Pesquisar este blog

29 outubro 2013

Século XXI: o século da barbárie?

Seria considerado louco quem asseverasse que, ao contrário do que todos crêem, não há nada de iluminista nos tempos de hoje? Acho que sim. Talvez eu seja um deles.
Basta ver o que se passa nas ruas do país: black blocs quebrando tudo em nome do "socialismo", ou simplesmente "contra o capitalismo". Por que? Porque é politicamente correto, ora essa.
Da mesma natureza são as ações obscurantistas dos defensores dos animais, que se põem contra os testes em laboratório para a produção de remédios e vacinas, essas coisas de cientistas insensíveis, de uns loucos por lucros, capitalista selvagens, como são os médicos em geral. O ideal para essa gente seria a cura pelas plantas... Os médicos deveriam ser todos curandeiros, como os cubanos.
Tudo isto é fruto de décadas de glamourização do "esquerdismo" no país. Tudo começou nos anos 60, quando os militares infelicitaram o país com uma ditadura criminosa, forçando categorias de profissionais a se oporem a eles: professores das universidades; artistas; empresários; imprensa, e outras, a exercerem uma resistência dramática e heróica, mas infelizmente se opondo a uma ditadura militar "de direita" em nome de outra ditadura, civil "de esquerda" - esta, por definição, virtuosa, "legítima", representante do comunismo, ou solialismo, marxista.
Até mesmo a Igreja aderiu com sua "teologia da libertação" a essa "virtuosa" oposição esquedista, pela qual os padres-esquerdistas faziam, assim, uma espécia de sincretismo cristão-marxista...
O professores doutrinavam seus alunos na forma de pensar marxista, contrapondo-se ao capitalismo, essa entidade que por aqui sempre foi uma "ilustre" desconhecida, embora fôssemos obrigados a estudar o mercado, demanda, oferta, etc., talvez apenas para poder melhor combatê-lo, visto que, "todos sabemos", o ideal marxista, na verdade, seria melhor para a humanidade...
Assim, para nós brasileiros, o marxismo seria a redenção humanista na qual todos teriam o necessário para viver bem, materialmente falando. Todavia, nossos professores não informavam que esse ideal igualitarista seria alcançado com o sacrifício das liberdades, por imposição dos "bons". Mas, para quem se torna marxista, necesseriamente tem também de aceitar o materialismo. O homem é fruto apenas de sua própria ordem, oriunda de sua própria experiência, da maneira como organiza sua produção, de como se divide em classes, etc. Em outras palavras, há somente uma maneira de o homem se humanizar: cedendo sua vontade para um Estado socialista no qual pessoas que pensam o "bem" são aqueles que podem fazer o bem a todos, que sabem cuidar do belo e do justo, que podem levar a humnidade a seu destino.
Até porque - pontificam -, individualmente, ninguém consegue ter forças suficientes para isso. Daí o coletivismo ser a base dessa civilização "superior", como tão bem nos demonstraram a União Soviética, a China, Cuba, Vietnam do Norte, Coréia do Norte, e outros paraísos.
No socialismo não há lugar, claro, para Deus, uma vez que Darwin "provou" - ou proveu - a explicação necessária de que o homem é fruto, sim, apenas de uma ordem surgida do caos, o qual se auto-organizou de átomo em átomo, de molécula em molécula, com uma inteligência admirável, "milagrosa mesmo", a partir de uma sopa primordial, até alcançar este estágio maravilhoso a que chegou: o politicamente correto. Haja sorte na vida!
Eu, porém, "adoro" o sol, a lua, as estrelas, a água, a atmosfera, as frutas, os peixes, as aves, os répteis, os mamíferos, e outros mais que nem suspeito que sejam importantes para minha vida, estejam próximos ou longe. Sou grato por eles existirem, com as funções que têm.
Na cabeça de nossos "socialistas", essa evolução determinou a competição como forma de sobrevivência, mas apenas a dos mais fortes.  Os mais fracos dependem da "bondade" dos socialistas.
O que é isso, se não a barbárie? Como posso aceitar que o homem realmente chegue a um estágio superior, neste ou no próximo século, uma vez que a moralidade que desenvolveu se deu a partir de uma origem puramente animal, material, improvável? Se o sucesso depende de aptidão do mais forte frente ao mais fraco; se é na turba que o homem se reconhece como humanamente superior; se é predando que se constrói um mundo melhor, como esperar comportamento diferente dos black blocs?
Os nossos esquerdistas se acostumaram a ver na polícia apenas uma Instituição repressora cumprindo ordens dos ditadores militares. Na cabeça deles, inclusive da imprensa, claro, a Polícia Militar é a encarnação do mal, mesmo quando apanha. Já os manifestantes-quebradores dos símbolos do capitalismo, são sempre inocentes, mesmo quando batem.
Que tempos esses aos quais nos conduziu o partido socialista no poder! Depredam a liberdade de expressão, tratam baderneiros como companheiros, denigrem a imagem de todos que têm coragem de se lhes opor, levam o precário capitalismo-de-estado brasileiro à privatização de poucos companheiros, depredam a Petrobras, levam à bancarrota a infra-estrutura da economia brasileira, lançam por terra a educação, a saúde e a cultura do país, ou seja, em tudo que tocam transforam em mida - se é que me entendem.
O pior de tudo é que surge uma possibilidade, tênue, de alternância "por dentro", isto é, de "socialista" para "socialista" - do PT pelo PSB -, visto que no Brasil não há oposição a esse espectro político - o esquerdismo -, pois a democracia no país foi forjada - paradoxo dos paradoxos! - por líderes "esquerdistas": Tancredo (?!), Montoro, Covas, Ulisses, Lula, etc.
Lula sempre foi um animal político pragmático que trabalhou por dez anos como torneiro até se tornar sindicalista, sua suprema vocação. Tornou-se presidente da República e passou a "administrar" o país com essa visão e com os antigos companheiros, tornando o Brasil em uma República sindicalista, no paraíso dos "companheiros", que assim comprovam em suas próprias vidas a maravilha do socialismo, saindo da situação em que antes se encontravam para constituir-se numa nova classe: a dos ricos sindicalistas, às custas das negociatas que patrocinam de alto a baixo, de Norte a Sul, de Leste a Oeste do país. 
Assim, para fazer fumaça em cortinas aos seus malfazejos, a "república sindicalista" tem de patrocinar suas antigas ideologias e espalhar o terror nas ruas a fim de evitar - digo eu - que os "bons" se manifestem contra os "maus", eles próprios, e assim tenham de entregar seus postos no Estado, de onde sugam o máximo possível, no menor tempo possível...
Pobre país rico este nosso: ter de suportar, da "esquerda" para a "direita" (ou quase), tantos predadores!
Quem disse que as luzes sempre se acenderão em séculos que se queiram "das luzes" e não reinem as trevas da ignorância e da má-fé?
No Brasil, que começou vendendo bananas pro resto do mundo - não há aqui nenhuma remissão aos macacos, "nossos primos" -, após fabricar "bananadas" por uns bons tempos, hoje retorna ao início, em tempos de desindustrialização, a novamente ter de vender "bananas", chamadas de commodities.
Valha-nos Deus!

27 outubro 2013

PaTifaria pouca é bobagem: a GEAP não me representa...

Não foi uma nem duas vezes que essa Geap me trapaceou. Nunca entendi bem ela receber uma baita grana do governo e de cada segurado e inda precisar meter a mão no nosso bolso a título de "participação", isto é, uma espécie de complementação paga a mais por cada atendimento na rede autorizada.
Agora o Estadão vem denunciando essa "dilmada". Francamente! Sem Suposição, oops, Oposição, dá nisso...
Leiam o que o Estadão denuncia:

‘Privilégio para a patota’, editorial do Estadão
Publicado no Estadão desta quarta-feira
É a privatização do Estado com outro nome, mas sempre com o mesmo objetivo – dar aos companheiros, no caso, a entidades direta ou indiretamente vinculadas ao PT, oportunidades excepcionais de negócios na exuberante estrutura da administração federal. E isso com absoluto descaso pelas leis e sem o mais remoto vestígio de decoro.
O exemplo da hora é o decreto assinado pela presidente Dilma Rousseff no último dia 7 e publicado na edição seguinte do Diário Oficial da União, eximindo uma fundação de direito privado de participar de licitação para vender planos de saúde a funcionários federais – um mercado potencial estimado em 3 milhões de usuários e R$ 10 bilhões por ano, atendido por 34 operadoras.
Chama-se Geap Autogestão em Saúde a organização contemplada com a sorte grande. Ela atende 625 mil servidores (e dependentes) de 99 órgãos da administração direta e indireta. Nos últimos 10 anos, o Estado carreou para os seus cofres mais de R$ 1,9 bilhão em repasses cuja licitude não pode ser avaliada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) por ser o destinatário ente privado.
A presidente, ao privilegiar a Geap, evidentemente não se sentiu tolhida pelo fato de ela estar sob intervenção da Agência Nacional de Saúde Suplementar desde março passado em razão do seu endividamento da ordem de R$ 260 milhões – um claro indício de má gestão. O favorecimento à entidade (que chegou a ser dirigida por uma apadrinhada do então ministro da Casa Civil José Dirceu) vem de longe.
Tendo sido criada por funcionários da União para atuar exclusivamente nos Ministérios da Previdência e da Saúde, Dataprev e INSS – os seus patronos e únicos autorizados por lei a contratá-la sem licitação –, a Geap foi aquinhoada com um decreto do presidente Lula, divulgado por este jornal em março de 2004, que estendeu o seu monopólio na prestação de serviços de saúde e previdência complementar.
À época, a sua clientela já estava na casa de 740 mil usuários, cobrindo cerca de 80 órgãos além daqueles para os quais havia sido criada. Passados dois anos, a Procuradoria-Geral da República endossou um parecer do TCU ao considerar inadmissível que uma fundação de direito privado se conveniasse com quaisquer órgãos que não fossem os seus patrocinadores originais. Os acordos adicionais representam “prestação de serviço para terceiros” – devendo ser, portanto, objeto de licitação.
Uma ação contra a tese do TCU, movida por 18 associações de servidores, foi derrotada em março último no Supremo Tribunal Federal (STF), mas o acórdão ainda não foi publicado. A esperteza do decreto de Dilma, revelado pelo Estado nesta terça-feira, consiste na permissão para que a fundação assine convênios com o Ministério do Planejamento – que gere toda a folha de pagamento federal.
Isso significa que a União passa a ser a patrocinadora da Geap Autogestão em Saúde, um dos entes em que a entidade se subdividiu – no mesmo dia da publicação do ato da presidente -, conservando o CNPJ da fundação original. Tudo foi claramente feito para burlar a lei. A manobra, observa o subprocurador-geral do Ministério Público junto ao TCU, Lucas Furtado, dificulta definir o regime jurídico aplicável à Geap, “pública para o que convém e privada para o que convém”.
No primeiro caso, para ser dispensada de licitação; no segundo, para não prestar contas ao TCU. O decreto foi qualificado como “inconstitucional, uma aberração e uma afronta” pelo deputado Augusto Carvalho, do Distrito Federal, filiado ao Solidariedade. Ele pretende preparar uma proposta de decreto legislativo para sustar os efeitos da canetada de Dilma. Já o seu colega do PDT, Antônio Reguffe, se diz espantado com o ato.
Relator na Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara de uma proposta de fiscalização e controle dos convênios da Geap, ele resume a sua perplexidade: “Se a Geap foi considerada privada pela Justiça, deveria haver licitação para que fosse escolhida a empresa que melhor atendesse o interesse público; ou o governo teria de criar uma estatal para tocar o plano de saúde de seus servidores”. E se pergunta: “Agora, quem vai fiscalizar isso, se o TCU se julga incapaz porque considera a Geap um ente privado?”.

26 outubro 2013

Sobre o pré-sal, os prejuízos da Petrobrás e do Tesouro Nacional

Rogério Furquim Werneck: É hora de repensar o pré-sal — e de o país ter juízo
"Deveríamos imaginar uma pequena Bandeira Nacional espetada em cada esgoto a céu aberto Brasil afora. Isso, sim, deveria deixar nossos olhos marejados. Já é hora de o País tomar juízo"
Robê fixando a Bandeira Nacional no fundo do mar, em poço de petróleo: “Deveríamos imaginar uma pequena Bandeira Nacional espetada em cada esgoto a céu aberto Brasil afora. Isso, sim, deveria deixar nossos olhos marejados. Já é hora de o país tomar juízo” (Reprodução / Petrobras)

*Rogério Furquim Werneck é economista e professor da PUC-Rio
Artigo publicado no jornal O Globo

 HORA DE REPENSAR O PRÉ-SAL
Era mais do que sabido que o governo estava pronto para comemorar em grande estilo o leilão de Libra, qualquer que fosse seu desfecho. Mas a comemoração acabou passando dos limites. E deixou transparecer clara intenção de lançar poeira nos olhos da opinião pública, para disfarçar as dificuldades expostas pelo leilão.
Tendo em conta as dimensões do campo de Libra, é natural que as cifras relacionadas à sua produção potencial pareçam impressionantes. Especialmente se acumuladas num período de 35 anos. A questão é o quão mais impressionantes poderiam ter sido se o leilão tivesse sido pautado por regras bem concebidas.
É lamentável que, com seis anos de preparação, a licitação montada pelo governo só tenha conseguido atrair um único consórcio que, com toda tranquilidade, arrematou o campo pelo lance mínimo. Trata-se de desfecho melancólico que, num país sério, deveria dar lugar a uma reavaliação criteriosa das restrições que o governo decidiu impor ao leilão.
O lance mínimo foi de 41,65% do lucro em óleo. Descontados todos os custos envolvidos, esse é o percentual do excedente de petróleo produzido em Libra que caberá ao governo. É óbvio que, se o leilão tivesse atraído outros interessados, o governo poderia ter conseguido percentual superior.
Menos óbvia, mas da maior importância, é a constatação de que os custos medidos em óleo, deduzidos da produção total para efeito da apuração do lucro em óleo, estão brutalmente inflados pelas absurdas exigências de conteúdo local em equipamentos.
Em bom português, isso significa que, para sustentar vasta gama de produtores nacionais de equipamentos para a indústria de petróleo, o governo aceitou receber parcela menor do petróleo que será produzido em Libra. Menos dinheiro para educação e para saúde. E mais dinheiro para grupos de “interesse especial” que, com crucial ajuda do governo, conseguiram se apropriar de parte substancial do excedente a ser gerado pelo pré-sal.
Causa também preocupação que a Petrobras não se tenha contentado com a já esdrúxula participação legal mínima de 30%. Ao se permitir a extravagância de “fazer bonito” subscrevendo 40% do consórcio, a Petrobras terá de arcar com encargos bem mais pesados de investimento, que vão muito além do simples pagamento de R$ 1,5 bilhão a mais pelo bônus de assinatura.
E, tendo em vista a fragilidade financeira da empresa, teme-se que, mais uma vez, a conta acabe nas costas do Tesouro. O que seria indefensável. Não há por que canalizar mais dinheiro público para o pré-sal. Com regras adequadas, não faltarão investidores privados interessados.
Em entrevista a O Estado de S. Paulo (20/10), o ministro Guido Mantega asseverou que “o Tesouro não dará e nunca deu ajuda à Petrobras”. Mas, logo em seguida, lembrando-se da gigantesca operação de capitalização da empresa em 2010, tentou qualificá-la como “outra história” em que “o governo vendeu R$ 5 bilhões de barris à Petrobras, e ela nos pagou por isso, em exploração”. Na verdade não foi bem assim.
A União dispunha de reservas de petróleo que, se tivessem sido licitadas na época, teriam gerado R$ 75 bilhões ao Tesouro, mais de 2,5 vezes o total de gastos do PAC em 2011. Algo como R$ 90 bilhões a preços de hoje. O Tesouro cedeu essas reservas à Petrobras, no quadro de uma operação de capitalização, e recebeu em troca ações da empresa, que hoje talvez valham metade dos R$ 90 bilhões.
Numa propaganda oficial recente na TV pessoas com olhos marejados assistem um video em que um robô fixa a Bandeira Nacional no fundo do mar, num poço da Petrobras. A cena traz à mente os R$ 90 bilhões, a preços de hoje, transferidos do Tesouro à Petrobras, em 2010, e a inevitável constatação de que, num país de tantas carências, recursos públicos tão vultosos poderiam ter tido destino incomparavelmente mais nobre.

Para ajudar a fixar essa ideia, deveríamos imaginar uma pequena Bandeira Nacional espetada em cada esgoto a céu aberto Brasil afora. Isso, sim, deveria deixar nossos olhos marejados. Já é hora de o País tomar juízo.

Comércio exterior: Dilma vai levar o Brasil pro beleléu

‘No setor externo, um desastre made in Brazil’, de Rolf Kuntz
Publicado no Estadão deste sábado
ROLF KUNTZ 
A presidente Dilma Rousseff deve terminar o ano com mais um troféu econômico, o pior resultado das contas externas em mais de uma década — exportações estagnadas, importações em alta e um enorme buraco na conta corrente do balanço de pagamentos. Nos 12 meses terminados em setembro o déficit na conta corrente chegou a US$ 80,51 bilhões, equivalentes a 3,6% do produto interno bruto (PIB), informou nesta sexta-feira o Banco Central (BC). No relatório recém-divulgado foram mantidas as projeções para 2013: saldo comercial de US$ 2 bilhões, déficit em conta corrente de US$ 75 bilhões (3,35% do PIB) e investimento estrangeiro direto de US$ 60 bilhões. Alguma melhora será necessária, portanto, para se chegar ao fim de dezembro com o cenário estimado pelo BC. Um quadro mais positivo, neste e no próximo ano, dependerá principalmente de uma recuperação da balança comercial e nesse quesito o País continua muito mal.
A exportação rendeu neste ano US$ 192,59 bilhões até a terceira semana de outubro, 1,1% menos que no ano passado em igual período. A importação consumiu R$ 193,19 bilhões, 8,7% mais que um ano antes, segundo os dados oficiais. O saldo acumulado em quase dez meses, US$ 605 milhões, só foi possível graças ao resultado favorável obtido nas três primeiras semanas do mês, um superávit de US$ 1 bilhão. Mas esse resultado embute uma exportação meramente contábil de uma plataforma de petróleo no valor de US$ 1,9 bilhão. Outras plataformas foram contabilizadas nos meses anteriores, mas foram sempre vendas fictícias, vinculadas à concessão de benefícios fiscais.
Se esses números fossem eliminados, o quadro do comércio exterior brasileiro, já muito feio pelos números oficiais, seria bem menos favorável. Para acertar as contas seria também preciso, poderiam dizer os mais otimistas, eliminar as importações de combustíveis efetuadas em 2012 e registradas só neste ano graças a um arranjo especial da Petrobrás. É verdade, mas é indispensável lembrar uma diferença entre essas compras e as vendas de plataformas. Estas só ocorreram na contabilidade, mas as compras de combustíveis foram realizadas e seria necessário incluí-las nos cálculos em algum momento. Se tivessem entrado nas contas do ano passado, o superávit comercial teria ficado bem abaixo dos US$ 19,41 bilhões divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
Se as projeções do BC estiverem corretas, o Brasil vai faturar neste ano US$ 241 bilhões com as vendas ao exterior. O gasto com produtos estrangeiros chegará a US$ 239 bilhões. O valor exportado será 0,6% menor que o do ano passado e 5,8% inferior ao de 2011. A importação terá custado cerca de 7% mais que em 2012 e 5,6% mais que dois anos antes. A deterioração é inegável e a causa mais importante é o enfraquecimento da indústria brasileira, por falta de investimentos, aumento de custos e dificuldade crescente para enfrentar uma disputa mais dura em mercados mais apertados. Isso vale para o mercado nacional.
As medidas protecionistas impostas pelo governo foram insuficientes para barrar o ingresso de produtos estrangeiros. Além do mais, nenhuma barreira tornaria os produtores brasileiros mais capazes de competir fora das fronteiras, mesmo em áreas antes consideradas campos de caça tranquilos, como o Mercosul e a maior parte da vizinhança. Também na região outros produtores têm conseguido ocupar espaços crescentes sem muita oposição brasileira.
Quando se aponta a piora do balanço de pagamentos — especialmente da balança comercial —, ministros costumam citar a acumulação de reservas para mostrar a segurança do setor externo. Mesmo com intervenções no mercado cambial, como reação às turbulências do meio do ano, o BC conseguiu, graças a uma estratégia bem desenhada, evitar a perda de moeda estrangeira e preservar mais de US$ 370 bilhões. Esse é, sem dúvida, um importante fator de segurança, mas de nenhum modo pode substituir a eficiência produtiva e os acordos internacionais favoráveis à expansão do comércio.
A política brasileira tem falhado nas duas frentes. A deficiência de investimentos, o desperdício de recursos, o erro na escolha de prioridades (na política educacional, por exemplo) têm dificultado ganhos gerais de produtividade. Se as concessões derem certo, a taxa de investimentos chegará a 22,5% do produto interno bruto até 2018, segundo estimativa do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Muitos países latino-americanos já estão acima desse padrão, enquanto a taxa brasileira continua oscilando entre 18% e 19%.
Como as condições de produção foram geralmente negligenciadas nos últimos dez anos, a começar pela infraestrutura, o potencial de crescimento diminuiu, como seria previsível. Hoje esse problema é assunto da pauta internacional, pouco importando os desmentidos e esperneios do governo brasileiro.
Na outra frente, a escolha das parcerias prioritárias, também se acumularam erros desastrosos. A diplomacia comercial pôs no alto da agenda a aproximação com mercados pouco importantes, com exceção do chinês. Mas o comércio com a China virou uma relação semicolonial, com o Brasil praticamente limitado a vender commodities, em geral de pouca ou nenhuma elaboração, e a importar manufaturados.
Os imperialistas, desprezados pela diplomacia de passeata dos governos petistas, continuam como compradores relevantes de manufaturados — e poderiam comprar muito mais se tivessem sido assinados acordos de livre-comércio. Mas nem todos criticam a estratégia comercial brasileira e o desprezo petista aos grandes mercados. No caso dos chineses e outros exportadores realistas e dinâmicos, a fantasia terceiro-mundista vivida em Brasília nos últimos dez anos elimina um possível competidor de peso.

24 outubro 2013

Consórcio do pré-sal: um sucesso de fracasso

Por Reynaldo-BH publicado por Ricardo Setti (Veja.com):

SEGUNDO PREVISÕES DE GUIDO MANTEGA, O LEILÃO DE LIBRA FOI UM RETUMBANTE SUCESSO

 Acho que o leilão do campo petrolífero de Libra foi mesmo, julgando pelos parâmetros do ministro da Fazenda, Guido Mantega, “um sucesso”.
Só pelos parâmetros dele
Fora qualquer ilação, que tal – ao menos uma vez – irmos direto aos fatos?
1 – O governo anunciou que 40 empresas concorreriam
Quando da apresentação do sistema de partilha para a exploração do maior campo de petróleo do pré-sal até agora conhecido, o governo anunciou pomposamente que esperava o aparecimento de quarenta empresas ávidas em concorrer. Das quarenta, foram ao leilão quatro… (10%) — e ainda mais associadas em um único consórcio.
Parece-me dentro dos índices de Mantega et caterva.
2 – Total e Shell
Sabe-se que as gigantes privadas francesa e anglo-holandesa obrigaram a Petrobras a assumir mais 10% de participação (mais 1,5 bilhão de reais em um cenário de penúria e na maior crise pela qual a empresa já passou, a partir da desastrosa da gestão de sete anos de Sergio Gabrielli, antecessor da presidente Graça Foster) e que os investimentos ($$$) fossem de responsabilidade dos chineses.
3 – A participação dos chineses
Para eles, é dinheiro de troco, mas a participação das duas estatais petrolíferas chinesas se deu com a solene garantia de que não haverá qualquer mudança de regras (que o PT, como sabemos, gosta de mudar ao sabor da “ideologia” do dia).
Se houver mudanças – e ao longo dos próximos 35 anos –, imagine-se o tamanho da encrenca em que o Brasil terá se metido ao confrontar a China e o que ela, hoje, representa para a economia brasileira, sendo o maior parceiro comercial do país.
4 – O Brasil passou 6 anos apostando em uma nova matriz energética
Quem se lembra?
Lula percorreu o mundo decretando o fim do petróleo e o uso da energia renovável do etanol. Queria implantar o modelo na África e em Cuba.
Alguém tem notícia de como vai este programa de energia?
Não está dentro das possibilidades que o Brasil descubra (só como exemplo) reservas de gás de xisto (3,00 dólares a tonelada bruta nos Estados Unidos) e abandone o pré-sal, a respeito do qual não se sabe NADA com um grau definitivo de certeza? Já aconteceu antes…
Quem no mundo vai encarar o dinheiro de acionistas (pessoas físicas, fundos de pensões, etc) nesta instabilidade? A China? Sim, a China.
"Lula percorreu o mundo decretando o fim do petróleo e o uso da energia renovável do etanol" (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
“Lula percorreu o mundo decretando o fim do petróleo e o uso da energia renovável do etanol” Na foto com o rei da Suécia, Carlos Gustavo XVI (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
5 – Dilma diz que não houve privatização
Esta é demais. O argumento é que somente um pequeno percentual fica com os “instrangeiros”.
Seria o caso de perguntar: se alguém vendesse o quarto e o banheiro de empregada de seu apartamento para terceiros, a pessoa estaria “privatizando” o apartamento ou a operação teria outro nome?
Dilma e o PT inventaram a definição de privatização por tamanho. Mas privatização é como virgindade ou gravidez: ou existe ou não.
Dilma PRIVATIZOU, sim, um percentual significativo de Libra. Mesmo dizendo na campanha eleitoral que a levou ao Planalto que isto seria “um crime”.
6 – “Concorrência” de um? É preciso cuidado com as palavras. Não há como chamar flor de urubu, alegando que o conceito mudou.
O que vem a ser concorrência? Não seria uma disputa entre atores diversos? Ou seja, de mais de um em busca do mesmo objetivo?
Como se pode considerar “um sucesso” uma concorrência com um único participante? Um jogo de futebol com um time só?
É preciso lembrar que se esperava que o percentual mínimo de 47% da contrapartida-óleo a ser fornecido pelo consórcio vencedor fosse facilmente extrapolado. Falava-se, no lulopetismo, em até 80% do petróleo a ser entregue à Petrobras.
É, então, um sucesso ganhar por WO pelo placar mínimo? E os 15 bilhões pagos ao governo? Há menos de dois anos, as previsões não eram de que o pagamento chegasse perto de 100 bilhões?
Sucesso?
7 – O desconforto evidente e explicitado da Petrobras diante do dinheiro que precisará bancar
A estatal, com o perdão pela expressão, está devendo as calças e está se esforçando para conseguir rolar as dívidas que já possui! Precisou, porém, arrumar mais uma, de 6 bilhões de reais, para salvar um programa ideológico (era a isto que me referia!) sem realismo.
Vai aumentar o preço da gasolina?
Óbvio. E já!
No fundo o Brasil, ou seja, nós, vamos pagar 6 bi, dos 15 a serem recolhidos ao Tesouro pelo consórcio vencedor, pelo que já é nosso. Isto também é sucesso?
Plataforma de petróleo da Petrobras, no campo de Libra (Foto: divulgação / Petrobras)
Plataforma de petróleo da Petrobras: dificuldade para rolar as dívidas, e, agora, mais uma, de 6 bilhões, para recolher ao Tesouro a parte que lhe cabe por integrar o consórcio vencedor que vai atuar no campo de Libra (Foto: Petrobras)
Somados os fatores expostos, trata-se de um fracasso retumbante.
Fruto do delírio do governo anterior? Muito.
Das condições atuais? Idem.
Da situação da Petrobras? Idem.
Da nova estatal PPSA (a do pré-sal, que detém o poder de definir ONDE as empresas componentes do consórcio vão investir o próprio dinheiro de pesquisas! Seria na contratação de companheiros? )? Certamente.
O que importa é que MAIS UMA VEZ os lulopetistas querem chamar aos demais brasileiros de burros ou míopes. Não somos.
Os lulopetistas tentam reescrever não mais a história. Agora, focam os fatos.

Independência ou atraso_José Serra

Estadão, 24-10-2013
O desequilíbrio externo é o problema n.º 1 da economia brasileira. Se não for equacionado, tem potencial para provocar sérios abalos na estabilidade e no emprego. Entre suas causas mais importantes há a crônica sobrevalorização cambial e o elevado custo Brasil, ligado à carga tributária descomunal e às deficiências da infraestrutura. Não tenhamos ilusões: o enfrentamento dessas questões ocupará os melhores esforços do próximo governo.
Existe uma terceira família de causas, sistematicamente subestimada: a radical ausência de uma política de comércio exterior, essencial para promover tanto nossas exportações como o aumento da competitividade da economia, via maior acesso a mercados e integração a cadeias produtivas internacionais.
Quando fui nomeado ministro do Planejamento pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, um jornal argentino chegou a me classificar de “enemigo” daquele país, o que, é evidente, não era verdade. O que pesava eram minhas críticas à ideia do Mercosul, que nascera nos governos Collor e Menem, quando ambas as economias estavam enfraquecidas pela superinflação. Apareciam como modernos e audazes, dispostos a tudo para aggiornar o sul da América do Sul à moda das integrações econômicas do pós-guerra. A novidade erradamente invocada era o Nafta, acordo de livre-comércio EUA-Canadá-México.
Apesar de Collor ter deixado o governo e do sucesso interno de Menem, que poderia dispensar factoides externos, acreditei na inércia que, por vezes, cerca ideias tortas até materializá-las na realidade. Até porque o Itamaraty, que reúne os melhores e mais íntegros quadros do serviço público brasileiro, comprara a ideia, dando-lhe um status estratégico. Por isso mesmo não parei de fazer reparos ao projeto em artigos na imprensa, em seminários internacionais e no Congresso Nacional, mostrando que essa união econômica não atenderia aos interesses do Brasil nem da Argentina.
O foco das minhas objeções era simples, embora pouquíssimo compreendido por formadores de opinião e políticos: o Mercosul mereceria apoio se fosse uma zona de livre-comércio entre os países, isto é, onde fossem removidas (menos ou mais gradualmente) barreiras tarifárias e físicas ao intercâmbio de bens e serviços. É o caso do Nafta, que, mesmo assim, obedeceu a um cronograma de mais de dez anos. A intenção cravada no acordo do Mercosul foi outra: criar uma união alfandegária – ou seja, além de promover uma zona de livre-comércio, unificar, no bloco, as tarifas em relação ao resto do mundo. Abdicamos, assim, da soberania nacional no comércio exterior. Em tese, nossa política nessa área passou a ser definida em conjunto com outros países que, somados, dispõem de um PIB equivalente a 25% do nosso.
O empenho brasileiro na criação do Mercosul foi tal que toda sorte de concessões acabou sendo feita em matéria de exceções e transições prolongadas. Ainda assim, em momentos de crises internas, pelas mais diferentes razões, a tarifa externa comum foi “perfurada”, como no caso da Argentina, sem que nada acontecesse. No início do bloco houve até armadilhas, como no regime automotriz argentino, criado pelo então ministro da Fazenda, Domingo Cavallo, autor do Plano de Convertibilidad.
Na ocasião (1994-95) vivia-se ainda a euforia com o plano, que derrubara a superinflação mediante a implantação do regime de convertibilidad, uma espécie de padrão-ouro latino, o suprassumo da ortodoxia da época – e que só arruinaria a economia argentina alguns anos depois. Mas seu regime automotriz era o extremo da heterodoxia: estabelecia cotas de importação de automóveis e as vinculava a exportações da indústria. Foi preciso, então, que o Brasil fizesse um programa também heterodoxo, embora menos dramático, para não perder seu parque automotivo para o país vizinho.
O fato essencial é que, a pretexto e por causa do Mercosul, o Brasil se fechou a acordos bilaterais de comércio, a menos que levasse junto os demais países do bloco, que só concordariam se fossem atendidos seus interesses. Quando eu era ministro da Saúde do governo FHC, abrimos nosso mercado aos medicamentos indianos a fim de forçar, pela concorrência, a disseminação dos genéricos. Não era o caso de se fazer alguma troca? Poderíamos obter mais facilidades para exportar ônibus, caminhões e aviões para a Índia, por exemplo. Impossível! Seria preciso contemplar vantagens para o Uruguai, o Paraguai e a Argentina. Hoje seria preciso que a Venezuela também concordasse.
O resultado é que, nos últimos dez anos, foram assinados 350 acordos bilaterais de comércio no mundo, fomentando exportações e importações entre diferentes países. O Brasil só fez três desde 1991: com Israel, Palestina e Egito…
Para reforçar a inércia o governo manteve-se ainda na trincheira do multilateralismo comercial. O avanço dessa tese, na chamada Rodada Doha, nem seria bom para a economia brasileira, mas isso fica para outro artigo. Depois da crise financeira de 2008-9, até as pátrias-mães do ultraliberalismo internacional abandonaram essa trincheira, tratando de defender suas economias ou até mesmo de se reindustrializar. E nós? Fincamos o pé numa bandeira solitária e nos discursos da presidente em eventos internacionais, que rendem manchetes grandes, mas ocas de fatos. É preciso mudar esse rumo, e sei que não é fácil.
O próximo governo deve promover um acordo que restrinja as finalidades do Mercosul ao livre-comércio e adaptar seu amor retórico ao multilateralismo à realidade mundial. Eis aí o começo de uma plataforma na área de comércio exterior: a declaração da independência comercial brasileira.
O Mercosul, na sua forma atual, e a tese do multilateralismo servem a uma tendência não admitida nos discursos do PT, mas muito presente em sua prática de governo: acomodar o Brasil ao padrão de economia primário-exportadora, tendo como corolário a desindustrialização, que é um fato, não uma opinião.

22 outubro 2013

Marina nocauteará Dilma!

Meus caros, não sou "marinista", mas tenho de reconhecer que essa professora deu um "show de bola" diante de uma bancada qualificada como o de Roda Viva. Fiquei impressionado com a seu domínio do discurso político.
Faz tempo que não vejo um político brasileiro com tamanha coragem de se expor e de expor suas convicções de maneira tão desabrida.
Concordo com quase tudo que ela disse, até mesmo quando fugiu de expor suas convicções pessoais que ainda serão objeto de discussão em seminário interno da "Rede", que hoje está sendo "gestada" politicamente no ventre do PSB.
Da mesma forma, louvo seu pragmatismo ao ter-se filiado ao PSB - embora ela não aceite esse epíteto -, pois não é fugindo da luta que se constrói um país melhor, uma sociedade melhor.
Gostei quando se posicionou em relação aos temas-tabus como criacionismo/evolucionismo, casamento gay, céluas-tronco, etc.
Muito ponderada, sem radicalismos, mas firme quanto aos seus princípios, principalmente quando disse que o presidente não é católico, protestante, ou rabino.
Acho também que épossível, sim, obter maioria com o melhor que há em cada partido e que se aglutinem em torno de programas-comuns, relegando os políticos do "baixo clero" à sua insignificância, os quais foram trazidos à ribalta pelo lulismo.
Uma coisa é certa: o lulismo está em polvorosa porque jamais imaginaram que dois políticos saídos de sua base de apoio, sendo dois ex-ministros, tenham tido a ousadia de se contrapor ao status quo, à quase hegemonia política de que desfrutam.
O lulismo contava pra ganhar a eleição com a velha lenga-lenga entre o PT e o PSDB, ou seja, de quem é mais ou menos de esquerda, de quem administra ou não melhor o estado, de quem privatiza e de quem não privatiza, esse trolóló "socialista".
Juntando-se dois políticos que temporiamente abrem mão de seua projetos pessoais, mas com fortes  lideranças, como Marina - com o seu discurso da sustentabilidade, que agrada aos "verdes" -, e Eduardo Campos - com seu discurso empresarial-desenvolvimentista competente (porque o lulo-dilmista é incompetente) -, isso cria uma enorme dificuldade para o governo, para Lula e Dilma, sendo esta notavelmente atrapalhada com os discursos, um pleito que se avizinha morno, insípido, inodoro,chato, ganha ares de uma disputa acirrada e extremamente interessante para o país.
Sendo Marina a candidata - cuja probabilidade é alta -, o Planalto se verá em palpos de aranha, pois terá de se virar para neutralizar a enorme capacidade dela de externar seu pensamento, mesmo que muitos não gostem dele, enquanto que a presidente Dilma terá de se virar "nos trinta" para se postar com alguma chance de sair da lona nesse ringue até pouco tempo improvável. Podemos ter a segunda mulher na presidência da República em menos de 10 anos! Anotem essa minha profecia...
Nesse cenário, o candidato Aécio Neves terá uma imensa dificuldade de polarizar com Dilma ou com Marina, visto que como liderança de oposição é desconhcido.
Comecei a ficar animado com 2014!

20 outubro 2013

De partidos e de quadrilhas

Tinha um amigo na Faculdade de Direito - acho que ainda está vivo, embora nunca mais o tenha visto -, o hoje Dr. Geraldo Macena, que me dizia o seguinte: "Pinheiro, não existem partidos políticos no Brasil, mas sim quadrilhas organizadas".
Isso por volta de 1988, quando aceitei o convite do meu professor e ex-governador Plínio Coelho e me filiei ao Partido Trabalhista Brasileiro.
Neste mesmo período de tempo fui colega de aula de dois sobrinhos de Plínio Coelho. Dois anos depois fui colega de um de seus filhos, Plínio César, como professor do CIESA, a primeira faculdade particular de Manaus, de propriedade do Orígenes Martins. Mas não foi por esse motivo que me filiei ao PTB. Li bastante coisa sobre o marxismo, sobre o trabalhismo e percebi que o pragmatismo do PTB de Vargas e Plínio - que tinha legado ao país diplomas legais e sistemas interessantes, tais como: CLT e a proteção do trabalhador; Previdência Pública; Justiça do Trabalho; Ministério do Trabalho, etc. - era bastante interessante.
Eu já tinha sido muitas vezes convidado pelo meu ex-colega João Pedro - de Incra (topógrafos) e estudantes da UA (hoje Ufam) -, quando eu era estudante de administração e de direito e ele era líder estudantil (ele, sim, marxista da gema!), mas sempre desconfiei dos seus discursos inflamados contra o capitalismo ao tempo em que aparecia com garrafas de coca-cola à boca (ninguém é de ferro!).
O tempo passou e vi o PTB 'sendo assaltado' por punguistas políticos de toda espécie. Saí. Aliás, pensei que havia saído, pois fui surpreendido há algumas semanas, quando pedi desligamento do PSDB - onde acreditava estar filiado -, e a secretária me informou que continuo mesmo é filiado ao  PTB. Pensei: bem, isso traz uma vantagem. Não sou um trânsfuga partidário. Continuei "fiel" ao PTB, embora ela não me tenha sido fiel. Minha biografia partidária fica, assim, livre de ter passado por várias quadrilhas - óops. Partidos.
E não é que o Macena sempre teve razão!
Tanto é assim que o povo na rua está dizendo com todas as letras: "vocês não me representam!". E o povo, unido, jamais será vencido!
Coitado do povo! Sempre será vencido... Por mais que os políticos e os partidos "não representem" ninguém, eles sabem que esse "povo" é na verdade uma massa amorfa, de manobra, posto que avessa a estudar as origens dos partidos e dos sindicatos (principalmente o de 'ladrões'!).
De uns e de outros amigos sempre ouvi expressões tais como: "muda apenas o penico, a m... é a mesma..." para se referirem a partidos políticos e a miragem de alternância no Poder.
Hoje, após longos anos de janela e de quase-militância - pois nunca fui de empunhar bandeira e participar de passeata (a não ser recentemente quando participei de maneira incauta do sindicato de minha categoria de professor - a Adua/Andes -, que teve a coragem de enfrentar o lupetismo na última greve e que me rendeu apenas ter de ministrar aulas em dezembro, janeiro e fevereiro...) - descobri que meu colega Macena tinha razão: os partidos e os sindicatos - não nessa ordem - se parecem mais como quadrilhas organizadas com o objetivo de assaltarem os cofres públicos...e ainda fazem isso em nome do povo...
Petralhas!

17 outubro 2013

Tua casa, meu voto...

Vejam que maravilha esse PT... Para elles, dinheiro público é grana fácil, confiscada dos imbecis reacionários de classe média e integrantes de uma elite odiosa, mas alienada...
*****************************
Minha casa, minha dívida: programa que é vitrine de Dilma para eleição tem índice recorde de calotes
CORTESIA ELEITORAL --Rudileia de Aragão engrossa a fila de inadimplentes do programa habitacional, mas não corre o risco de perder a casa. O governo, que não quis saber antes se ela poderia pagar, agora também não vai cobrá-la (Foto: Fernando Cavalcanti)
CORTESIA ELEITORAL –Rudileia de Aragão engrossa a fila de inadimplentes do programa habitacional, mas não corre o risco de perder a casa. O governo, que não quis saber antes se ela poderia pagar, agora também não vai cobrá-la (Foto: Fernando Cavalcanti)
Reportagem de Alana Rizzo, com colaboração de Natália Cacioli, publicada em edição impressa de VEJA

MINHA CASA, MINHA DÍVIDA
Vitrine do governo Dilma Rousseff na próxima eleição, o programa que pretende entregar moradias populares subsidiadas a 3 milhões de famílias até o fim do ano tem índice recorde de inadimplência

Ele foi planejado para ser a mais vistosa vitrine eleitoral da gestão Dilma Rousseff – a resposta do governo para o sonho da casa própria. Lançado em 2009, o programa Minha Casa Minha Vida consumiu 134,5 bilhões de reais para fazer 2,1 milhões de casas populares. O primeiro milhão já foi distribuído.
A presidente Dilma percorreu seis Estados brasileiros neste ano para providenciar ela mesma a entrega. O potencial de dividendos eleitorais da iniciativa é tamanho que ela é tratada como uma espécie de Bolsa Família da área urbana.
Programa subsidiado, o Minha Casa Minha Vida prevê que o governo arque com uma parte das prestações e o beneficiado banque o restante. O valor das parcelas é calculado com base na renda de cada família.
No papel, tudo certo.
Na realidade, tudo mais ou menos.
Dados obtidos por VEJA revelam que o índice de inadimplência na faixa de financiamento que inclui participantes com renda mensal mais baixa, até 1.600 reais, está em 20%. É um número dez vezes maior que a média dos financiamentos imobiliários no Brasil e 4 pontos mais alto que a porcentagem de atrasos em pagamento de hipoteca nos Estados Unidos em 2007, quando se acentuou a crise que serviu de gatilho para a pior recessão desde o fim da II Guerra Mundial.
O programa de habitação do governo tem 270 000 famílias na faixa de renda mais baixa e 1 milhão nas duas faixas seguintes. Nas duas últimas, a taxa de inadimplência está na média do mercado. A Caixa só divulgou esses dados depois de a reportagem de VEJA entrar com recurso junto à Controladoria-Geral da União.
Antes disso, o pedido, feito com base na Lei de Acesso à Informação, havia sido negado duas vezes.

cl
*Nos financiamentos com pior avaliação de crédito (Subrpime)
O fato de uma porcentagem tão extraordinariamente alta de participantes do programa não estar conseguindo pagar as prestações significa que sua capacidade de pagamento foi mal avaliada. Se essa má avaliação ocorreu por incompetência ou estratégia é difícil saber.
Cinco de seis moradores ouvidos por VEJA em dois conjuntos habitacionais do Minha Casa Minha Vida em São Paulo contaram que não tiveram nenhuma dificuldade para ser aceitos pelo programa, ainda que não tivessem emprego fixo e não pudessem apresentar comprovante de renda.
Todos disseram ter sido incluídos depois de aprovados com base no mesmo método: apresentaram uma “estimativa” de quanto ganhavam e a prestação foi fixada em 10% desse valor declarado. Todos estão inadimplentes há pelo menos três meses.
Essa arquitetura financeira ruinosa obriga o setor produtivo a bancar a conta para manter o programa de pé. Em recente votação no Congresso, o governo conseguiu manter a multa adicional de 10% do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) paga pelas empresas nas demissões sem justa causa. O dinheiro será usado exclusivamente para financiar o Minha Casa Minha Vida.
É o processo que o ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore descreveu bem: o governo “compra” o eleitor à vista e obriga a sociedade a pagar por ele a prazo.

‘Eleições 2014′, um texto de Almir Pazzianotto Filho

Este é um daqueles textos que gostaria de ter escrito...
***********************************************

Publicado no Estadão desta quarta-feira

ALMIR PAZZIANOTTO PINTO

Na campanha pela reeleição da presidente Dilma Rousseff em 2014, o Partido dos Trabalhadores (PT) gozará de autoridade para reivindicar a paternidade de dez obras, em 12 anos de governo. São elas: mensalão, rompimento dos princípios da ética e da moralidade, insegurança jurídica, desprestígio da diplomacia, compra e venda de legendas, declínio das atividades industriais, exportação de empregos para China e Índia, criação de ministérios inúteis, construção e financiamento de estádios de futebol e oficialização da palavra “presidenta”.
Amigos propuseram-me a inclusão da falência do ensino e da assistência pública à saúde, do endividamento, da alta dos preços, da inflação, do registro de milhares de sindicatos pelegos, da violência, da expansão do tráfico de drogas. Para alguns, o maior feito levado a cabo desde o governo Lula seria a reforma ortográfica, com obscuras regras sobre o uso do hífen e a eliminação do trema.
A relação não observa ordem de importância, mas o primeiro lugar foi destinado ao mensalão. Já se disse que o Brasil é produto de três culturas: a do sobrenatural, trazida pelos negros; a da indolência, transmitida pelos índios; e a do privilégio, herdada dos portugueses. O mensalão reafirma a sabedoria da asserção. Jamais se associaram tantos privilégios e privilegiados como na ação penal movida contra líderes do PT, secundados por comparsas de segunda e terceira categorias, todos com direito a participar da história com o rótulo de mensaleiros.
Em contraponto às realizações, mencionarei parte do que deixou de ser feito. Começo pela reforma política. Há muito prometida, e cobrada pelas camadas não alienadas da população, permanece adormecida nos porões do Poder Executivo. Como fruto da inércia, no balaio de gatos das legendas encontra-se de tudo. Basta acessar a página do Tribunal Superior Eleitoral e o leitor se espantará com a fertilidade da classe política. O PT é irmão gêmeo da Central Única dos Trabalhadores (CUT). Nasceu com o discurso de ser diferente, puro, integrado por operários do chão de fábrica e alguns intelectuais. Rejeitava políticos tradicionais e representantes da denominada burguesia. Com o tempo, e no desfrute do poder, transformou-se em cópia dos demais, sobretudo nos defeitos.
Hoje o PT se alimenta do Fundo Partidário e do horário obrigatório no rádio e na televisão e aderiu, com a CUT, ao peleguismo. “Ao diabo os escrúpulos”, diriam os dirigentes, em agradável convivência com velhos oligarcas, empreiteiras, bancos, grandes empresas. “O poder tende a corromper”, escreveu lorde Acton, cujas palavras são confirmadas pelos fatos.
A última revoada de parlamentares, à procura de legendas que lhes assegurem a reeleição, afronta o princípio constitucional da moralidade e seria energicamente coibida não fossem a lei, o Ministério Público e o Poder Judiciário passivos e lenientes diante de tramoias partidárias. Da mesma maneira que temos profissionais voltados para a criação e exploração de sindicatos, passamos, de alguns anos para cá, a conhecer o ofício de fundador de partidos, como revelou o Estado na edição de 23 de setembro, na página A5. Confirma-se o que Gilberto Amado já denunciava no século passado: “Partido político é associação de indivíduos para a conquista e a fruição do poder, só e só”.
Descartada a reforma política, quais outras deixou o governo de fazer? Todas, a começar pela trabalhista.
Defendida pelo então presidente Lula no lançamento do Fórum Nacional do Trabalho (FNT), em julho de 2003, foi condenada ao ostracismo e levou consigo a reforma sindical. Objetivava o FNT “promover a democratização das relações de trabalho por meio da adoção de um modelo de organização sindical baseado na liberdade e autonomia. Atualizar a legislação do trabalho e torná-la compatível com as novas exigências do desenvolvimento nacional, de maneira a criar um ambiente propício à geração de emprego e renda”. Pretendia, ainda, “modernizar as instituições de regulação do trabalho, especialmente a Justiça do Trabalho e o Ministério do Trabalho e Emprego”. Os resultados foram pífios e as ideias de democratização e modernização caíram no esquecimento.
Aproximam-se as eleições de 2014 e, com elas, a chance de o eleitorado tomar nas mãos o encargo de promover, pelo voto, as reformas inadiáveis. Apesar de ter conduzido o Brasil à situação em que o vemos, a presidente Dilma Rousseff, por um desses insondáveis caprichos da vida política, surge como favorita no primeiro turno. Marina Silva, antes estrela de primeira grandeza, deixou o elenco principal para se transformar em coadjuvante e corre risco de se converter em figurante. A quem caberá a responsabilidade de enfrentar o rolo compressor federal na segunda rodada de votação? Essa é a dúvida que assalta os brasileiros.
Dois candidatos se anteciparam e já se encontram em campanha: Aécio Neves e Eduardo Campos. Sobre eles recairá, ao que tudo indica, o ônus de demonstrar que o PT e aliados não são imbatíveis. Ambos são experientes e titulares de interessantes currículos. Aécio é neto de Tancredo Neves e Eduardo Campos, de Miguel Arrais. Não perderam, contudo, as características de políticos regionais. Aécio Neves apresenta-se como porta-voz da oposição; Eduardo Campos, nem tanto.
A Nação anseia pela restauração da moralidade, abatida em sucessivos escândalos. As manifestações de rua são o termômetro da revolta popular. Reivindicam o respeito à ética e o combate à corrupção. Quem tiver ouvidos para o clamor do povo, e ganhar a confiança das pessoas de bem, será o próximo presidente.

14 outubro 2013

Vistas de perto, as universidades do Brasil Maravilha são fábricas de lulas com diploma

Por Augusto Nunes (Veja.com):

Em agosto de 2010, no comício de inauguração de quatro prédios da Universidade Federal de Dourados, em Mato Grosso do Sul, Lula também reinaugurou a bazófia que se transformaria, de lá para cá, num dos seus mantras prediletos: “No meu último dia de presidente, eu vou olhar para mim e dizer que não tenho curso superior, mas fui o presidente que mais abriu universidade no Brasil”. Depende do critério utilizado.
Se o que vale é quantidade, o palanque ambulante tem razão. Na última década, o número de matrículas em cursos superiores dobrou. Entre 2011 e 2012, 867 mil brasileiros se formaram por alguma faculdade, pública ou privada. Baseada no critério da qualidade, adotado por quem tem mais de cinco neurônios, uma reportagem publicada pelo site da BBC acaba de implodir a gabolice do maior dos governantes desde Tomé de Souza.
Sob o título ‘Geração do diploma’ lota faculdades, mas decepciona empresários, o texto enfileira informações estarrecedoras. Uma delas: segundo o Instituto Paulo Montenegro (IPM), vinculado ao Ibope, o índice de analfabetismo funcional entre universitários brasileiros chega a 38%. ”Isso significa que quatro em cada dez universitários até sabem ler textos simples, mas são incapazes de interpretar e associar informações”, espanta-se o redator da BBC.
“Também não conseguem analisar tabelas, mapas e gráficos ou mesmo fazer contas um pouco mais complexas”, prossegue o desfile de assombros. “De 2001 a 2011, a porcentagem de universitários plenamente alfabetizados caiu de 76% para 62%. E os resultados das próximas pesquisas devem confirmar essa tendência de queda, prevê Ana Lúcia Lima, diretora-executiva do IPM”.
O desastre é ampliado a cada ano pela parceria entre faculdades federais de quinta categoria e cursos particulares criados pela indústria do ensino, com vagas de sobra para premiar com canudos inúteis a procissão de bolsistas que o governo financia com o dinheiro dos pagadores de impostos. O número de acadêmicos não para de aumentar. A taxa de ignorância no campus também.
Vista de perto, o que o pai do Brasil Maravilha chama de universidade é só uma fábrica de lulas com diploma.

10 outubro 2013

Rompendo a inércia do atraso_José Serra

Na segunda-feira um homem falou comigo simpaticamente no elevador do prédio onde está meu escritório: “Olhe, desculpe-me a liberdade de lhe perguntar, o senhor nem me conhece, mas o que vai acontecer na disputa eleitoral do ano que vem?”. Eu tinha apenas alguns segundos até chegar ao meu andar e sorri: “Francamente, não sei. E se alguém lhe disser que sabe, é porque está por fora, não compreende nada do que está acontecendo”.
Uma certeza, no entanto, é possível ter: a diversidade e o tamanho dos problemas que o presidente que vier a ser eleito terá de enfrentar a partir de 2015 para administrar o País e corresponder às expectativas da população. O problema n.º 1 será o desequilíbrio externo da economia, que trava o crescimento com qualidade. O indicador mais sintético é a evolução do déficit em conta corrente do balanço de pagamentos, perto de 4% do PIB este ano – cerca de US$ 75 bilhões. O Brasil, na última década, não utilizou a notável bonança externa – juros internacionais baixíssimos e preços de nossas exportações agrominerais nas nuvens – para investir e fortalecer a competitividade. O modelo lulista transformou os recursos dessa bênção em consumo privado e público, substituindo boa parte da produção doméstica da indústria, que vem regredindo em marcha forçada, perdendo mercado interno e capacidade para exportar.
O desequilíbrio no balanço de pagamentos não vai ser atenuado durante o próximo mandato por algum novo surto de bonança externa: pode não ocorrer um desabamento dos preços das commodities, mas não haverá novo salto para cima. E os juros internacionais vão subir, pois, tudo indica, as economias desenvolvidas vão puxar o crescimento mundial. Assim, o governo terá de enfrentar duas questões difíceis: a desvalorização do real, pressionando a inflação, e os juros reais domésticos elevados, a fim de atrair capitais para fechar as contas externas. As grandes reservas de divisas do Brasil não são panaceia nesse caso. Este ano o Banco Central já vendeu US$ 50 bilhões a câmbio futuro para segurar o valor do real.
O próximo presidente será o herdeiro da falta de uma política de comércio exterior, uma anomalia para uma nação continental e tão dependente do exterior. A ponta do novelo dessa aberração está no Mercosul, um monumental equívoco. Ao eliminar a soberania comercial brasileira, forneceu pretexto à inércia nos acordos bilaterais e à doutrina do dolce far niente do Itamaraty.
A inflação será o terceiro grande problema: não é explosiva, mas, no mundo de hoje, é alta, mesmo sendo reprimida. O novo governo não terá raio de manobra para expandir os atuais preços controlados – haverá pressão para absorvê-los. Até quando os preços de combustíveis e tarifas de transporte podem ser reprimidos? Mais ainda, o próximo presidente terá de lidar com a indexação da economia, ampliada e intensificada no último decênio.
Dominará a agenda uma quarta questão: a da infraestrutura de energia e transportes, hoje em estado crítico em razão da incapacidade das gestões petistas de investir, seja diretamente, seja mediante parcerias com a área privada. Nessa área, o PT não revelou apenas impaciência para aprender. Contaram também a ideologia, a propaganda e a malandragem com dinheiro público. Exemplo eloquente em transportes: o frete de livros brasileiros impressos na China, por navio, é inferior ao custo Rio-São Paulo.
Será preciso também encarar a estreiteza do espaço para manobras fiscais. Não há perspectiva de desastre até 2015, mas cessou o repertório abusivo do último decênio, que permitiu sustentar o consumo governamental, fazer financiamentos públicos sem critérios e, em suma, desperdiçar recursos. Nem mesmo é possível elevar a carga tributária, hoje a maior do mundo em desenvolvimento, expediente principal do combate ao déficit público desde a segunda metade da década de 1990. Essa carga explica três quintos do custo Brasil, que corresponde ao acréscimo de 25% nos preços da produção doméstica na comparação com a média dos nossos parceiros comerciais!
Essa perda do raio de manobra fiscal vai limitar não apenas a gastança em consumo governamental, mas também a chamada “bolsa BNDES” e, mais amplamente, a atuação do Tesouro Nacional como fonte transbordante de crédito da economia. Acrescente-se que o próximo presidente é que terá de arcar com os inevitáveis micos na cobrança dos juros e do principal desses financiamentos.
Um sexto problema, mas não nessa ordem, será o enfrentamento das demandas de saúde, principal item de insatisfação no Brasil de hoje. A demonização da classe médica é só uma cortina de fumaça que esconde os problemas de má gestão e de encolhimento relativo dos gastos do governo federal no setor em relação a Estados e municípios. Com realismo, sem uma recomposição para cima da distribuição das despesas as dificuldades prosseguirão, com ou sem a fantasia dos recursos do pré-sal.
Os nós da educação são ainda mais difíceis de desatar. Apesar do expressivo aumento de despesas públicas, o setor é administrado com mediocridade e controlado pelo corporativismo. Os números da propaganda mal escondem a incapacidade de atrelar a educação à questão do desenvolvimento. Só por isso o setor é considerado estratégico mundo afora. Por enquanto, entende-se a educação só pelo viés de uma suposta justiça social. É evidente que isso faz sentido, mas é só primeiro passo da equação. Há ainda questões prementes como a epidemia de drogas ou a sustentabilidade ambiental, ignoradas pelo petismo.
O fecho da lista de problemas é a necessidade de um novo estilo de governar, que aposente a estridência publicitária e a balcanização do Estado brasileiro. Esse modelo não só não resolve as dificuldades, como cria entraves adicionais. O primeiro passo para romper a inércia do atraso é o reconhecimento de que os problemas existem. E as respostas certamente não podem ser dadas por quem fez dessas dificuldades a razão de sua força.

09 outubro 2013

César Maia: Por que Dilma-2014 vai perder a eleição!

Eu acho o César Maia é um bom analista da política. Vejam a análise que ele faz sobre as eleições de 2014 (publicado por Ricardo Setti, em Veja.com):

"Dilma até chega no segundo turno, mas qualquer um dos candidatos que passe para o segundo turno, a vencerá, provavelmente com facilidade. Quem duvidar que teste em pesquisa trabalhando cenários e não o passado" (Charge: Simanca)
“Dilma até chega no segundo turno, mas qualquer um dos candidatos que passe para o segundo turno a vencerá, provavelmente com facilidade. Quem duvidar que teste em pesquisa trabalhando cenários e não o passado” (Charge: Simanca)
Publicado no boletim do Ex-Blog de Cesar Maia*
POR QUE DILMA-2014 VAI PERDER A ELEIÇÃO!
…O ponto de inflexão agora é que, depois de 4 anos, Dilma não tem mais como vestir-se de Lula.
Sendo ela um quadro político urbano de esquerda, firmou essa imagem, que procura aprofundar.
Por isso vende tanto uma postura anti-ianque no episódio da espionagem.
Reforça a imagem do ex-PT …

1. O mensalão-2005 produziu mudanças importantes no PT e em Lula.
O partido que vinha sendo dirigido pela esquerda – dita revolucionária – passou a ser dirigido pelos sindicalistas da CUT que, por estarem dentro das multinacionais, são sistêmicos. As medidas adotadas pós-crise de 2008 mostram isso.
Lula também mudou. Despiu-se do macacão de líder sindical, colocou o chapéu de palha de migrante nordestino e passou a usar uma comunicação religiosa, com o povo como entidade.
O PT eleitoral deixou de ser um partido urbano universitário-sindical e passou a ser o partido do interior pobre, especialmente do Nordeste.

2. Qualquer mapa georreferenciado mostra isso. Nem Lula em 2006, nem Dilma na garupa de Lula em 2010, se elegeriam sem o interior pobre somado à periferia social urbana.
Mas numa democracia de público, o personagem é decisivo num processo eleitoral. Nesse sentido, ele deve representar, em sua coreografia, o eleitor que dá base à sua vitória.

3. Em 2010 Lula foi o candidato disfarçado de Dilma, a ponto de pesquisas identificarem percepções do eleitor que Dilma era a esposa de Lula.
A democracia de bens de consumo e o crescimento do PIB pintaram o cenário eleitoral.

4. O ponto de inflexão agora é que, depois de 4 anos, Dilma não tem mais como vestir-se de Lula.
Sendo ela um quadro político urbano de esquerda, firmou essa imagem, que procura aprofundar. Por isso vende tanto uma postura anti-ianque no episódio da espionagem.
Reforça a imagem do ex-PT e do ex-Lula, exatamente onde o PT e Lula não têm mais hegemonia eleitoral. Reforça o passado.

5. As pesquisas atuais [sobre intenção de voto], uma vez georreferenciadas, mostram que os 35% de Dilma ainda sobrevivem pelas regiões do PT e de Lula pós-mensalão-2005.
Mas assim mesmo numa curva declinante.
Lula e, depois, Lula e Dilma, tiveram no primeiro turno 43% dos votos (2002, 2006, 2010).
Esses 35% de intenções de voto [apontados pelas pesquisas] um ano antes da eleição, sem que os adversários tenham sua visibilidade, com uma economia trôpega e com uma imagem outra vez urbana. serão seu teto numa campanha eleitoral.

6. Mas ainda darão para chegar – mancando – no segundo turno. E – uma vez aí – qualquer um dos candidatos que passe para o segundo turno a vencerá, provavelmente com facilidade.
Quem duvidar que teste em pesquisa trabalhando cenários — e não o passado.

*Cesar Maia é vereador (DEM) no Rio de Janeiro e foi por três vezes prefeito da cidade

08 outubro 2013

‘A responsabilidade do STF’, de Fernando Henrique Cardoso

Publicado no Estadão deste domingo
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
Só quando instado por jornalistas opinei sobre o processo do chamado “mensalão”. E não entrei na seara que é própria dos juízes: que réus deveriam ser absolvidos ou condenados e, neste caso, a quantos anos. Pessoalmente, não me movem impulsos punitivos e muito menos vingativos. A maioria dos réus não cruzou comigo na vida pública; em geral, seus modos de agir e pontos de vista políticos não coincidem com os meus. Mantive, é certo, um relacionamento cordial com os que tiveram mandato parlamentar. Embora entendendo as reações de indignação dos que pedem punição rápida, achei que não deveria entrar nesse coro. É óbvio que existe nas ruas um sentimento de dúvida, quando não de revolta, com os resultados ainda incertos do julgamento. Afinal, para a maioria dos brasileiros, trata-se de uma das poucas vezes em que habitantes do “andar de cima”, como se os qualifica no falar atual, estão no pelourinho.
Agora, quando boa parte das águas já rolou, dá para comentar de modo menos emotivo o que aconteceu na fase quase final do julgamento e seus possíveis desdobramentos. Não cabem dúvidas de que a sensação de impunidade que a maioria das pessoas tem decorre menos das decisões que da demora no término do processo. Há várias explicações para tal demora: a complexidade do julgamento com pessoas de tão alta responsabilidade política, o Supremo Tribunal Federal (STF) não estar habituado e talvez nem preparado para atuar como instância penal originária, os Códigos de Processo que abrem espaço a um sem-número de recursos, etc. Para o povo nada disso é compreensível ou justificável. Por que demorar tanto?
Na primeira fase, a competência do ministro-relator, ao encadear as fases e os grupos de implicados num enredo de lógica compreensível, e a minúcia com que os juízes debateram o caso mostraram com clareza que houve desvio de dinheiro público e privado não apenas para cobrir gastos de campanha, como afirmou o presidente Lula, mas também para obter a lealdade de partidos e congressistas mediante recebimento de dinheiro.
A dosimetria, no dizer juridiquês – isto é, a atribuição de penas específicas aos culpados -, escapou à atenção do povo. O ponto culminante na primeira fase do julgamento foi determinar quem foram os mandantes. Independentemente da doutrina do domínio do fato – ou seja, quem sabedor dos atos ilícitos podia mandar seguir adiante ou interrompê-los -, formou-se na opinião pública a convicção de que os mais notórios personagens, por menos rastros que tivessem deixado, foram, sim, responsáveis.
Mesmo sem conhecimento jurídico, a maioria das pessoas formou um juízo condenatório. As decisões dos juízes comprovaram – em geral, por 9 x 2, 8 x 3 ou, mais raramente, 7 x 4, quando não por unanimidade – o veredicto popular: culpados. A opinião pública passou a clamar por castigo. A decisão de postergar ainda mais a conclusão do processo, graças à aceitação dos “embargos infringentes”, recurso de que só os doutos se lembravam e sabiam dizer no que consistia, caiu como ducha de água fria. Por mais que o voto do ministro Celso de Mello tenha sido juridicamente bem fundamentado, ressaltando que o fim dos embargos infringentes no STF foi recusado pela Câmara dos Deputados quando do exame do projeto de lei que suprimiu esses embargos nos demais tribunais, ficou cristalizada na opinião pública a percepção de que se abriu uma chance para diminuir as penas impostas.
Tal abrandamento implicará mudança de regime prisional apenas para membros do “núcleo político”. Se essa hipótese vier a se confirmar, estará consagrada a percepção de que “os de cima” são imunes e só os “de baixo” vão para a cadeia. O que às pessoas mais afeitas às garantias dos direitos individuais e menos movidas por sentimentos de vingança pode parecer razoável à maioria da população parece simplesmente manobra para que o julgamento seja postergado, nunca termine e o crime continue sem castigo. Tanto mais que metade do Supremo encontrou argumentos para negar a vigência dos embargos infringentes naquela Corte.
É fato notório, ademais, que todo o edifício jurídico-constitucional se constrói sobre realidades políticas. A indicação de dois novos membros do STF pelo governo, depois de tantos rumores de conversas com candidatos para comprometê-los com um comportamento brando no julgamento do mensalão, e a infausta tentativa do presidente Lula de pedir a um ministro que não votasse logo o processo exemplificam a contaminação da pureza jurídica pelas pressões políticas. O último voto sobre os embargos infringentes – sem que essa fosse a intenção do ministro que o proferiu – deu a sensação de que haverá um abrandamento das penas. Sensação que se reforça quando os juízes recém-nomeados dizem que, havendo novo julgamento, poderiam opinar de modo contrário ao da maioria anterior.
Reitero: pessoalmente, não me apraz ver pessoas na cadeia. Mas isso vale para todos, não só para os políticos ou para os do “andar de cima”. E há casos em que só o exemplo protege a sociedade da repetição do crime. A última decisão do tribunal agrava a atmosfera de descrédito e desânimo com as instituições. Numa sociedade já tão descrente de seus líderes, com um sistema político composto por mais de 30 partidos, num ambiente corroído pela corrupção, com um governo com 40 ministérios, uma burocracia cada vez mais lenta e penetrada por interesses partidários, não teria sido melhor evitar mais uma postergação, reforçando a descrença na Justiça?
Ao acolher os embargos infringentes o STF assumiu responsabilidade redobrada. Ao julgá-los, sem se eximir de ser criterioso, o tribunal deverá cuidar para decidir com rapidez e evitar a percepção popular de que tudo não passou de um artifício para livrar os poderosos da cadeia.

Marina e Eduardo Campos logo saberão do que o PT é capaz para continuar no poder

Post de Augusto Nunes em Veja.com:
Seja quem for o candidato do PSB, a aliança entre Eduardo Campos e Marina Silva tornou inevitável o segundo turno na eleição presidencial de 2014. Assim que se recuperar da pancada, Lula, que começou a colecionar bravatas ainda nos trabalhos de parto, recomeçará a recitar que Dilma Rousseff ganhará o jogo no primeiro tempo ─ e o marqueteiro João Santana, que ganha boladas de bom tamanho para prever o que o freguês deseja, saberá como explicar por que os concorrentes não voltarão do vestiário. Mas nem os devotos de olho rútilo e lábio trêmulo conseguirão acreditar no mestre que tudo sabe e tudo vê (menos escândalos que protagoniza e roubalheiras na sala ao lado).
Eduardo Campos e Marina Silva vão tirar votos tanto do PT quanto do PSDB, mas não é difícil descobrir quem perde mais (muito mais): basta conferir a reação dos sacerdotes da seita lulopetista, dos aliados loucos por ministérios, dos colunistas estatizados, dos repórteres federais e dos blogueiros de aluguel. Alguns enfileiram prodigiosas piruetas mentais para provar que um mais um é igual a zero. Outros garantem que todos os eleitores da ex-senadora do Acre são contrários ao casamento eleitoral com o governador pernambucano, cujos seguidores rejeitam a noiva. Os mais pragmáticos já tratam de colocar em prática o manual da cafajestagem.
“Em 2013 o bicho vai pegar”, preveniu Gilberto Carvalho no fim do ano passado. “Nós podemos fazer o diabo na hora da eleição”, confirmou Dilma Rousseff. Previsivelmente, tão logo se consumou a aliança inesperada, começou a tomar forma na internet a onda de ataques desabridos e boatos insultuosos que costuma anunciar o tsunami de canalhices concebidas para ganhar-se a eleição. Utilizada desde sempre contra candidatos tucanos apoiados pelo PFL que virou DEM e pelo PPS, a metodologia do vale-tudo aperfeiçoada nas catacumbas do PT desta vez será estendida ao PSB.
Em 2010, Marina foi tratada pelos ex-companheiros com a brandura reservada a ovelhas desgarradas que, sem chances reais de vitória, poderão reaproximar-se do rebanho num segundo turno. As coisas mudaram, já aprendeu a ex-senadora impedida de formar seu próprio partido. Ela e Eduardo Campos logo saberão do que o PT é capaz para manter-se no poder. O arsenal de armas sórdidas, imenso e variado, é suficiente para mais de um inimigo.
A um ano da eleição presidencial, é difícil prever com exatidão o que acontecerá. O que está claro é que o que acabou de acontecer foi muito ruim para o PT ─ e, por consequência, muito animador para quem desconfia que a reeleição de Dilma Rousseff é o caminho mais curto para despenhadeiro. “Foi um direto no fígado”, Lula deixou escapar ao saber da união celebrada por dois de seus antigos ministros. Quem conhece boxe sabe que esse tipo de golpe, aplicado com precisão, frequentemente precede o nocaute.