desligar-se do criador. Dilma já se entregou ao obrigatório ritual de encontrar-se com Lula duas vezes desde o início dos protestos. A relação ameaça assumir caráter patológico, se é que já não assumiu.
O ex-presidente não sossega de impor-se como patrono, mestre, guia e protetor. A sucessora se rende à sorte de patrocinada, discípula, guiada e protegida. É quase uma versão da “síndrome de Estocolmo”, pela qual o sequestrado acaba cativado pelo sequestrador.
“Cativado” quer dizer enamorado, mas também prisioneiro. Tem-se uma presidente obrigada à reverência a uma instância superior.
O resultado é a perda da reverência que deveria inspirar.
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Os cães, na política americana, servem para ressaltar o tipo “família”, e portanto bom caráter, de seu possuidor. Richard Nixon, acusado de apropriar-se indevidamente de fundos de campanha, em 1952, reagiu dizendo, num emotivo discurso, que o único presente recebido dos apoiadores fora o cãozinho chamado Checkers, alegria de suas filhas. O episódio passou a ser chamado de “o discurso de Checkers”.
Obama, recém-eleito presidente, abriu debate público sobre que tipo de cão deveria ser dado às filhas. Ganhou o cãozinho batizado de Bo, desde então assíduo figurante nas fotos de família.
No Brasil, a cachorra de Antônio Rogério Magri, ministro de Collor, ficou conhecida ao ser transportada ao veterinário em carro oficial. Agora, como revelado na VEJA da semana passada, o cachorro Juquinha, do governador Sérgio Cabral, entra no rol das celebridades caninas por pegar carona de helicóptero. Cães no Brasil denunciam o caráter não tão bom de seus possuidores.

18 julho 2013

‘Roteiro para a comissão da reforma’, editorial do Globo


Publicado no Globo desta quinta-feira

O grupo de trabalho da reforma política, instalado terça na Câmara, antes do recesso, pode ser a
materialização da conhecida regra cultivada no setor público de se criar uma comissão toda vez que não se deseja resolver alguma coisa. Ou não.
A comissão, a funcionar a partir de agosto, cumpre, de qualquer forma, a necessária função de ordenar o ativismo quase maníaco que tomou conta do Planalto e do próprio Congresso, diante da pressão das ruas. Naquele momento, cada um metabolizou as pressões conforme o próprio interesse. O caso mais evidente foi o de alas do PT interessadas em instalar mecanismos de “democracia direta” no país, inspiradas no caudilho Hugo Chávez. Surgiu daí, do bolso de um colete ideológico, a ideia da “Constituinte exclusiva”. Estabelecida a sua inconstitucionalidade, ela foi convertida num plebiscito — por sua vez, desaconselhável, por não ser a legislação político-eleitoral adequada a este tipo de consulta popular.
Sob a presidência do deputado petista Cândido Vaccarezza (SP) — consta que escolhido por Lula, numa disputa do paulista com a ala gaúcha do partido —, a comissão deverá examinar a possibilidade do plebiscito, algo como uma fixação obsessiva do Planalto e parte da legenda. O melhor desfecho, neste ponto, é a opção por um referendo sobre aquilo que o Congresso vier a decidir. Outra proposta petista é o financiamento público total de campanha, algo que, para ser efetivado, forçará a mudança do sistema eleitoral para listas fechadas de candidatos, o sonho de todo cacique político. Vai ser preciso muito discurso para convencer a população a gastar ainda mais com políticos — os mesmos execrados nas manifestações — e que uma boa alternativa é ela não mais escolher em quem votar, delegando este poder à cartolagem partidária.
A comissão contribuirá para o aperfeiçoamento da vida pública se não abrir demais o leque de temas, buscar alterações mínimas, porém de grande efeito na oxigenação da política brasileira. O fim das coligações nos pleitos proporcionais — para as Casas legislativas — tem este poder. Os próprios petistas sabem o quanto lhes custa manter na base parlamentar legendas de pouca expressão, interessadas apenas em negociar — literalmente — apoios e, em especial, seu tempo no programa eleitoral gratuito. O mensalão deriva, em parte, da pulverização do quadro partidário.
A comissão é mais uma oportunidade para também se discutir a sério a definição de alguma cláusula de barreira palatável ao Supremo, outra ajuda na despoluição do quadro partidário.
À primeira vista, o grupo de trabalho que começará a funcionar em agosto é mais do mesmo — muito barulho para nada. É bom que não seja. O país se move, o campo político no poder há mais de 10 anos perde apoio popular, e a comissão é uma chance de toda a classe política restaurar alguma credibilidade no Congresso, crucial para a governabilidade.

16 julho 2013

Pesquisa aponta: popularidade de Dilma desaba de 54,2% para 31,3%. Avaliação negativa de seu governo dispara de 9% para 29,5%. A desaprovação do desempenho pessoal chega a 47,3%


A nova pesquisa confirma e acentua as más notícias para Dilma que já vinham do Datafolha (Foto: O Globo)

Do jornal O Estado de S. Paulo

A avaliação positiva do governo da presidente Dilma Rousseff caiu de 54,2% para 31,3%, segundo pesquisa de opinião pública CNT/MDA divulgada nesta terça-feira, 16.
(A MDA Pesquisa é uma empresa especializada que tem como clientes, além da Confederação Nacional dos Transportes [CNT], empresas e entidades do porte do Banco do Brasil, a Agência Nacional de Energia Elétrica, os Correios, as escolas Fisk de idiomas, a empresa de seguro-saúde Unimed, o PMDB e o próprio governo federal. Vejam seu site.) 
O levantamento foi feito entre os dias 7 e 10 de julho, após a onda de protestos ocorrida no país.
A avaliação negativa do governo subiu de 9% em junho para 29,5%.
Foram entrevistadas 2.002 pessoas, em 134 municípios de 20 Estados, das cinco regiões. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos.
A última pesquisa CNT/MDA, divulgada em 11 de junho, registrou oscilação negativa na avaliação do governo e ficou em 54,2%, ante 56,6% do levantamento anterior.
Segundo o levantamento atual, a aprovação do desempenho pessoal de Dilma também caiu de 73,7% e para 49,3%. Já o índice de desaprovação saltou de 20,40% em junho para 47,3%.
Datafolha
No fim de junho, pesquisa realizada pelo Datafolha, divulgada no dia 29 de junho – após a intensificação dos protestos pelo país -, também indicou queda na aprovação da presidente.
O índice caiu de 57% para 30% em três semanas. Foi a maior queda de aprovação de um presidente aferida pelo Datafolha desde Fernando Collor em 1990.
Nesse fim de junho, o levantamento identificou ainda o aumento da reprovação ao governo. O percentual de brasileiros que consideram o governo ruim ou péssimo subiu de 9% para 25%.
A deterioração das expectativas em relação à economia, segundo o jornal, também explica a queda da aprovação da presidente. A avaliação positiva da gestão econômica caiu de 49% para 27%.

12 julho 2013

‘Vai piorar’, por Carlos Alberto Sardenberg


Publicado no Globo desta quinta-feira
CARLOS ALBERTO SARDENBERG
Deu na coluna de ontem do Ilimar Franco (Panorama Político): prefeitos relataram que estão com dificuldade de contratar empresas de ônibus; as concessionárias não têm se habilitado às licitações. Alegam que vão perder dinheiro, pois se tornou inviável aumentar o preço das tarifas.
Ou seja: o transporte urbano vai piorar nessas cidades, mesmo que as prefeituras assumam o serviço. Nesse negócio, o setor público gasta mais e entrega menos.
Deu no Valor de terça: o Ministério dos Transportes vai dispensar as concessionárias de rodovias federais de novos investimentos. É uma forma de compensar a suspensão do reajuste de pedágios, única fonte de receita das empresas.
Ou seja, uma violação de contrato (a suspensão dos reajustes) compensada por outra (investimentos cancelados). As estradas vão piorar e os programas de privatização de infraestrutura estarão prejudicados por mais uma insegurança jurídica.
Imagino que terá gente dizendo: estão vendo? Os manifestantes fazem aquela baderna e dá nisso, tudo piora.
É um erro de julgamento, claro. Muita coisa, de fato, pode piorar, mas a culpa não será dos manifestantes. Será dos políticos que estão no poder ─ federal, estaduais e municipais ─ que não sabem como responder à demanda das pessoas. Esses manifestantes, na verdade, serão vítimas duas vezes: na primeira, pelo uso dos serviços ruins; na segunda, pela piora dos serviços em consequência da inépcia dos governantes.
Nenhuma pessoa normal é obrigada a saber a planilha de custos de um serviço público, seja de uma viagem de ônibus ou de um atendimento no posto de saúde. Mas qualquer pessoa sabe se o serviço é bom ou ruim. Os manifestantes reclamaram do que percebem como ruim. Também reclamaram do preço que pagam, quer diretamente, via tarifas, quer indiretamente, via impostos.
(Aqui, aliás, tem um fato curioso: nos últimos anos, aumentou o número de trabalhadores com carteira assinada, ou seja, o número de pessoas que podem ver no contracheque o quanto pagam para os governos.)
Cabe aos políticos/governantes saber exatamente quanto custa o serviço e, mais importante, quem vai pagar a conta.
Parece óbvio, mas tem muito governante que não sabe. Muitos prefeitos, governadores e ministros que cancelaram reajustes disseram que iam passar um pente-fino nas tarifas para procurar (e cortar) gorduras ou, tese preferida, excesso de lucros dos concessionários. Mas só desconfiaram disso agora? Esta não é uma questão política, mas técnica.
Política é a decisão sobre o que fazer depois que se sabe o custo: para quem mandar a conta? Só há duas possibilidades: paga o usuário direto do serviço (pelo bilhete do ônibus, pela consulta ou pela mensalidade) ou paga o contribuinte que recolhe impostos, seja ou não usuário.
Numa estrada com pedágio, quem paga é o motorista que trafega por lá. Se não há pedágio, se a estrada é mantida pelo poder público, então um cidadão que compra uma garrafa de cerveja e morre com ICMS, IPI e tudo o mais está ajudando a financiar a rodovia, mesmo que nunca passe por ela.
Em tese, parece mais justo, sempre, que o usuário pague. E pensando longe, se todos os serviços públicos fossem remunerados pela pessoa que os utiliza, a carga tributária geral poderia ser reduzida expressivamente.
Mas não é simples assim. No caso dos pedágios, a situação, de fato, é mais fácil de elaborar. Por que uma pessoa pobre financiaria, com os impostos que paga sobre alimentos e roupas, por exemplo, a estrada pela qual os mais ricos viajam para o fim de semana?
Já não é tão simples dizer que o paciente do SUS deveria pagar pelas consultas e tratamentos. Aqui entra outra tese: os ricos devem recolher mais impostos para financiar os serviços essenciais para os pobres. Mas para que isso funcione, é preciso que o sistema tributário seja progressivo, cobrando efetivamente mais de quem pode mais.
Para isso, o grosso dos impostos deveria incidir diretamente sobre renda e patrimônio das pessoas e não indiretamente sobre o consumo, como é o caso do Brasil. Pobres e ricos pagam o mesmo imposto num livro escolar ou numa conta de celular, por exemplo. O sistema é regressivo.
Resumindo: se quisermos aliviar a conta para os usuários dos diversos serviços, será preciso aumentar os impostos, decidindo-se, então, quem vai recolher mais.
Eu perdi alguma coisa ou não há mesmo nem sombra desse debate?
Resumindo, se a resposta é só cancelar reajustes, vai piorar.

No dia das manifestações organizadas por quem se apresenta como representante do povo, povo foi o que menos se viu


ATUALIZADO ÀS 14:29


Por BRANCA NUNES
Em vez dos cartazes de cartolina com dizeres manuscritos – NÃO SÃO SÓ 20 CENTAVOS, QUEREMOS HOSPITAIS PADRÃO FIFA, TOLERÂNCIA ZERO PARA A CORRUPÇÃO e várias reivindicações bem humoradas –, banners, a grande maioria vermelhos, com slogans como “O petróleo é nosso”, “Não à terceirização”, e “Pela taxação das grandes fortunas”. Em vez das bandeiras do Brasil e das caras pintadas de verde e amarelo, estandartes da CUT, da Força Sindical, do Sindicato dos Comerciários, do PSOL, da UNE, do PSTU, do MST e de dezenas de partidos e movimentos sociais. Em vez de palavras de ordem cantadas em coro, berros individuais vindos do carro de som.
Nesta quinta-feira, todas as bandeiras que haviam desaparecido – ou sido expulsas – das ruas nas manifestações que tomaram conta do país desde 6 de junho reapareceram na Avenida Paulista atendendo à convocação das centrais sindicais engajadas no Dia Nacional de Luta com Greves e Mobilizações. Em compensação, a população apartidária sumiu – e o 11 de julho foi marcado por mais do mesmo: os mesmos discursos inflamados contra o capitalismo, a direita golpista, a Rede Globo e outros inimigos de sempre.
Ao contrário do que se via nas manifestações anteriores a pretendida greve geral desta quinta-feira teve mais bandeiras de centrais sindicais e partidos do que manifestantes. Os discursos no carro de som não provocavam nem aplausos nem vaias. E gritos de guerra como “eu, sou brasileiro, com muito orgulho”, que os dirigentes tentaram puxar mais de uma vez, morriam antes da segunda frase – nada a ver com os hinos entoados durante os protestos do Movimento Passe Livre, que contagiavam multidões.
O acordo intersindical que excluiu o “Fora Dilma” da pauta de reivindicações parece ter dado certo. Ainda assim, as bandeiras do PT eram as mais envergonhadas – e tanto Dilma quanto Lula não escaparam de críticas no asfalto e no palanque. Enquanto Ana Luiza, que disputou a prefeitura de São Paulo pelo PSTU clamava “contra a política econômica do governo Dilma, contra Alckmin e contra Haddad”, um representante do recém nascido Partido Pátria Livre (PPL) fez questão de “saudar o PT e saudar o Lula” nos três minutos a que teve direito no serviço de som. Algumas faixas chamavam José Eduardo Cardozo de Ministro da Injustiça e exigiam o mesmo reajuste salarial concedido aos ministros.
Se o objetivo das centrais era pegar carona na revolta da rua, elas podem considerar-se derrotadas. O contraste entre as duas manifestações foi tão gritante que apenas escancarou o abismo entre o que quer a população e o que lhes oferece quem está no poder (seja nos governos, nos partidos ou nos sindicatos), entre uma forma nova de expressar-se e outra completamente ultrapassada, entre o autêntico e o artificial. Embora se apresentem como representantes do povo, povo era o que menos se via entre as pouco mais de cinco mil pessoas que ocuparam duas quadras da avenida mais emblemática de São Paulo.

‘A terapia do susto’, por Nelson Motta


Publicado no Globo desta sexta-feira
NELSON MOTTA
Estamos vivendo dias de espanto, com Renan Calheiros se tornando o paladino das forças do bem, ávidas para atender prontamente as reivindicações populares, mesmo cortando na carne do Senado, e com o apoio de Sarney! Estamos dependendo da independência, da grandeza, da integridade e do espírito público do PMDB de Henrique Alves e Eduardo Cunha para evitar desastres armados pelos estrategistas do Planalto e apoiados pelo PT e o PCdoB, como o plebiscito de araque. Que fase!
Seguindo orientação de Lula, 25 governadores, 37 ministros, a base parlamentar aliada e os movimentos sociais foram recebidos pela presidente, filmados e fotografados, mas não falaram nada e nem foram consultados nas propostas e decisões do governo, só ouviram em silêncio, remoendo sua raiva, frustração e impotência. Os prefeitos pelo menos vaiaram.
Pela primeira vez na história deste país, prefeitos recebem dinheiro de um governo e vaiam. Mas todo mundo entendeu que eles não querem um jabá, mas negociar democraticamente a distribuição do Fundo de Participação dos Municípios e depender menos do poder imperial de Brasília. Com o povo de suas cidades bufando nos seus cangotes, os prefeitos querem mostrar serviço, como nunca na história deste país.
Quando 81% dos brasileiros avaliam os políticos como “corruptos ou muito corruptos”, para conter sua voracidade, associada a empresários inescrupulosos e funcionários venais, são criados incontáveis mecanismos de controle, e de controle do controle, aumentando o poder da burocracia e atrasando os projetos e investimentos públicos. Criando mais dificuldades para vender novas facilidades, aumentam a corrupção. São mais mãos a serem molhadas, mas o custo é sempre repassado aos consumidores finais: nós.
Mas o presidente do PT atribui as dificuldades do governo a falhas de comunicação, como se o governo não gastasse mais de um bilhão de reais por ano em triunfais campanhas publicitárias de João Santana vendendo o Brasil Maravilha de Lula e Dilma. Pelo contrário, o governo é vítima de seu excesso de comunicação, contrastado fragorosamente pela realidade das ruas.

‘Atrás do fio elétrico’, de Dora Kramer


Publicado no Estadão desta sexta-feira
DORA KRAMER
Não houve greve geral nem comoção nacional. Na comparação, o “Dia Nacional de Lutas” ficou a léguas de distância do impacto provocado pelas três semanas de protestos que deixaram o país em transe e o poder público em pânico.
Contou a ausência do fator surpresa, é verdade, mas evidenciou-se também uma mudança de paradigma: a sociedade prefere conduzir a ser conduzida e dá conta do recado com muito mais competência.
Fala-se de falta de foco nos protestos de junho, na ausência de lideranças, na desorganização e no caráter apolítico visto com receio de que signifique repúdio à atividade inerente ao sistema democrático.
Mas, ao que se viu nos embates das centrais sindicais durante os preparativos para as manifestações de ontem, a garotada mobilizada pela internet tinha mais apelo, se fazia entender muito melhor com sua variedade de bandeiras que os sindicalistas organizados em suas centrais bem estruturadas, sustentadas com verbas públicas e ligadas a esse ou àquele partido.
A massa junina saiu de casa para dizer que queria ser mais bem atendida pelo Estado, respeitada por integrantes dos Poderes constituídos e representada pelos eleitos. Já as centrais, a partir da pauta de reivindicações tradicionais, digladiaram entre dois objetivos: de um lado marcar posição contra o governo, de outro abrir espaço para a defesa de interesses do governo, entre eles a ressurreição do plebiscito da reforma política.
Todo mundo entendeu o sentido do movimento iniciado pela juventude: “Não é só pelos R$ 0,20″; era e continua sendo pelo conjunto da obra. Causou espanto a forma, mas o conteúdo estava explícito.
No caso dos sindicatos a forma é familiar, os instrumentos, tradicionais, mas o conteúdo é subentendido: uma tentativa de recuperar um território perdido – ou melhor, abandonado – desde que os chamados movimentos sociais organizados resolveram trocar as demandas daqueles que representavam por uma parceria (mais das vezes remunerada) com o governo que supostamente detinha o monopólio de todos os anseios.
Sendo um “governo popular”, para todos os efeitos os movimentos sentiram-se desobrigados de cumprir cada um o seu papel de acordo com as demandas dos respectivos segmentos. O governo em si daria conta da tarefa. De fato, o mundo oficial ocupou todos os espaços, tirou de cena a intermediação, cortaram-se as cordas vocais da população.
Aconteceu com os estudantes, com os acadêmicos, com os sindicalistas e com todos os grupos que agora são recebidos em Palácio pela presidente Dilma Rousseff a fim de se construir um ambiente de diálogo onde antes havia o monólogo. Consentido, diga-se.
Ficou todo mundo muito bem comportado, a sociedade submergiu. A opinião do público se expressou por intermédio das pesquisas, sempre registrando altos e crescentes índices de popularidade aos inquilinos do poder central. Dilma, um sucesso de bilheteria ainda maior do que Lula.
Quando a população emergiu na fagulha acesa pelo Movimento Passe Livre na fogueira da insatisfação acumulada, viu-se o quanto de fantasia havia no cenário paradisíaco.
Desfeita a miragem, lá se foram centrais, UNE, sem-terra e companhia tentar recuperar o território perdido, disputar as ruas como instrumento de pressão da opinião pública junto às instituições.
Destreinadas, afônicas, atordoadas, ficaram a reboque do abrupto grito anterior e, se prestaram bem atenção no descompasso, são alvos de desconfiança, fazem parte do balaio genericamente chamado de crise de representação.
Vão precisar se reinventar. Por ora tentaram sem grande êxito imitar o inimitável, igualar-se ao inigualável.

Geração Facebook diz “não” à Força Sindical, à CUT e aos partidos políticos, e Dia Nacional de Lutas vira um grande mico. Falha tentativa dos “aparelhos” de ganhar as ruas

Por Reinaldo Azevedo (Veja.com):
Micou de maneira retumbante o tal Dia Nacional de Lutas. A CUT, a Força Sindical, outras centrais e os partidos políticos de esquerda foram malsucedidos na tentativa de pegar carona da onda de protestos que sacudiu o país. Houve, sim, muita atrapalhação nas estradas, ocupação em porto, escaramuças, dificuldades aqui e ali, mas nada nem remotamente parecido com os protestos havidos no mês passado. ATENÇÃO, LEITOR! Se eu fosse um desses “cientistas sociais” que têm medo dos seus alunos e gostam de posar de moderninhos – aquela gente, sabe?, que agora deu para falar em “crise da democracia representativa” –, estaria achando lindo o que aconteceu. Mas eu não acho, não. Na verdade, o evento desta quinta jogou ainda mais luzes sobre os havidos no mês passado e só reforçaram alguns temores que eu tinha. O que significa o micão desta quinta, em contraste com aquele milhão e meio de dias atrás? Significa que reivindicar o inexequível é bem mais gostoso, o que nos remete a um dos lemas de Maio de 1968, na França: “Seja realista, peça o impossível”. O evento também expõe uma das forças e, ao mesmo tempo, das maiores fragilidades da “onda de protestos” no Brasil: a composição social de quem vai ou foi às ruas. O primeiro passo para responder de forma eficiente à realidade e admiti-la: os pobres, com raras exceções, preferiram, até agora, ficar em casa.
Assim, entendam direito o meu ponto: não lamento o fato de o protesto desta quinta ter sido malsucedido porque gostaria de ver a CUT, a Força e até os petistas a liderar a massa… Eu não! Deus me livre! Lastimo é que a pobreza de liderança política no Brasil se reflita também nos sindicatos e que estejamos sem o fio que possa desatar o nó. Vamos lá. Milhões de trabalhadores poderiam ter ocupado as praças para cobrar redução na jornada de trabalho, certo? É uma reivindicação muito mais, como direi?, palpável do que os tais 20 centavos. Mas aí alguém se lembrou de gritar: “Não é pelos 20 centavos”. E estava dada a deixa para uma mobilização que tem, sim, âncoras no mundo real – corrupção dos políticos, ineficiência do serviço público, gastança de dinheiro –, mas que se expressa numa espécie de bolha de sensações e de emoções. Para voltar a Maio de 1968, o que conta é fazer as barricadas do desejo. A utopia é a da ausência de estado, assuma isso a forma violenta (os baderneiros) ou pacífica (uma coisa, assim, “faça amor, não faça a guerra”).
Cobrar redução da jornada e fim do fator previdenciário, olhem que coisa!, parece apequenar o movimento e a razão por que se vai às ruas; é, como diriam os adolescentes hoje em dia (de maneira irritante), “tipo assim” coisa de pobre, de um pragmatismo incompatível com o sonho e com as evocações românticas. Os “sonháticos” querem um outro mundo possível… Não! Na verdade, pretendem um outro mundo… impossível. Nele, não só os políticos não roubam como, a rigor, não há políticos nem política.
É claro que eu poderia lembrar àqueles valentes cientistas sociais que têm medo de contrariar os alunos que também as manifestações de junho levaram às ruas as… minorias!, ainda que tenham mobilizado, sei lá, 20 ou 30 vezes mais gente do que a desta quinta-feira. Huuummm… Então vamos ver: líderes que efetivamente representam grupos e com os quais se podem fazer acordos mobilizam meia dúzia de gatos-pingados; não líderes – e que, portanto, não lideram, mas alçados pela imprensa à condição de estrelas da não representação – conseguem criar eventos que reúnem alguns milhares. Muito bem! O que se vai negociar com eles? Chamem a Mayara Vivian e os coxinhas radicais do Passe Livre… 
Há quem se deixe cair de encantos por um paradoxo cuja graça, havendo alguma, é não mais do que literária – e literatura meio velha, da década de 60: a “juventude” (ah, os tarados pela juventude…) que está nas ruas tem força, mas não sabe o que quer, e os que sabem o que querem já não têm força. Mas onde está a virtude desse troço? Se isso produzir algo, tenho minhas dúvidas, será, no máximo, um impasse. Para o qual ninguém tem resposta.
Dilma está encalacrada? Está, sim, de dois modos distintos: há o impasse de fundo, que diz respeito ao esgotamento do modelo lulo-petista, do qual, vamos ser francos, até havia pouco, a esmagadora maioria da imprensa não havia se dado conta. Ou havia? Leiam os jornais de há dois ou três meses. Com ou sem “povo” na rua, o país ia mal das pernas. E agora ela enfrenta o descontentamento com “tudo isso que está aí”. Ocorre que esse “tudo isso” pode se voltar contra qualquer um; ele é dirigido, na verdade, contra o governante de turno. E não consegue se transformar numa agenda.
Essa conversa mole da “sociedade horizontal”, sem hierarquia de valores, sem eixo e sem centro, sinto muito, é conversa de bêbados. É divertido e coisa e tal, mas sempre chega a hora de pagar a conta e de voltar para casa – sem contar a ressaca… Não vai a lugar nenhum e ainda pode produzir alguns desastres. Boa parte do que o Congresso votou até agora, emparedado pelas ruas, se querem saber, não é coisa boa e tende a ter efeitos deletérios. Na esfera econômica, o país vive um congelamento branco de tarifas públicas que pode ter efeitos desastrosos. Ensaia-se facilitação de mecanismos de democracia direta que, se efetivados, tornarão a democracia brasileira refém de minorias organizadas e barulhentas.
Caminhando para a conclusão
Sim, as centrais sindicais e os partidos quebraram a cara ao tentar, de maneira oportunista, pegar carona no movimento das ruas. Tiveram uma lição e tanto. Mas isso só nos diz o tamanho do impasse e os riscos que estão por aí. Não há nada de belo ou de bom numa sociedade sem interlocutores considerados confiáveis para articular o futuro. Vivemos, nesses dias, sob uma espécie de ditadura do presente.
Pode dar em quê? No quadro atual, há, sim, o risco de eleger em 2014 alguém que fale em nome da “não política”, e aí saberemos o que é crise! Mas o mais provável é que se tenha mesmo uma saída “conservadora” – no caso, conservadora do statu quo; vale dizer: a continuidade do petismo. E isso seria igualmente desastroso.

11 julho 2013

As mobilizações em imagens

Publico aqui imagens que me chegaram por e-mail, mandadas pelo meu amigo professor Michiles:






‘O plebiscito’, por Arnaldo Jabor


Publicado no Estadão desta terça-feira
ARNALDO JABOR

Pai, o que é plebiscito? ─ assim perguntava o menino, no conto de Artur Azevedo, em 1890. O mesmo aconteceu comigo.
Estava na sala e de repente meu filho levanta a cabeça e pergunta:
─ Pai, o que é plebiscito?
Eu fechei os olhos imediatamente para fingir que dormia. O menino insiste:
─ Papai? O que é?
Não tenho remédio senão abrir os olhos.
─ Ora essa, rapaz, tens treze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?
─ Se soubesse, não perguntava.
─ Plebiscito, meu filho, é quando o governo pergunta ao povo o que ele acha de determinado assunto importante para o país. Voltou à tona depois que houve as manifestações de rua, com mais de um milhão de pessoas protestando contra o caos brasileiro.
─ Que pergunta é importante para o Brasil?
─ São muitas perguntas meu filho… quer exemplos? Muito bem… vamos a isso:
─ Você é contra ou a favor de 15 bilhões para estádios de futebol, dinheiro que dava para fazer 50 hospitais ou 75 quilômetros de metrô em São Paulo? Você é a favor da reforma politica? Você sabe o que é voto distrital comum ou misto? É contra ou a favor? Aliás, você sabe o que é isso, filho?
─ Se você explicar…
─ Também não sei, filho… mas, vamos lá… Você é contra ou a favor de haver 28 mil cargos de confiança no governo, se a Inglaterra tem apenas 800 e os Estados Unidos, 2 mil? O Brasil tem mais de 5.700 municípios, com prefeitos, vice prefeitos, 513 deputados federais, 39 ministérios. Não dava para cortar tudo pela metade? E o PAC? Que fez o PAC até hoje? Com a corrupção deslavada, o PAC acabou fazendo pontes para o nada, viadutos banguelas, estradas leprosas, hospitais cancerosos, esgotos à flor da pele, tudo proclamado como plano de aceleração do crescimento.
Os melhores economistas do mundo dizem que temos de abandonar a politica econômica de estimular demanda e atentar para o crescimento da oferta, pela redução de gastos do Estado, que se apropria de 36% da renda nacional mas investe menos de 3% e consome grande parte dos recursos para sua própria operação. Você entendeu o que falei? Um dia, entenderá.
Você é contra ou a favor de investigar por que a Petrobrás comprou uma refinaria no Texas por US$ 1 bilhão, se ela vale apenas US$ 100 milhões? Você é contra ou a favor da ferrovia Norte-Sul que está sendo construída há 27 anos, com mil roubalheiras e ainda quer mais 100 milhões para cobrir o que a Valec desviou quando o Juquinha, afilhado do eterno Sarney, era o chefão?
─ Quem é Sarney?
─ É o comandante do atraso.
─ Ah, legal…
─ Você é contra ou a favor da CPI que fez o Cachoeira sumir do mapa para não criar problemas para o Executivo e suas empreiteiras? Você lembra das operações da Policia Federal, com lindos nomes? Cavalo de Troia, Caixa de Pandora (do Arruda), Anaconda, das mil ambulâncias dos sanguessugas? E tantas outras. Quantos estão presos hoje? Você é contra ou a favor de reforma do Código de Processo Penal? Aliás, por que o PT quer tanto o plebiscito? Ele lucra com isso? Sim ou não?
O Lula sumiu de cena mas já declarou que as manifestações são ” coisa da direita “. E o PT? É peronista de direita ou de esquerda? Com a volta da inflação, você é contra ou a favor da correção monetária para o Bolsa Família? Você não acha que é fundamental a privatização (ohhh, desculpe, “concessão”) de ferrovias, aeroportos e rodovias?
Por que uma das maiores secas de nossa história não é analisada pelo governo? Para não criticar os donos da indústria da seca, por motivos eleitorais? Alias, o que aconteceu com o Rio São Francisco, que disseram que iam canalizar? Parou? Sim ou não?
Sem dúvida, Sergio Cabral foi quem mais se queimou nisso tudo. Mas, pergunto, que será do estado do Rio de Janeiro com o Lindnberg Farias, ex-prefeito de Nova Iguaçu, com o sigilo quebrado pelo STF, governando o estado até 2018? Será que o Pão de Açúcar fica em pé?
Você acha legal ou não a importação de médicos cubanos para o país?
Você é contra ou a favor do “trem-bala” que custará (na avaliação inicial) cerca de 30 bilhões de reais, que davam para renovar toda a malha ferroviária comum? Aliás, nessa velocidade, qual a altura que ele vai voar, quando os traficantes do Rio puserem pedras nos trilhos?
Você acha que os “mensaleiros” ficaram contentes com o fim da PEC 37 que o Congresso, apavorado, rejeitou?
Você acha normal que o Brasil cobre R$ 36 de impostos sobre cada R$ 100 produzidos? Você não acha o Palocci muito melhor que o Mantega? Por que não chamam o Palocci? Quem é? É o melhor cara do PT, que impediu a destruição do Plano Real durante os quatro anos do primeiro mandato do Lula.
Você entende, meu filho, o governo do Brasil tenta com sua ideia de mudança constitucional transformar problemas administrativos em problemas institucionais. Você não acha que querem disfarçar sua incompetência administrativa? Afinal, quem governou o país nos últimos dez anos? Agora, parece que descobriram que o país precisa de reformas, que o PT não fez nem deixou fazer por 10 anos. Agora, gritam todos: reforma! Por isso, pergunto: será que os intelectuais não veem que a democracia conquistada há 20 anos está sendo roída pelos ratos da velha política? Você acha que a Dilma está com ódio do Lula, por ter finalmente descoberto o tamanho da herança maldita que deixou para ela? Mas Lula não liga. “Ela que se vire…” ─ ele pensa, em seu egoísmo, secretamente até querendo que ela se dane, para ele voltar em 2014. Você acha, meu filho, que o Lula vai ser candidato de novo? E será eleito como “pai do povo” , para salvar o país que ele destruiu?
E que você acha de todas essas perguntas, filho? Qual a sua opinião?
─ Pai, o povo já respondeu a todas essas perguntas. Então, para que perguntar de novo?
─ É técnica de marketing, meu filho. Ideia do Lula, para dar a impressão de que o governo não sabia de nada. Como ele nunca soube.

09 julho 2013

ABSURDO: obrigar estudantes de Medicina a trabalhar no SUS “na marra” é coisa de ditadura!


Médicos protestam no Largo do Campo Grande, em Salvador (Foto: Biel Fagundes / Agência BAPress / Folhapress)

Vejam a DEMOCRATURA PETISTA em ação, em resposta aos 'gritos-das-ruas':

Leiam o que diz, a respeito, trecho de reportagem do site de VEJA:

“A partir de 2015, alunos que ingressarem em faculdades públicas e privadas passarão a cumprir obrigatoriamente dois anos extras de grade curricular no Sistema Único de Saúde (SUS). A ampliação está prevista na medida provisória e deverá ser regulamentada em 180 dias.
“Os alunos permanecerão vinculados à faculdade, receberão bolsa e terão custeados os gastos com o deslocamento para os rincões do país. O aumento na carga horária do ensino de medicina faz parte da estratégia para atender às pressões populares, e procura “humanizar” a medicina no país.
“As mudanças na grade curricular dos cursos de medicina estão previstas na medida provisória editada nesta segunda. Caberá ao Conselho Nacional de Educação, no entanto, regulamentar a decisão e definir as diretrizes do segundo ciclo de formação estudantil.
“De acordo com o Ministério da Saúde, a medida visa diminuir o déficit nas periferias brasileiras, já que os serviços de atenção básica são responsáveis por atender cerca de 80% dos problemas de saúde.
“O período de dois anos investidos na atuação pública poderá ser aproveitado como uma das etapas de residência ou de pós-graduação. Com a alteração curricular, é esperada a entrada de cerca de 20.000 médicos nos atendimentos do SUS em 2021, quando se iniciará a primeira etapa do programa.”
Como, assim, cara-pálida?
Atender a “pressões populares” com medidas ditatoriais?
De onde vêm os poderes presidenciais para obrigar um aluno de uma faculdade, inclusive particular, a trabalhar dois anos para o SUS no Amapá, no Piauí, em Rondônia, no interior de Minas, do Rio Grande do Sul ou onde seja?
Que raio de lei é essa que cria um “serviço militar obrigatório” para os estudantes de Medicina?
Como assim? Com quem isso foi negociado antes? Com quem se discutiu? Quem foi consultado?
Onde fica o direito de livre escolha das pessoas?
Então baixa-se uma medida provisória desse calibre — e pronto?
É muito mais fácil do que investir realmente em saúde e CRIAR CONDIÇÕES — inclusive infraestrutura — para que, ESPONTANEAMENTE, como deve ocorrer em democracias e em economias de mercado, os jovens formandos aceitem trabalhar em localidades carentes.
O problema é que o governo não tem capacidade, competência nem coragem para enfrentar a realidade que vivem os médicos contratados por prefeituras pelo país afora: sem equipamento mínimo, sem ambulâncias, sem contrato digno de trabalho, sem garantias trabalhistas essenciais, à mercê da politicagem partidária e, com enorme frequência, levando calotes dos prefeitos sem que tenham elementos suficientes para cobrar, depois, com eficácia, aquilo a que têm direito.
O precedente com os estudantes de Medicina, feridos em sua liberdade, é grave, é gravíssimo.
Daqui a pouco, o lulopetismo vai querer obrigar os estudantes de Direito a dedicarem não sei quantos anos à Defensoria Pública nos cafundós do país.
Ou enviar estudantes de Engenharia para colaborar na construção de ferrovias no Deserto do Jalapão, em Tocantins.
Ou dentistas para morarem na Caixa Prego, compulsoriamente.
Ou condicionar a formatura de estudantes de Enfermagem a cuidarem de leprosos nos confins da Amazônia.
Aí a imaginação pode correr solta. Que destino teria um estudante de, digamos, Geografia? E um de Relações Internacionais?
Não estamos em Cuba, nem na Venezuela, e muito menos na Coreia do Norte.
Essa medida provisória, como toda medida autoritária, usa como pretexto necessidades e carências reais da população para enfiar goela abaixo de jovens estudantes um absurdo.
Não é por acaso que o Conselho Federal de Medicina promete lutar até as últimas consequências contra essa barbaridade — primeiro, para convencer o Congresso a rejeitar a medida provisória. Numa etapa posterior, se ela for aprovada, irá combatê-la no Supremo Tribunal Federal.
“Os países totalitários fazem isso, os sérios não”, disse a respeito da medida o presidente do Conselho, Roberto Luiz D’Ávila. “Países sérios criam condições para que os seus recém-formados possam ir espontaneamente trabalhar no interior. É muito triste um país que precisa usar a força para obrigar os recém-formados a trabalharem.”