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16 dezembro 2012

‘Lula deve, sim, explicações’, editorial do Estadão

Leia a íntegra:
PUBLICADO NO ESTADÃO DESTE SÁBADO

Pelo mais elementar bom senso, a vítima de acusações caluniosas é sempre a principal interessada na imediata e rigorosa apuração das maquinações que a atingem, para que a verdade cristalina venha à tona, eliminando qualquer resquício de dúvida sobre uma reputação ilibada. Por que, então, diante da torrente de denúncias que têm colocado a reverenciada figura de Luiz Inácio Lula da Silva na berlinda, ele próprio e o PT têm preferido atacar a se defender, esforçando-se para desqualificar liminarmente os acusadores e as acusações? Por que a presidente Dilma Rousseff, que vinha primando por manter prudente distância do mar de sujeira que ameaça o lulopetismo, decidiu agora mobilizar o governo na tentativa de blindar seu padrinho? Por que não exigem, todos, que se abra rapidamente uma investigação oficial do Ministério Público que coloque em pratos limpos toda essa infamante campanha articulada pelas forças do mal para destruir Lula e o PT? Afinal, quem não deve não teme.
Mas a verdade, e é por isso que o lulopetismo anda batendo cabeça em evidente sintoma de pânico, é que Lula deve, sim. Deve, pelo menos, muitas explicações à Nação.
Muitos preferem não ver, outros não conseguem, mas o desapreço do Grande Chefe por aquilo que os petistas ideológicos chamam de “moral burguesa” é marca registrada de seu comportamento. Até mesmo como chefe de governo, Lula deu claras demonstrações desse desvio de conduta nas várias oportunidades em que, ao longo de seus dois mandatos, não hesitou em tratar publicamente com indulgência ou com inconveniente deboche os companheiros “aloprados” pegos com a boca na botija. E despediu-se da Presidência demonstrando em grande estilo como se sente “mais igual” do que todo mundo, ao ordenar ao obsequioso chanceler Celso Amorim que, ao arrepio da lei, distribuísse passaportes diplomáticos para toda a sua prole. E logo depois, já como ex-presidente, “a convite” do então ministro da Defesa, foi refestelar-se às expensas do agradecido povo brasileiro em dependências do Exército nas praias do Guarujá. Comportamento típico de quem se considera todo-poderoso, acima do bem e do mal. Não exatamente de alguém que, como apregoam seus acólitos, ostenta “reputação ilibada”.
Lula, portanto, deve realmente muitas explicações ao País. Mas prefere, com o apoio da habitual corte de bajuladores e beneficiários de sua liderança, fazer aquilo em que ele próprio e o PT são craques: atacar.
A estratégia para blindá-lo está se desenvolvendo em vários planos: no comando do partido, na base aliada e nos quadros governamentais, por decisão, até certo ponto surpreendente, de Dilma Rousseff. Vários ministros já procuraram jornalistas para protestar contra a “falsidade impressionante” das denúncias que envolvem o Grande Chefe.
A direção nacional do PT, por sua vez, divulgou mais uma nota oficial, desta vez conclamando a militância, parlamentares e governadores a “expressarem sua indignação diante de mais esse ataque, essa sucessão de mentiras envelhecidas que a mídia conservadora, com setores do Ministério Público, insiste em continuar veiculando”. Como de hábito em manifestações de autoria de Rui Falcão, boa parte da nota, e do depoimento gravado veiculado pelo site oficial do PT, dedica-se a atacar a imprensa, porque dá ouvidos às mentiras de “um condenado”. Para o PT, definitivamente, Marcos Valério não está entre os condenados injustamente pelo STF.
Na base aliada, além do notório José Sarney, para quem Lula está acima de qualquer suspeita, agora Fernando Collor ─ logo quem! ─, dá uma mãozinha, como presidente da Comissão de Controle das Atividades de Inteligência do Congresso, ao fogo de encontro solicitado pelo líder petista na Câmara, Jilmar Tatto: propôs o convite a FHC e ao procurador-geral Roberto Gurgel para deporem sobre supostas irregularidades cometidas, no passado, sob suas respectivas responsabilidades. Como explicou Tatto, “se eles querem guerra, vão ter”.
Não há dúvida. Pela primeira vez, desde que chegou ao governo em 2003, Lula sentiu um golpe. Pela primeira vez teme as consequências dos seus atos.
Esta história está apenas começando.

13 dezembro 2012

‘A apuração se impõe’, editorial do Estadão

PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA QUINTA-FEIRA
Embora nada contenham de realmente novo, são graves demais para não serem rigorosamente investigadas as denúncias do publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza sobre o envolvimento pessoal do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o mensalão. Como revelou anteontem este jornal, em 24 de setembro passado o operador do esquema, condenado na antevéspera pelo Supremo Tribunal Federal (STF), mas antes de ser apenado a 40 anos de prisão, procurou a Procuradoria-Geral da República para acusar Lula de praticamente tudo de que ele já foi acusado desde que o ex-guerrilheiro e fundador do PT Paulo de Tarso Venceslau foi expulso do partido por ter revelado, de público, o método petista de governar visando, a qualquer preço, à maior permanência possível no poder e à ampliação máxima da esfera do governo. De novo, realmente, apenas as despesas pessoais de Lula bancadas por dinheiro sujo do PT.
Além disso, no depoimento que se estende por 13 páginas, Valério fez ainda diversas outras afirmações, entre elas a de que Paulo Okamotto, amigo próximo de Lula e atual diretor do instituto que leva o seu nome, o teria ameaçado de morte se não se “comportasse”. Em Paris, onde foi colhido pela notícia, Lula se limitou a dizer que é tudo “mentira”. Para a presidente Dilma Rousseff, trata-se de uma “lamentável” tentativa de destituir o antecessor da “imensa carga de respeito” do povo brasileiro por ele. O presidente petista, Rui Falcão, declarou que “a mídia e o Ministério Público não deveriam dar crédito a alguém que, condenado, tenta reduzir suas penas caluniando o PT”. Aqui e ali, talvez para fomentar uma conveniente confusão, se disse que o Estado “denunciou” Lula. O que o jornal fez foi apenas noticiar com apropriado destaque as denúncias de Valério.
A desqualificação do denunciante, por sua vez, visa claramente a impedir que as suas imputações sejam apuradas. O que conta, como também é óbvio, não são os motivos que o levaram a falar aos procuradores, mas o que possa haver de verdadeiro nas suas palavras. A título algum, portanto, podem ser descartadas de antemão, por ser o que é quem as proferiu. Assim se manifestaram o presidente do STF, Joaquim Barbosa (que teve acesso “oficiosamente” ao texto), e dois de seus pares, os ministros Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello, ao defender que Lula seja investigado. A decisão cabe ao procurador-geral Roberto Gurgel. Ele vai esperar o término do julgamento do mensalão, na próxima semana, para resolver se tomará a si a incumbência ou se a encaminhará a uma instância inferior do organismo, dado que Lula, ex-presidente, não goza de foro privilegiado. Estará decepcionando quem passou a admirá-lo pela atuação que teve no caso do mensalão, se decidir pelo arquivamento das denúncias. Pressões nesse sentido não faltarão.
No julgamento do mensalão, Dilma instruiu a sua equipe a não se manifestar ─ o assunto, argumentou, não envolvia o seu governo. Desta vez, porém, fez saber que o Planalto se engajará na blindagem de Lula, desacreditando aquele que, pela primeira vez ─ e com presumível conhecimento de causa ─ apontou o dedo para o antecessor. A base aliada não perdeu tempo em fazer a sua parte, a começar do titular do Senado, José Sarney. Quando esteve no pelourinho por irregularidades na Casa, anos atrás, Lula disse que ele não poderia ser tratado como “uma pessoa comum”. Sarney acaba de retribuir a barretada, alçando Lula à condição de “patrimônio do País”. Bons democratas que são, cada qual, portanto, considera o outro invulnerável por definição. A rigor, foi o que o ex-presidente vinha conseguindo, ao se manter no vestíbulo dos escândalos que inundavam a copa e a cozinha de seu governo e as dependências em geral de seu partido.
A mágica, ao que tudo indica, parou de funcionar. Algo realmente novo e mais grave do que tudo que se sabia ate agora surgiu há cerca de três semanas, quando a Polícia Federal expôs os malfeitos da namorada de Lula, Rosemary Noronha, na chefia do escritório da Presidência da República em São Paulo, em que ele a colocou. Agora vem Marcos Valério pôr em xeque mais uma vez o alegado alheamento de Lula das enormidades que os seus principais companheiros cometiam em benefício do governo petista. Essa história está apenas começando.

Pecados dos juízes


Faço questão de publicar aqui a nota do Lauro Jardim, do blog Radar, de Veja.com:



Escola Nacional de Formação
Numa palestra para novos juízes na Escola Nacional de Formação e Aperfeiçoamento de Magistrados (Enfam) no STJ, o conselheiro do CNJ Wellington Saraiva fez um balanço do trabalho da corregedoria do Conselho e enumerou os principais desvios funcionais dos magistrados nos últimos sete anos. São eles:
* Juízes que atuam também como empresários.
* Tratamento desigual das partes envolvidas nos processos.
* Venda de decisões.
* Esquema de fraude na distribuição de processos.
* Sequestro e liberação de valores elevados com base em documentos inidôneos.
* Excessos de conduta dos juízes, que acabam abusando de suas prerrogativas.
* Direção de automóvel sob o efeito de álcool.
Por Lauro Jardim

12 dezembro 2012

Minha vida - Parte IV (Exílio em Tabatinga, 1977-79)

Com a origem que tenho, de homem do interior, cheguei a Tabatinga e logo fui tratando de conhecer a realidade local. O contraste com Letícia era gritante - e ainda é até hoje! -, pois esta cidade colombiana "siamesa" de Tabatinga, separada por um marco geodésico na fronteira e por uma rua ao longo desta, tem uma infraestrutura em muito superior. Sendo capital da província do Departamento del Amazonas, suas ruas são limpas, retas e sem buracos. Seu comércio é pujante, especialmente em bens importados que vão desde artefatos de couro a perfumes, armas, munições e um variado comércio de roupas, calçados e eletroeletrônicos.
Com essas características de Letícia, eu fugia de Tabatinga todas as tardes e passava horas ali hablando con las thicas... Passei a ser um exilado voluntário na Colômbia... O câmbio era vantajoso, pois Cr$ 1,0 era trocado por 2,5 pesos, o que tornava meu salário de cerca de 10 salários mínimos extremamente bom.
Além de tudo, Letícia tinha um setor público bastante competente, um grande hospital e uma carretera (estrada) de uns 200 km adentro do seu território. Era dotada de rádio, onde cheguei a apresentar um programa de música de Roberto Carlos.
Em Tabatinga, fui elevado a chefe de mim mesmo, pois o único funcionário do setor de topografia não tinha a menor experiência, não tinha em 10 anos conseguido demarcar um único metro quadrado.
Como me deram "certeza" de que somente retornaria a Manaus se conseguisse demarcar o Projeto do Incra ali, pus mãos na massa. Cobrei equipamentos e pessoal para formar um setor de demarcação digno do nome e dei início aos preparativos para entrar na mata abrindo as picadas. As coisas começaram a dar certo. O único funcionário do setor que encontrei, José Maria Repolho, era um rapaz trabalhador, humilde, perspicaz, dedicado, que aprendeu rápido o serviço e em quem aprendi a confiar, inclusive trazendo-o para comungar da minha fé adventista. Tornou-se um adventista inclusive melhor que eu mesmo. Ajudamos a erguer a igreja adventista de Tabatinga. Isso me ajudava a superar a ausência de minha família, a frustração pelo abandono dos estudos.
Contudo, passei a estudar de forma autodidata e, além da Bíblia (que li umas 4 vezes todinha, uma delas em espanhol), passei a estudar história geral e do Brasil; geografia geral e do Brasil; espanhol (que aprendi a falar com razoável "perfeição") e biografias dos grandes homens da História.
Em junho de 1978, consegui permissão para ir casar em Manaus com minha primeira mulher, a dona Suderly, que viveu comigo ali um ano, chorando dia e noite, coitadinha. Não conseguia ficar tão longe da mãe. Resovemos ter nosso primeiro filho, o Adriel, a fim de afastar o tédio.
Essa foi minha vida ali por dois anos. Demarquei todo o Projeto nesse tempo e cobrei meu retorno para Manaus. Para minha surpresa - acho que fruto da distensão política já com o presidente Figueiredo e da própria lei de Anistia - fui atendido e transferido para Manaus. Por coincidência, minha demissão em Tabatinga e readimissão em Manaus se deram nos mesmos dias quando de meu exílio, ou seja, 31.07 e 01.08, de 1979. Minha mulher, gestante de Adriel, veio na frente. Reuni o dinheirinho que amealhara ali e comprei uma casinha de madeira na rua de Dr. Machado, entre as ruas Visconde de Porto Alegre e Duque de Caxias, na Praça 14, onde havia passdo minha adolescência de 13 aos 19 anos. Voltei pra casa. Voltei outra pessoa, mais sábio, mas com a mesma determinação de estudar.
Prestei o segundo vestibular. Desta vez para Administração Noturno, pois diziam no Incra que somente estudaria se meu curso fosse noturno. Em Tabatinga, como chefe da topografia, fui obrigado a aprender empíricamente as técnicas de administração. Senti então necessidade do conhecimento teórico sobre essa nobre arte. Passsei. Novamente.
No próximo post tratarei de minha nova vida em Manaus daí em diante e de meus estudos e minha transferência para o Instituto de Terras do Amazonas.




29 novembro 2012

Minha vida - Parte III-A (Estudos e trabalho - Manaus, 1967-1972)

Quando cheguei em Manaus em dezembro de 1966, "minha mala era um saco e o cadeado era um nó". Minha mãe colocou em meu bolsa da camisa algum dinheiro que nunca soube precisar o valor, e um bilhete rascunhado o endereço de minha tia, que havia se mudado da casa onde havia nascido, na rua de Ramos Ferreira para a rua de Visconde de Porto Alegre. Chegando na escadaria da Igreja dos Remédios, saltei do barco e perguntei de um taxista se ele saberia me levar no endereço que constava do papel em meu bolso. Ele disse que sim e eu perguntei se o dinheiro que tinha daria para pagar a viagem. Ele também disse que sim e ficou com todo o dinhero.
Assim cheguei em casa da minha tia levando no saco algumas frutas.
Disse a ela que estava chegando para morar com ela e estudar. Ela e meus primos me receberam muio bem, mas minha tia me advertiu que teria de realmente estudar, caso contrário voltaria para o Careiro.
Tive todo o apoio de meus primos Maria Emília e José Brito, bem como dos filhos deste - também meus primos: Heriberto James, Herivelton Jansen, Lady Elaine, todos com nomes "artísticos" em homenagem a astros de Hollywood (nos anos subsequentes, de 1967 a 1972, período em que morei com eles, nasceriam ainda Hudson, Herberth, Lilybeth Audrey e Lislie Ellen), o que tornaria minha presença em 1972, digamos, um tanto quanto "demais".
Como cheguei muito matuto do Careiro/Cambixe, em pleno dezembro de 1966, lembro de ter perguntado aos meus primos como é que se comia ameixa, que nunca tinha visto, e José Brito (recém falecido aos 76 anos) as comeu todas para me ensinar... Chorei muito pela burla. E olha que estava com 12 anos de idade... Para matuto toda idade é válida para fazer bobagens.
Como estava ali para estudar, meus primos Heriberto e Lady, filhos de José Brito, passaram a me dar lições de português. Minhas primeiras tentativas de escrever algo em uma folha de papel esbarrava na dificuldade de segurar um lápis na mão, de posicioná-los entre os dedos. Eu sabia o que diziam as palavras, mas não conseguia copiá-las para outro papel. Sofri bastante para isso. Mesmo com a assessoria da professora Terezinha, amiga de minha prima Maria Emília. Da cópia, passei para o ditado. Claro que as dificuldades aumentaram, porque uma coisa é copiar algo que está vendo, outra é saber como grafar os fonemas ditados. Essa é a grande dificuldade por que passa todo alfabetizando. Das letras passei para os números. Não precisa dizer quanto mais difícil foi para mim compreender como funcionavam as 4 operações...Somar, dividir, multiplicar e dividir eram algo abstrato demais para mim, acostumado a fazer isso empíricamente na hora de separar o gado, categorizá-los como bezerros, novilhas, garrotes, vacas, touros e dizer quantos haviam, quantos faltavam, etc. Em meus aprendizados, sempre gosto de fazer essa redução sociológica entre o abstrato e o concreto, pois facilita em muito essa tarefa. Entender é melhor do que simplesmente decorar sem uma conexão com a realidade. Ajuda a memorizar. E minha memória, herdada de meum repentista da viola, sempre me foi uma grande vantagem competitiva. Aprendi rapidamente a tabuada, de trás pra frente e vice-versa. Passei a ganhar as rodadas de palmatória mesmo entre os meus primos, que nesse ponto não estavam assim lá muito melhor que eu... Fazia isso com lágrimas nos olhos, tanto na hora de apanhar quanto de bater.
Assim, após essas aulas básicas de alfabetização, minha tia Alice me matriculou no terceiro anos primáro da Escola Industrial Salesiana, uma escola da paróquia de São José, vinculada ao Dom Bosco, mas conhecida como Domingos Sávio, o santo menino italiano pupilo de Dom Bosco, da cidade de Turim... Contou para isso com a ajuda da professora Terezinha Hagge Cavalcante, professora dessa escola. Lembro o nome dela completo pela importância dela nesse início de minha vida estudantil, cuja memória não poderia falhar neste momento. Ela era a melhor amiga de minha prima Maria Emília.
Contra todas os meus prognósticos, fui muito bem nos estudos. Passei com notas altas, tanto no terceiro quanto no quarto ano primário, sendo considerado o melhor aluno das turmas nos anos de 1967-68, ganhando duas medlhas de honra ao mérito. Também ganhei duas outras medalhas por bom comportamento. Me senti inteiramente recompensado por meus esforços.
Nesse meio religioso também me tornei interessado pela história cristã, pela leitura da bíblia e pela condição da alma com suas culpas e seus pacados; também da salvação que há em Cristo Jesus.
Outra maneira magistral que os salesianos tem de manter unida a congregação é por meio dos esportes, da leitura, da arte. No oratório Domingos Sávio aprendi a praticar diversos esportes: futebol de campo e de salão, spireball, tênis de mesa, etc. Brincadeiras de salão como cabra sega e corrida de saco. Nas festas juninas tinha batata assada na fogueira, pau-de-sebo... Mas o que encantava mesmo eram as sessões de cinema às segundas-feiras, as quais assistia gratuitamente em razão da presença nos domingos nas missas pela manhã e catecismos pela tarde, com carimbos na carteirinha. Assisti a todos os filmes de capa-e-espada, westerns; seriados de Zorro, Búfalo Bill; os filmes de Elvis Presley, Jerry Lewis, Mazzaropi, Oscarito e Grande Hotelo, desenhos e filmes de Walt Disney, bem como a filmes de cunho religiosos: a vida e a paixão de Cristo, Marcelino pão-e-vinho, etc. Aproveitava para comprar, vender e trocar os gibis que adorava ler, tais como: Superman, Batman, Aquaman, Liga da Justiça, Walt Disney, etc. 
Como se tratava de uma escola industrial, tínhamos oportunidade de aulas de artesanato em madeira, na oficina de marcenaria, onde fazíamos diversos objetos artísticos como veleiros, automóveis, barcos regionais, etc., que eram exposto e vendidos para a comunidade em dezembro, o que dava um orgulho danado na gente em ver nossas artes em exposição.
Mas isso não era tudo. Tinha de desempemhar em casa uma série de tarefas obrigatórias, tais como cuidar de galos de briga de meu primo, que era então "galista", os quais tinha de treinar, tratar e limpar os casulos individuais, vem como das galinhas soltas no quintal. Ainda tinha de ir buscar sobras de pão e sopa na casa dos sogros de meu primo José Brito, na rua Ipixuna com Emílio Moreira, sobras do boxe de café que eles possuíam no mercado Adolfo Lisboa. Eram tarefas árduas, que fazia como parte do meu acordo de permanência na casa de minha tia Alice, cuja vida dedicava a cuidar dos netos, cozinhando, lavando e passando roupa, além de tudo o mais. Fazia por mim e por ela, com denodo e dedicação. Todos os dias tinha de comprar pão ma padaria, milho e cigarro para meu primo José Brito. Era uma troca justa.
No entanto, ao final dos dois anos na EIS, minha tia me disse que "não podia mais pagar para mim aulas particulares e que eu tinha de prestar concurso na Escola Técnica Federal do Amazonas porque lá não se pagava nada". Foi muito triste para mim essa informação e repto para sair de minha querida escola EIS, onde já contava com a aprovação de todos e era honrado com prêmios de honra ao mérito. Mas a realidade se impunha e então passai os dois meses restantes de 1968 estudando para a prova de seleção da Etfam. Graças a Deus passei, mas meu primo Heriberto, infelizmente, não logrou êxito, o que foi para mim uma surpresa, poiser fora ele quem mais me ensinara ao chegar em Manaus. A vida é assim mesmo, paciência!
Na Etfam tudo para mim foi diferente, começando pela distância que tinha de percorrer a pé todos os dias. Ia pela Visconde e voltava pela Duque, para quebrar a rotina.
Uma coisa boa era que a Etfam fornecia o fardamento: tecido para a calça, de caqui, o brim, forte como uma lona, e camisa semelhante, com o bolso bordado. A mulher de meu primo, José, a Ruth, é quem costurava as peças. Não sabia costurar direito para homens e minhas calças saiam meio tortas, com fundão...
A Etfam era infestada de "bandidos", todos homens, grosseiros, violentos mesmo. Meu protetor era o seu Oswaldo, bedel que cuidava da (in)disciplina na entrada e saída do portão, e era rígido e inflexível com o horário. Quando não conseguia chegar a tempo a única saída era pular o alto muro daquela "penitenciária".
No ginásio industrial da Etfam, além das disciplinas normais (português, matemática, ciências, Ospb, etc.), tínhamos aulas obrigatórias de Artes Industriais em cada uma das oficinas: Eletricidade; Tipografia e encadernação; Carpintaria e marcenaria; Serralheria e solda; Mecânica de autos e de máquinas (Tornearia, frezagem, furadeiras, limadeiras, etc.), além de desenhos (técnico, arquitetônico, mecânico, artístico - com Moacir Andrade).
Para mim, que era oriundo do campo, achava eu, seria melhor me dedicar à agricultura e pecuária. Tinha um verdadeiro pavor daquelas oficinas elétricas, mecânicas... Gostava de desenhar.
Os estudos eram extremamente exigentes em matemática, física, resistência dos materiais, etc.
Se praticavam ali também muito esporte, o que para mim se assemelhava à EIS, aonde somente teria tido mais um ano, o quinto, pois ali não havia o curso ginasial (a segunda metade do hoje fundamental).
O bom das práticas industriais era que podíamos vender as peças produzidas e assim conseguir alguns trocados. Fazia isso com piões feitos nos tornos de marcenaria, com troncos de goiabeira; com peças de alumínio e de ferro, como batedor de carne, martelos, etc. Comecei de forma tímida a lidar com essa realidade e acabei por gostar disso. Me adaptei rápido. Passei mesmo a me sentir gratificado com os progressos que fazia nesse tipo de estudo e comecei a vislumbrar ali um futuro promissor.
Aprendi Ciência dentro do laboratório! O professor apresentava o "case" no carderno de Ciência e nós, os alunos, fazíamos os experimentos e descrevendo os resultados ali, na hora, explicando o que acontecia, fosse de química, física ou biologia. Assim não há quem não aprenda, não é mesmo? Fui um privilegiado, não resta dúvida. Isso é que os governos deveriam fazer: colocar um pequeno laboratório de Ciência dentro de cada escola.
Assim, ao término dos qutro anos do ginásio industrial na Etfam - que foi acabando essa modalidade de ensino justamente no ano em que ingressei -, estava apto a exercer uma penca de profissões...
Tive também a felicidade de ter sido avaliado como o melhor aluno desses quatro anos e recebi uma caneta Cross dourada. O segundo colocado foi o Samuel Câmara, hoje pastor da Boas Novas Assembléia de Deus, com quem tive meus primeiros contatos com a Igreja Evangélica e cheguei a visitar a sua igreja.

Minha vida - Parte II (Manaus-Careiro, 1960-67)

Em 1960,  meu pai convenceu minha mãe em vender a herdade de seus país e se mudar para Manaus. Meus 5 tios - Maria (que vivia em Porto Velho), Edgar (Déga), Antonio, Alice e Waldemar - eram todos contra, mas afinal "cederam à pressão" e cada um recebeu sua parte. Morar em Manaus era e ainda é o sonho de todo interiorano desavisado. Na capital não se vive como no interior. Este é esquecido pelas autoridades, mas pelo menos lá não se passa fome e nem chegam os tributos (?), os  aluguéis, as contas de água e luz. Tem ITR, mas "é pouquinho" (?!). Tem essa "vantagem", o que, na maioria dos casos, não é pouca. E ainda se pode comer da terra, que tudo dava.
Já em Manaus, onde chegamos sem a menor ideia do que iríamos encontrar e de como iríamos viver, meus tios encontraram perto de onde moravam, e de onde eu tinha nascido, uma casinha de dois pisos feita de madeira e coberta de palha - na época quase uma unanimidade. Eram os ricos que podiam ter suas casas cobertas de telha, ou zinco, ou alumínio. A casa ficava, na verdade, em um "buraco" da rua de Jônathas Pedrosa (onde hoje está chegando o Prosamin), entre a rua de Ramos Ferreia e a rua Ipixuna (na verdade um "buraco" nessas imediações). Como não havia lenha, usávamos carvão. Nessa época o carvão era vendido medido em latas de querosene, em quiosques exclusivos para isso. Nessa época estava chegando em Manaus uma grande novidade que era o fogão a querosene. Marca "Jacaré". Compramos um. Aos poucos o carvão foi sendo substituído pelo quersosene e pelo gás GLP, outra novidade. Naqueles tempos até o ferro de engomar (passar) roupa era a carvão. Somente "ricos" podiam ter fogão a gás e ferro elétrico, além de geladeira.
A nossa cama era de madeira com colchão de capim, que quando ficava velho soltava uma poeira infernal. Não sei se ácaro sobrevibia nesse ambiente. Mas com certeza minha rino-cinusite se estabeleceu definitivamente. Até hoje é minha companheira inseparável. Não tem cura, apenas controle. Portanto, há tempos sofro de uma doença incurável.
Com a constante ausência de nosso pai-artista-da-viola, mais conhecido como "Estrela-do-Norte", "vivíamos", eu e meu irmão, na casa de nossa tia Alice (onde eu nasci), onde brincávamos com nossos primos Heriberto James, Herivelton Jansen e Lady Elaine (todos com nomes artísticos de cinema, aos quais depois se somariam Lilibeth Audrey, Lislie Ellen, Herbert, Hudson e... ). De minha tia Alice - um misto de tia e segunda mãe, principalmente para mim -, era de onde levávamos todos os dias sopa e pão a fim de saciar a fome. Em Manaus tudo era comprado, aprendemos rapidinho. Próximo de casa havia muitas mangueiras e nos aventurávamos a colher algumas pelo chão, quase sempre tendo de correr com medo de tiros. Até hoje não sei se fictícios ou reais, pois quando os outros meninos gritavam "corre que o Adelino vem aí", não ficava ninguém para dizer quem e como era esse "Adelino". Acho que um dia vi sua sombra entre as árvores da encosta do "buraco", na subida da rua Jônathas Pedrosa para a rua Visconde de Porto Alegre.
A solidariedade entre os vizinhos também era coisa muito comum. Havia solidariedade entre os pobres de então. Acho que hoje não há mais. Os pobres dividiam o que tinham entre si, de forma que aprendi uma importante lição: a da gratidão para com aqueles que nos ajudam.
Com sete anos de idade, não sei como aprendi, mas já sabia "ler", pois amava os gibis que conseguia comprar e depois trocar nas sessões de cinema no Oratório Domingos Sávio, onde jogava futebol todos os dias, manhã, tarde e noite. Até aprender. E muito bem. Era tempos de Pelé, Garrincha, Didi, Vavá. Brasil Bi-campeão do mundo de futebol! Não sabia empinar pipa, pois me enrolava todo com linha, rabiola, falta de vento, "papagaio cangula" (pipa malfeita), goma, serol, essas coisas. Como vingança às vezes puía com os dentes, de leve, a linha dos "meninos malvados", para ver suas pipas "quedar". Me divertia com isso. Hoje me arrependo um pouquinho. Eu não fazia mal a quase ninguém.
Nesse tempo, "estudei" em vários colégios próximos, mas não tinha progresso nenhum nos estudos, acostumado que estava ainda com a vida no campo, cuja saudade era mais forte que tudo.
Nossa "casa" em Manaus foi sendo "destiorada" até ao ponto em que meu pai resolveu vendê-la com a família dentro - alcoolismo é uma desgraça! Recebeu metade do valor, que dilapidou com bebidas e mulheres, que lhe furtaram o restante - acho que já nesse tempo existia o golpe "boa noite cinderela", rupinol, essas coisas -, e a outra metade foi dividida em 12 parcelas. Terminadas essas parcelas, ficamos sem "casa", ou o que restou dela. Chovia mais dentro do que fora. Fomos morar de favor lá pelas bandas do Japiim, que nessa época não tinha nenhuma urbanização. Era apenas "mato". Tínhamos de andar a pé margeando igarapés ali por onde hoje fica a Nilton Lins e a Unisol, na rua Tefé. Ficava muito longe da casa de  minha tia e assim "perdemos", ou quase perdemos a ajuda dela.
Minha mãe então apelou para um amigo comum de meu pai - o "Estrela-do-Norte", lembram? - o qual amigo tinha uma fazenda no paraná do Cambixe, no Careiro, que fica bem próximo à sede, a Vila Velha.
Assim, em 1964 voltamos ao Careiro. Agora como caseiros da fazenda do Sr. Adalto Leite, cuja família era grande e abastada, sendo um de seus membros meu padrinho de batismo, o Sr. Oscar Leite, de terna e grata memória para mim, pois era em sua fazenda, que ficava no baixo Cambixe, onde passava tempos, sob os cuidados maternais de minha madrinha Ana e de meu padrinho Oscar, que dispensavam a mim um carinho enorme e me davam muitos presentes, principalmente roupas. E onde me aventurei pela primeira vez a montar cavalos e tocar bois no campo. De madrugada ia ao curral para apreciar os vaqueiros tirar leite das vacas. Tentava aprender. Sempre fui muito curioso. Ia também pescar no lago dos Reis com os filhos do meu padrinho, que me tratavam como membro da família, mas me aprontavam medos terríveis, tal como alagar a canoa bem no meio daquele imesno lago, fazendo "guerra-de-peixe" (uns jogando peixes nos outros). A profundidade do lago, todavia, não passava de 1,5 metro, mas era para mim um oceano fundíssimo, abissal. Á noite ouvir Pedrito y su ritmo na vitrola. Sou muito grato a Deus por essas doces lembranças.
No comércio dos Canafés próximo, na verdade um flutuante (casa sobre troncos dentro d´água), uma das irmãs de meu padrinho Oscar, a Preta - cujo ditado popular "fala mais do que a Preta-doLeite" se tornou lendário em razão de sua prosa infindável, virando sinônimo de mulher faladeira, conhecido em muitos lugares do Estado do Amazonas. A Dona Preta também me dava tratamento carinhoso, e ali aprendi a fabricação de queijo, manteiga e vivia meu pai bebendo até... ficar bêbado, mas ele gostava de me apresentar como o seu filho predileto e inteligente. Gostava apenas desta parte, pois não me sentia honrado em ser filho predileto de um bêbado. Contudo, amava meu pai a ponto de ter morriddo um pouco com ele, cuja lembrança me leva às lágimas, como neste exato momentto em que escrevo... O câncer lhe comeu as entranhas entre 1972-77, Deus do céu!
Ia para o baixo Cambixe justamente em busca de meu pai, a quem encontrava invariavelmente bêbado, para minha vergonha. Mas menino tem uma capacidade de amar sem limite, como Jesus afirmou. Amava meu pai mais que tudo. Admirava seu canto, sua inteligência com as rimas, sua haibilidade com a viola. Mas não lhe dirigia nenhum admiração visível, pois associava a sua arte à sua bebida, que o afastava de nós. Pouco vivia com ele em "nossa" casa. Afinal, essa é a sina de todo filho de "artista", como ele gostava de se intular. Dizia mesmo que foi amigo de Gonzagão, do que nunca duvidei. Gonzagão teve mais sorte na vida no Rio de Janeiro.
De lá do baixo Cambixe voltava para a fazenda de Adalto Leite na "boca do Cambixe", levando algum dinheiro e "rancho" que meu pai mandava para minha mãe. Mas ele mesmo não voltava para casa. Ele morava no mundo e passeava em casa.
Na fazenda de Adalto Leite, eu, meus irmãos e minha mãe fazíamos de tudo para que ele não nos mandasse embora dali pela "falta do caseiro". Adalto mesmo gostava muito de meu pai e o tolerava muito pela admiração que tinha pela sua arte. Chegou e fazer cantoria na fazenda, como se fosse um "convidado" e não o seu caseiro - que na verdade nunca foi. Nós, seus filhos, é que servíamos como peões e zeladores da fazenda, de cuja casa, de tão grande, nos servíamos apenas de um de seus inúmeros quartos para morar.
Lembro das vaquejadas, dos transbordos de gado do barco para os campos e vice-versa, pois a fazenda servia apenas como "engorda" para o gado que seria vendido em Manaus, para abate. O gado "de leite" era apenas para manutenção da fazenda. Em volta da casa grande havia muitas fruteiras.
Contudo, aos 13 anos, em 1967, resolvi de minha própria vontade, sem considerar a opinião de meu pai ausente - que podia se tornar violento quando bêbado -, morar em Manaus com minha tia Alice. Assim fiz. Deixei minha mãe e meus irmãos no Cambixe e fui novamente aventurar a vida em Manaus, a fim de, quem sabe, estudar e "ser alguém na vida". Analfabeto, ou semi, cheguei na casa de minha tia, qua nessa época morava na rua de Visconde de Porto Alegre, sempre próximo de onde nasci. Desta vez, porém, minha tia Alice me instou a "estudar mesmo" ou então retornaria para o Careiro. Isso me fez pensar seriamente em estudar, porque, apesar de não considerar a "volta para o Careiro" uma penalidade em si, considerava que ali não teria nenhum futuro melhor do que tinha qualquer vaqueiro: deixar esgotar as forças em um trabalho árduo e morrer como indigente. Isso não queria.
Minha tia pagou então para eu estudar por dois anos, 1967 e 1968, na Escola Industrial Salesiana Domingos Sávio, próximo de onde morávamos, tendo a mesma professora da manhã, Terezinha Hage Cavalcante - amiga de minha prima Maria Emília -, como professora de "aula-de-reforço", à tarde. Pela primeira vez na vida compreendi o quanto os estudos podiam ser penosos e gratificantes ao mesmo tempo. Não desperdicei mais nenhuma chance de aprender. Até hoje aprendo. Jamais deixarei de aprender. O que mais me faz querer ser salvo por Cristo é ter uma vida eterna para aprender. Sou egoísta! Aliás, Adão, nosso primeiro pai, caiu por que queria aprender o que não devia...
Estes escritos são muito mais uma homenagem a essas pessoas do que simplesmente um desejo narcisista de deixar impressa minha vida para os pósteros.
No próximo post tratarei de minha vida acadêmica, como aluno da EIS, da Etfam e da UA (hoje Ufam).

Minha vida - Parte I (Careiro, 1954-1960)

Nasci em Manaus em 30.07.1954, na rua de Ramos Ferreira, entre as ruas de Jônthas Pedrosa e de Visconde de Porto Alegre.
Na verdade, a família de minha mãe era do Careiro (da várzea, pois o do "Castanho" ainda não existia). Essa família se constituía de dois troncos da família Pinheiro, uma oriunda de Crato, no Ceará (dos meus avós maternos, Guilherme e Maria), e outra oriunda de Granito (de meu pai e avós paternos). Meu pai se chamava Waldetário Pinheiro de Almeida e minha mãe Alzira Pinheiro de Almeida. Aliás, meu pai se apresentava com dois nomes: um quando estava sóbrio, e outro, Walter Dário, quando estava "trêbado". Em razão de ter provalvemente abandonado a servidão dos seringais como "soldado" da borracha, aí por volta de 1942-45.
Meu pai, portanto, tenha o nome que tiver, veio para o Amazonas em 1941 como "soldado da borracha" e foi direto para os seringais do Purús, Acre, Boca do Acre, saindo de lá possivelmente em fuga do sistema servil a que fora submetido, ou seja, como desertor do exército. Ao chegar no Careiro da Várzea, conheceu minha mãe e com ela se casou. Ambos tinham 33 anos de idade.
Meu nascimento em Manaus foi fruto da enchente de 1953, uma das maiores de todos os tempos. Minha mãe foi a Manaus para ficar em casa de minha tia Alice Pinheiro Bastos, onde nasci. Portanto, sou manauara graças a um evento cíclico da natureza. Tanto é que logo após as águas baixarem minha mãe retornou comigo para o Careiro, onde vivia no sítio herdado de meus avós - uma estreita faixa de terra de cerca de 150m de frente que se estendia até ao lago dos Reis, ao fundo. Portanto, a minha memória mais antiga é referente à vida de criança que levava nesse paraíso da várzea, juntamente com meu irmão Renato, nascido em 1956.
A fertilidade de suas terras de várzea e de seus lagos, proporcionavam momentos indizíveis na minha vida e do meu irmão, na verdade de qualquer ser humano que tenha o privilégio de viver imerso em um ambiente pródigo em fauna e flora de rara belezas, ao mesmo tempo um ambiente desafiador pela completa ausência de elementos do Estado, onde o caboclo vivia sua vida como que "esquecido de Deus e dos homens". Ali não se conhecia dinheiro, pois as trocas de produtos por produtos era rotina natural, o velho escambo, com valores nem sempre justos.
A caça e a pesca eram atividades "obrigatórias", assim como a criação de animais como bois, porcos, galinhas, ovelhas, cabras e outros. Também se plantava de tudo o que da terra se podia colher - e a terra ali dava de tudo!
Meu pai, oriundo do Nordeste, do sertão onde Pernambuco e Ceará se encontram, na serra do Araripe, entre Crato-CE e Granito-PE, onde a água desaparece como que por encanto, que meu pai tinha de ir em sua busca por léguas em lombo de jumento, se maravilhava com tanta água e terra fértil aqui no Amazonas. Ele era violeiro, ourives, carpinteiro, dentre outras artes que dominava, e também sabia cultivar a terra com esmero, da qual extraía de tudo: tomate, pimentão, cebolinha, couve, pepino, limão, batata, macacheira (aipim), mandioca, farinha, feijão de metro, além de frutas como manga, abacate, melancia, melão, etc., produtos esses que "vendia" por quase nada ao atravessador que passava de madrugada de porto em porto recoclhendo os produtos para revender em Manaus por preço absurdamente alto, como até hoje acontece.
Portanto, meu pai, que fugira do seringal em razão da servidão a que fora submetido, via que outra servidão lhe reservara a falta de apoio a atividades como a agricultura, por parte do governo amazonense, como até hoje se verifica, como se fosse uma determinação atávica e insuperável. Mesmo  após  a criação pelo governador Plínio Coelho, nos anos de 1955-59, das empresas amazonenses "Trasnportamazon", "Alimentamazon", "Celetramazon", dentre outras, para dar suporte às atividades do interior, tirando o Amazonas do estado de "porto-de-lenha" em que se encontrava. Assim, meu pai preferia ganhar a vida como "cantador" nas noites das fazendas, e como ourives, de dia, ao longo dos paranás e rios do Careiro e arredores como Autazes, Varre Vento, Terra Nova, Anveres, Janauacá, Manaquiri, etc., em longas jornadas de 3 meses, voltando ao final para casa, por poucos dias, e retornando a suas "turnês artísticas", tornando a sua viola em instrumento inseparável, com o qual acompanhava o canto dos cordéis, dos "desafios", dos "martelos" e dos "galopes". Infelizmente, bebia muito. Cachaça. Por isso não me dediquei, infelizmente, a aprender a tocar viola e cantar, cujo dom me era dadivosamente também estendido por Deus. Meu filho André hoje faz as honras da casa levando sua arte aos salões sacros da Igreja Adventista, para honra e glória de Deus.
Infelizmente, minha mãe acabou por aceitar a sugestão de meu pai e vender o sítio do Careiro e se transferir para Manaus, ficando apenas com um sexto do valor, o que se deu em 1960, quando a família já contava com 5 membros: eu, pai, mãe e dois irmãos - Renato, que nasceu em 1956, e minha irmã Jânia (em homenagem ao presidente Jânio Quadros), nascida justamente em 1960.
No próximo post tratarei de minha vida, dos 6 aos 10 anos, em Manaus.


28 novembro 2012

Lula: "o Bebum de Rosemary"

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Publicado no blog de Augusto Nunes (Veja.com)

Charge de Sponholz fornece o título que faltava para a chanchada pornopolítica

A versão brasileira do grande filme de Roman Polansky tem tudo para transformar-se num clássico da chanchada pornopolítica. O título provisório ─ “Os bebês de Rosemary” ─ tropeçava num problema: inspirado nos irmãos Paulo Vieira e Rubens Vieira, homenageava dois gatunos que, embora desempenhem papéis que qualquer ator talentoso cobiçaria, não são os protagonistas da história.
A grande charge de Sponholz liquidou o assunto. A versão brasileira de “O Bebê de Rosemary” já tem título definitivo.

27 novembro 2012

A fábula do partido que criou a “Carteirinha Corrupção”

Este texto do Reinaldo Azevedo é daqueles impossíveis de não se gostar. Leiam:

O PTT, num país chamado Banânia, criou a Carteirinha Corrupção!

Os meus leitores sabem do apreço que tenho por Robert Musil e por “O Homem Sem Qualidades”. Os eventos — ou não eventos — que ele narra se passam num país chamado Kakânia.
Kakânia é um lugar imaginário em que a corrupção, quando há, se dá na esfera das vontades; as covardias, nunca grandes demais, se revelam na área do intelecto; a decadência, inexorável, é a da inteligência. As pusilanimidades são quase existenciais, traduzidas por suspiros, nunca por estrondos (esse contraste já é um clichê, mas não resisti).
Falta a Kakânia a exuberância tropical. Não socorrem aquele país os pistoleiros do sangue quente que estão abaixo da linha do Equador, onde só há perdão, nunca pecado. Kakânia não conhece as graças bonachonas e incivilizadas do “homem cordial”. Kakânia não tem nem mesmo o hábito de punir os santos, como se faz, dizem, em certo país ignoto, de que falarei. E é punição preventiva, com características de chantagem e tortura! Põe-se, por exemplo, a imagem do santinho de ponta-cabeça, às vezes mergulhado num copo d’água. Se ele quiser sair daquela situação difícil, que trate de realizar o desejo do esperançoso e doce torturador. É a forma que a crença tomou, dizem, em tal terra estranha.
Chamemos aquelas paragens exuberantes, em homenagem a Musil, de Banânia. Pronto! Em Banânia, os amores e os ódios estão sempre à flor da pele. Banânia não tem ascetas e monges para inspirar uma filosofia da contemplação e da medida; para exaltar as ideias “magras e severas”. Em Banânia, os que pensam a economia do espírito são os sátiros e os beberrões. O direito do outro e o direito dos outros são vistos como censura à liberdade individual e incapacidade para o gozo. Qualquer um, em Banânia, pode ser ruim da cabeça; a única coisa indesculpável é ser doente do pé. Os bananienses são, à sua maneira, fatalistas e acham que não há homem na Terra que resista a certas paixões, como caipirinha (bebida local) e bundalelê (bundalelê local).
A carteirinha
Este país singular, conta-me um nativo, deu à luz uma nova forma de gestão do Estado que é a “Carteirinha Corrupção”. É isto mesmo. Ela é fornecida por um partido político para evitar que os amorosos achacadores, olê, olê, olê, olá, exagerem na cobrança de propina. Eu explico.
Deu-se em Banânia algo realmente notável. Empresas das mais diversas áreas, prestadoras de serviço ou fornecedoras, têm duas tabelas: uma para seus parceiros da própria iniciativa privada e outra para o governo. O Poder Público, em Banânia, costuma contratar serviços por um preço que pode corresponder a cinco vezes o valor de mercado. É que vai embutida, entre outras delicadezas da civilização da cordialidade, a propina que tem de ser paga ao partido (em Banânia, quem dá as cartas é o PTT), ao chefe da área, ao chefão do chefão…
Conta-me um nativo de Banânia que, num desses acertos de conta mensais, o representante do “Sistema” afirmou que o valor que estava na maleta já não era mais suficiente; doravante, teria de ser o dobro. O pagador se espantou e resolveu subir a escala hierárquica para reclamar: “Como pode? Assim o negócio fica inviável!”.
Recebeu, então, uma “carteirinha” — a “Carteirinha Propina”. Foi informado de que o documento o protegia de achacadores fora do controle, entenderam? Aquele documento deixaria claro que ele já era um “colaborador” e que nada de extra lhe poderia ser, então, exigido.
Banânia, vejam vocês, é, então, este país encantador, notório por sua aversão à institucionalização de procedimentos; conhecido por sua hostilidade a um estado impessoal, que fosse gerido por um burocracia regular, estatutária, avessa a arranjos e jeitinhos. Ao contrário: esse país gosta da informalidade e considera que a rigidez legal é coisa de povos tristes, que ainda não se deixaram amolecer pelos trópicos. E é justamente essa Banânia a ter esses caprichos, não é?, que resultam na formalização da corrupção e da propina. É, assim, como se fosse um passe-livre fornecido por um comando militar em tempos de guerra, que dá ao portador o direito de ir e vir sem ser importunado pela soldadesca de mais baixa estirpe.
Isso acontece em Banânia, conta-me o nativo da terra. Ele me disse que o tal PTT sempre considerou que faltava à economia de mercado a devida dimensão ética, que consiste, ele entende agora, não na criação de uma ética do mercado, mas de um mercado da ética.
Eu fiquei espantadíssimo com os sucessos de Banânia. E mais espantado fiquei quando ele me contou que se descobriu que uma quadrilha operava no coração do próprio governo. “Mas a imprensa no seu país, ao menos, é livre, né?”, indaguei. Ele me disse que sim. “Que bom! Ao menos isso!” Mas aí ele emendou: “É livre, sim! E boa parte dela está aplaudindo o governo que nomeou a quadrilha por sua suposta coragem de demiti-la”.
Olhei com tristeza e até com compaixão meu amigo de Banânia!

23 novembro 2012

Lula e o seu desprezo pelo Congresso: ‘Missão cumprida’, por Dora Kramer


PUBLICADO NO ESTADÃO DESTA SEXTA-FEIRA
DORA KRAMER
O desrespeito do cidadão Luiz Inácio da Silva pelo Congresso ficou conhecido quando qualificou a Casa como reduto de “300 picaretas”. Faz quase 20 anos.
Sua indiferença pelo Legislativo já ficara patente na atuação displicente e inexpressiva passagem como deputado constituinte.
Quando Lula ganhou a eleição para presidente, logo ficou claro que além do desdém havia o intento de investir na desqualificação do Parlamento. Fazê-lo servil, enquadrá-lo de vez ao molde da presumida vigarice.
Não é conjectura, é fato: foi a partir de 2003 que o chamado baixo clero passou a assumir posição de destaque, a dominar os postos importantes, a assumir posições estratégicas.
Era uma massa até então quase incógnita, em sua maioria bastante maleável às investidas do Executivo e disposta a fazer do mandato um negócio lucrativo.
Note-se que na época o encarregado de fazer a “ponte” entre o Parlamento e o Planalto era ninguém menos que Waldomiro Diniz, o braço direito de José Dirceu na Casa Civil, cujos métodos ficariam conhecidos quando apareceu um vídeo onde extorquia o bicheiro Carlos Cachoeira.
A maneira como seria tratado o Congresso era perceptível no tom das lideranças petistas recentemente investidas no poder, quando a conversa era a formação da base governista.
Não se falava em compra financeira de apoio tal como se viu depois quando Roberto Jefferson rompeu a lei da Omertà e denunciou o mensalão, mas se dizia abertamente que a cooptação seria fácil agora que estavam na posse do aparelho de Estado.
Uma das consequências dessa inflexão ladeira abaixo foi o isolamento gradativo e por vezes voluntário, de deputados e senadores de boa biografia, com nome a zelar e atuação legislativa relevante.
Ao longo dos dois mandatos de Lula o Parlamento “caiu” na mesma proporção em que a figura do presidente se sobressaiu, em franca evidência de desequilíbrio entre Poderes.
Com o patrocínio da CPI que se encerra em grau inédito de desmoralização, cujo sentido vexativo não será eliminado com um remendo no relatório final, o ex-presidente conseguiu completar sua obra e cumprir o vaticínio sobre os “300 picaretas”.
Não que não existam. Existem e pela degeneração do desempenho é possível que seja esse o número aproximado. Mas o Congresso não é só isso e disso dá notícia outra época em que ali a regra era a atividade política. As transações condenáveis se não chegavam a ser exceção, ao menos ficavam relegadas a um segundo plano.
Embora quem não acompanhe de perto o Parlamento seja cético quanto a isso, as coisas por lá já foram muito diferentes. E se foram melhores podem voltar a ser.
Cabe ao Poder Legislativo compreender a gravidade da derrocada nesse poço que parece não ter fundo, reunir as parcas forças ali ainda existentes e de alguma maneira reagir para o bem da saúde democrática.
Supremacia. Consistente, firme, autônomo, convicto de seus valores. Assim pareceu o novo presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, em seu discurso sem enfeites.
Defendeu uma Justiça que não tarde, não falhe e preserve a independência do juiz. Assim como ele.
Celebrá-lo pelo quesito cor da pele é olhar só a parte de fora de uma obra sólida.
Desfeita. Se com o semblante fechado a presidente Dilma Rousseff quis demonstrar contrariedade em relação ao ministro Joaquim Barbosa, conseguiu destacar-se pela deselegância em momento de homenagem.
Queira o bom senso que a presidente não tenha escolhido a fisionomia zangada pelo mesmo critério que o deputado Odair Cunha escolheu os indiciados no relatório da CPI: para dar uma satisfação a Lula.

19 novembro 2012

MEC: um dia "nós pega os peixe"...

Leiam o que informa a VEJA Online:
As metas para o ensino médio brasileiro em 2012 não foram alcançadas, revela relatório do Ministério da Educação publicado nesta segunda-feira no Diário Oficial da União. Tanto o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) como a taxa de frequência escolar para esse ciclo do ensino ficaram aquém do esperado pelo governo. 
A avaliação de desempenho é referente ao período de 1º de novembro de 2011 a 31 de outubro de 2012. Em uma escala de 1 a 10, o governo estabeleceu que o ensino médio brasileiro deveria atingir 3,8 pontos no Ideb, que combina o desempenho em exames nacionais com a taxa de reprovação. Contudo, a nota obtida foi 3,7 pontos.
Também nas séries finais do ensino fundamental (5º a 9º ano), o desempenho ficou ligeiramente abaixo do estabelecido pelo MEC, 4,1 pontos, sendo que o esperado era 4,2 pontos. A única etapa que superou as expectativas foram as séries iniciais do ensino fundamental (1º a 4º ano): nota 5 pontos, ante os 4,8 pontos esperados.
No quesito frequência escolar, as metas para o ensino médio também não foram atingidas, aponta o balando do MEC. Para o período analisado, esperava-se que 86% dos jovens entre 15 e 17 anos estivessem na escola, mas apenas 83,7% estavam matriculados em uma instituição de ensino no período analisado. 
Já a taxa de frequência das outras etapas da educação básica evoluíram dentro do esperado. Atualmente, 20,8% das crianças entre 0 e 3 anos estão matriculadas em creches, superando os objetivos para este ano (20%). A pré-escola abriga 77,4% das crianças entre 4 e 5 anos (a meta era de 76%) e o ensino fundamental está perto da universalização, abrigando 98,2% dos brasileiros entre 6 e 14 anos (a meta era de 98%). 
No ensino superior, as duas metas estabelecidas pelo MEC foram cumpridas. A primeira delas previa um crescimento de 2% das matrículas. De acordo com dados do último censo, esse crescimento ultrapassou os 6%. A pasta do ministro Aloizio Mercadante previa ainda a publicação de 3.000 atos regulatórios e de supervisão dos cursos superiores. O balanço desta segunda-feira aponta que foram mais de 6.000. 
Já os objetivos para o ensino técnico foram negligenciadas. O principal deles previa abertura de 108 novas unidades dos institutos de educação tecnológica e profissional, vinculadas aos Institutos de Educação, Ciência e Tecnologia (Ifes). No entanto, foram abertas de fato apenas 30 unidades.

16 novembro 2012

MENSALÃO: “Querer evitar a prisão de políticos poderosos e banqueiros pretextando a péssima situação do sistema carcerário é debochar da opinião pública”

Alguém já disse que o PT começou com "presos políticos" e vai terminar com "políticos presos". Será por isso que está tão preocupado agora com o estado dos presídios nacionais? Não contavam com a condenação! Devem agora começar a construir cadeias dignas de sua cúpula partidária.
Vejam o que disse Merval Pereira:

Celso de Mello: "Superlotação na delegacia do município de Serra, no Espírito Santo, transformada em cadeia" (Foto: Claudio Gatti)
Superlotação na delegacia de Serra (ES), transformada em cadeia. Para Celso de Mello, o no sistema prisional brasileiro "é um depósito de presos, pessoas abandonadas à própria sorte por irresponsabilidade do poder público" (Foto: Claudio Gatti)

FUGINDO DA CADEIA

Por Merval Pereira, em O Globo

É meio vergonhoso para o PT, há dez anos no poder, que a situação desumana de nosso sistema penitenciário vire tema de debate só agora que líderes petistas estão sendo condenados a penas que implicam necessariamente regime fechado.
Chega a ser patético que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, no final das contas responsável pelo monitoramento das condições em que as penas são cumpridas, diga em público que preferiria morrer caso fosse condenado a muitos anos de prisão.
Dois anos no cargo, e o ministro só se mobiliza para pôr a situação das prisões brasileiras em discussão no momento em que companheiros seus de partido são condenados a sentir na própria pele as situações degradantes a que presos comuns estão expostos há muitos e muitos anos, os dez últimos sob o comando do PT.
Também o ministro revisor Ricardo Lewandowski apressou-se a anunciar que muito provavelmente o ex-presidente do PT José Genoino vai cumprir sua pena em prisão domiciliar porque não há vagas nos estabelecimentos penais apropriados para reclusões em regime semiaberto.
Ministro José Eduardo Cardozo: declaração patética para quem deveria monitorar as condições em que as penas são cumpridas (Foto: Wilson Dias / Agência Brasil)
Para culminar, vem Dias Toffoli defender que as condenações restritivas da liberdade sejam trocadas por penas alternativas e multas em dinheiro. Tudo parece compor um quadro conspiratório para tentar evitar que os condenados pelo mensalão acabem indo para a cadeia, última barreira a ser superada para que a impunidade que vigora para crimes cometidos por poderosos e ricos deixe de ser a regra.
Dias Toffolli, para justificar sua tentativa de tirar da cadeia os petistas condenados, defendeu a tese de que eram meros assaltantes dos cofres públicos, sem objetivos políticos: “Os réus cometeram desvios com intuito financeiro, não atentaram contra a democracia, que é mais sólida que tudo isso! Era o vil metal. Que se pague com o vil metal.”
Luiz Fux chegou a lembrar que apenas o Congresso pode mudar o Código Penal, que no momento estipula penas restritivas de liberdade para o tipo de crime que está sendo julgado.
Gilmar Mendes, que, quando foi presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), comandou mutirão nacional para regularizar a situação de condenados em situação irregular nas cadeias depois de cumpridas as penas, lamentou que o ministro da Justiça tivesse falado só agora, “já que esse tema é conhecido desde sempre e é muito sério”.
Ele não esqueceu a culpa da própria Justiça, que “não consegue julgar no tempo adequado estas questões”, mas ressaltou que “há uma grande responsabilidade de todos os governos se aí não há recursos para fazer presídios”.
O decano do Supremo, Celso de Mello, foi objetivo sobre “a grande a responsabilidade do Ministério da Justiça”, lembrando que um dos órgãos mais expressivos na estrutura penitenciária é o Departamento Penitenciário Nacional, ao qual cabe acompanhar as normas de execução penal em todo o território nacional, fiscalizar periodicamente o sistema prisional.
“O que temos visto no sistema prisional brasileiro é um depósito de presos, pessoas abandonadas à própria sorte por irresponsabilidade do poder público. É importante que o ministro tenha feito essa observação de maneira muito cândida, mas é preciso que o poder público exerça a parte executiva, sob pena de se frustrar a finalidade para a qual a pena foi concebida”, ressaltou Celso de Mello.
Para o decano da Corte, a prática da lei de execução penal “tornou-se um exercício irresponsável de ficção jurídica, uma vez que o Estado mantém-se desinteressado desta fase delicadíssima de implantação das sanções penais proclamadas pelo Poder Judiciário”.
E lembrou que um artigo da Lei de Execução Penal determina que a pena deve ser cumprida em um local com dormitório, aparelho sanitário e lavatório, salubridade do ambiente, área mínima de seis metros quadrados. E o que se tem em realidade é um “inferno carcerário”.
Querer evitar a prisão de políticos poderosos e banqueiros pretextando a péssima situação de nosso sistema carcerário é debochar da opinião pública, menosprezar os que já estão vivendo essa situação degradante e não encarar um problema gravíssimo que exige política de governo em vez de uma esdrúxula campanha.

15 novembro 2012

Más notícias: governo usa a Petrobras para segurar a inflação, empresa não cumpre metas — e o país voltará a importar petróleo em 2013

Publicado no blog de Ricardo Setti (Veja.com):

EQUAÇÃO NEGATIVA -- Plataforma da Petrobrás na Bacia de Campos: a eficiência operacional caiu e equipamentos foram entregues com atraso, impedindo a prospecção de novos poços (Foto: Bruno Domingos / Reuters)
EQUAÇÃO NEGATIVA -- Plataforma da Petrobrás na Bacia de Campos: a eficiência operacional caiu, equipamentos foram entregues com atraso, impedindo a prospecção de novos poços, e a meritocracia entre funcionários cedeu lugar a exigências sindicais (Foto: Bruno 
Domingos / Reuters)

Matéria de Helena Borges, com reportagem de Marcelo Sakate, publicada em edição impressa de VEJA

 O ENROSCO DO SUBSÍDIO
Dilma manda a Petrobras segurar o preço dos combustíveis para conter a inflação, mas isso debilita a empresa e mata a autossuficiência
Foi bom enquanto durou. No próximo ano, o Brasil voltará a ser dependente da importação de petróleo. Adeus, autossuficiência, celebrada com fervor nacionalista em 2006, quando o país passou a produzir mais petróleo do que consumia.
O então presidente Lula deu contornos épicos ao feito, que comparou à “segunda independência do Brasil”. A propaganda escondia que a conquista da autossuficiência ainda deixava um déficit na conta externa de energia, pois o Brasil continuaria a vender petróleo cru e a importar gasolina e diesel.
Porém, apesar do saldo externo negativo, produzir tanto petróleo internamente ajudou a diminuir a vulnerabilidade da economia a choques externos, como os catastróficos eventos das décadas de 70 e 80, quando a produção brasileira de petróleo totalizava menos de um décimo da atual. Voltar a ser dependente da importação é, portanto, uma má notícia.
Um estudo inédito do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), obtido com exclusividade por VEJA, mostra que, já em 2013, o Brasil estará consumindo mais óleo do que será capaz de produzir. Se teve seus méritos na conquista da autossuficiência, o governo também é culpado pela perda desse privilégio.
Feitiçarias heterodoxas
Por duas razões: a primeira foi forçar a Petrobras a subsidiar o preço ao consumidor da gasolina e do diesel, mantendo-o estável mesmo com o aumento do custo internacional do petróleo; a segunda foi incentivar a venda de carros novos com crédito farto e corte de impostos, o que aumentou a frota nacional e, claro, o consumo.
Essas feitiçarias heterodoxas têm efeitos imprevisíveis. Ao proibir a Petrobras de repassar os aumentos ao preço do petróleo, o governo conseguiu impedir um acréscimo médio de cerca de 0,4 ponto porcentual no índice de inflação, que já está bem acima da meta de 4,5% estipulada para 2012.
Mas, ao bancar o subsídio, que só neste ano já provocou um prejuízo de 12,8 bilhões de reais, a Petrobras perdeu sua capacidade de investimento, não modernizou os poços já produtivos, interrompeu a prospecção de novas jazidas e atrasou a extração da riqueza do óleo de grande profundidade, o pré-sal.
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Dilema que não tem solução fácil nem indolor
Como despiu um santo para vestir outro, a presidente Dilma Rousseff se encontra agora em um dilema severo. Se desafogar o caixa da Petrobras autorizando o repasse dos preços externos, a inflação subirá mais rapidamente.
Se mantiver a política de subsídio pela companhia, vai se arriscar não apenas a perder a autossuficiência como a entrevar irreparavelmente a empresa que é orgulho nacional, o retrato a óleo do Brasil emoldurado pelos sonhos de grandeza de tantas gerações. Esse dilema não tem solução fácil nem indolor. É uma daquelas situações em que as opções são perder ou perder.

12 novembro 2012

Marco Antonio Villa: Lula é um Pedro Malasartes da República em frangalhos

(Publicado no blog de Augusto Nunes (Veja.com)

Gerado pela cultura popular da Península Ibérica, Pedro Malasartes transformou-se, em sua versão brasileira, num matuto espertalhão, que coleciona embustes amparado na astúcia, no cinismo, na falta de escrúpulos e na ausência de remorsos. Um Lula, constatou  o historiador Marco Antonio Villa no artigo “Tempos sombrios, tempos petistas”, publicado no Estadão deste domingo. Mais uma leitura indispensável. (AN)
Luiz Inácio Lula da Silva está calado. O que é bom, muito bom. Não mais repetiu que o mensalão foi uma farsa. Também, pudera, após mais de três meses de julgamento público, transmitido pela televisão, com ampla cobertura da imprensa, mais de 50 mil páginas do processo armazenadas em 225 volumes e a condenação de 25 réus, continuar negando a existência da “sofisticada organização criminosa”, de acordo com o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, seria o caso de examinar o ex-presidente. Mesmo com a condenação dos seus companheiros ─ um deles, o seu braço direito no governo, José Dirceu, o “capitão do time”, como dizia ─, aparenta certa tranquilidade.
Como disse o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), Lula é “um sujeito safo”. É esperto, sagaz. Conseguiu manter o mandato, em 2005, quando em qualquer país politicamente sério um processo de impeachment deveria ter sido aberto. Foi uma manobra de mestre. Mas nada supera ter passado ao largo da Ação Penal 470, feito digno de um Pedro Malasartes do século 21.
Mas se o silêncio público (momentâneo?) de Lula é sempre bem visto, o mesmo não pode ser dito das articulações que promove nos bastidores. Uma delas foi o conselho para que Dilma Rousseff não comparecesse à posse de Joaquim Barbosa na presidência do STF. Ainda bem que o bom senso vigorou e ela vai ao ato, pois é presidente da República, e não somente dos petistas. O artífice de diversas derrotas petistas na última eleição (Recife, Belo Horizonte e Campinas são apenas alguns exemplos) continua pressionando a presidente pela nomeação de um “ministro companheiro” na vaga aberta pela aposentadoria de Carlos Ayres Brito. E deve, neste caso, ser obedecido.
O ex-presidente quer se vingar do resultado do julgamento do mensalão. Nunca aceitou os limites constitucionais. Considera-se vítima, por incrível que pareça, de uma conspiração organizada por seus adversários. Acha que tribunal é partido político. Declarou recentemente que as urnas teriam inocentado os quadrilheiros. Como se urna fosse toga. Nesse papel tem apoio entusiástico do quarteto petista condenado por corrupção ativa, peculato, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Eles continuam escrevendo, dando entrevistas, participando de festas e eventos públicos, como se nada tivesse acontecido. Ou melhor, como se tivessem sido absolvidos.
O que os petistas chamam de resistência não passa de um movimento orquestrado de escárnio da Justiça. José Dirceu, considerado o chefe da quadrilha por Roberto Gurgel, tem o desplante de querer polemizar com o ministro Joaquim Barbosa, criticando seu trabalho. Como se ele e Barbosa estivessem no mesmo patamar: um não fosse condenado por corrupção ativa (nove vezes) e formação de quadrilha e o outro, o relator do processo e que vai assumir a presidência da Suprema Corte. Pior é que a imprensa cede espaço ao condenado como se ele – vejam a inversão de valores da nossa pobre República ─ fosse uma espécie de reserva moral da Nação. Chegou até a propor o financiamento público de campanha. Mas os petistas já não o tinham adotado?
Outro condenado, João Paulo Cunha, foi recebido com abraços, tapinhas nas costas e declarações de solidariedade pelos colegas na Câmara dos Deputados. Já José Genoino pretende assumir a cadeira de deputado assim que abrir a vaga. E como o que é ruim pode piorar, Marco Maia, presidente da Câmara, afirmou que a perda de mandato dos dois condenados é assunto que deve ser resolvido pela Casa, novamente desprezando a Constituição.
O julgamento do mensalão desnudou o Partido dos Trabalhadores (PT). Sua liderança assaltou o Estado sem pudor. Como propriedade do partido. Sem nenhum subterfúgio. Os petistas poderiam ter feito uma autocrítica diante do resultado do julgamento. Ledo engano. Nada aprenderam, como se fossem os novos Bourbons. Depois de semanas e semanas com o País ouvindo como seus dirigentes se utilizaram dos recursos públicos para fins partidários, na semana que passou Dilma (antes havia se reunido com o criador por três horas) recebeu no Palácio da Alvorada, residência oficial, para um lauto jantar, líderes do PT e do PMDB. A finalidade da reunião era um assunto de Estado? Não. Interessava apenas aos dois partidos. Fizeram uma analise das eleições municipais e traçaram planos para 2014. Ninguém, em sã consciência, é contrário a uma reunião desse tipo. O problema é que foi num prédio público e paga com dinheiro público. Imagine o leitor se tal fato ocorresse nos EUA ou na Europa. Seria um escândalo. Mas na terra descoberta por Cabral, cujas naus, logo vão dizer, tinham a estrela do PT nas velas, tudo pode. E quem protesta não passa de golpista.
Nesta República em frangalhos, resta esperar o resultado final do julgamento do mensalão. As penas devem ser exemplares. É o que o STF está sinalizando na dosimetria do núcleo publicitário. Mas a Corte sabe que não será tarefa nada fácil. O PT já está falando em controle social da mídia, nova denominação da “censura companheira”. Não satisfeito, defende também o controle – observe o leitor que os petistas têm devoção pelo Estado todo-poderoso ─ do Judiciário (qual, para eles, deve ser a referência positiva: Cuba, Camboja ou Coreia do Norte?). Nesse ritmo, não causará estranheza o PT propor que a Praça dos Três Poderes, em Brasília, tenha somente dois edifícios… Afinal, “aquele” terceiro edifício, mais sóbrio, está criando muitos problemas.
O País aguarda o momento da definição das penas do núcleo político, especialmente do quarteto petista. Será um acerto de contas entre o golpismo e o Estado Democrático de Direito. Para o bem do Brasil, os golpistas mensaleiros perderam. Mais que perderam. Foram condenados. E serão presos.

03 novembro 2012

Ministra Eliana Calmon

Vejam uma síntese sobre a minstra Eliana Calmon (ex-presidente do CNJ), em Ricardo Setti (Veja.com):
DIRETO NO FÍGADO: a condenação dos poderosos envolvidos com o mensalão é bom pretexto para lembrar das frases cortantes da “ministra sem papas na língua”, Eliana Calmon

Ministra Eliana Calmon, com sua língua afiada
Ministra Eliana Calmon, a ministra sem papas na língua: trajetória e frases marcantes em dois anos como corregedora do Conselho Nacional de Justiça (Foto: Dedoc / Editora Abril)
Amigas e amigos do blog, as condenações que o Supremo Tribunal Federal vem impondo à quadrilha que comandou e fez operar o escândalo do mensalão fazem surgir no horizonte a perspectiva de que, enfim, figurões da política e do poder possam pagar por seus crimes.
É uma boa hora, então, para relembrar a recente trajetória da ministra do Superior Triubnal de Justiça Eliana Calmon como corregedora do Conselho Nacional de Justiça, cargo cuja função era fiscalizar e propor punições a juízes e tribunais que saíssem da linha.
Ela deixou o posto em setembro, após dois anos de trabalho, de mais de uma centena de juízes punidos e de uma franqueza que teve dois resultados: provocou críticas e boicotes por parte de colegas magistrados, e um grande aplauso da sociedade à “ministra sem papas na língua”.
Criadora, entre outras expressões, da fortíssima “bandidos de toga” para se referir a juízes corruptos, o blog homenageia a ministra — cuja atuação como que antecipou o que agora ocorre com os mensaleiros no Supremo — relembrando algumas de suas declarações marcantes e corajosas:
MENSALÃO –  ”O Supremo está dizendo que a corrupção, que durante dois séculos reinou neste país, a partir de agora tem um freio, e esse freio está no Poder Judiciário. Não haverá mais tolerância com a corrupção. Não tenho dúvida de que isso já está provocando mudanças nos planos de certos bandidos, inclusive os de toga”. —  VEJA, em 10 setembro de 2012
BANDIDOS DE TOGA – “Acho que [a atuação disciplinar do Conselho Nacional de Justiça] é o primeiro caminho para a impunidade da magistratura, que hoje está com gravíssimos problemas de infiltração de bandidos que estão escondidos atrás da toga” — Entrevista à Associação Paulista de Jornais (APJ), em 27 de setembro de 2011
JUIZ NÃO TEM AMIGOS – ”Eu só sou magistrada, não tenho aptidão para a política. Sou uma pessoa que fala as coisas, não faço favores. Os meus amigos dizem ‘Eliana não faz favores, não é amiga dos amigos’. Eu sou amiga, mas dentro da minha atividade profissional eu não tenho amigo, não faço favor porque é uma questão de princípio. No dia em que fizer um favor, eu faço dez”. — Estadão,em 13 de agosto de 2012
MAGISTRATURA SÉRIA X VAGABUNDOS INFILTRADOS – “Precisamos abrir diversos flancos para falar o que está errado dentro da nossa casa. Faço isso em prol da magistratura séria, decente e que não pode ser confundida com meia dúzia de vagabundos que estão infiltrados na magistratura” — Audiência na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, em 28 de fevereiro de 2012
[JUIZ] CORRUPTO NÃO DEIXA DOCUMENTO – “É muito difícil [magistrado] corrupto deixar documento. Vou me valendo das provas que estão em inquérito ou que estão no Superior Tribunal de Justiça. Essas investigações patrimoniais são importantes porque através do imposto de renda e também desse compartilhamento de quebra de sigilo eu posso fazer alguma coisa” – Audiência na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, em 28 de fevereiro de 2012
TRUQUES QUE AUMENTAM SALÁRIOS – “Estamos encontrando o seguinte: desembargadores ganham o teto, 26 mil reais, mas durante três meses do ano vem um penduricalho onde se dá uma gratificação monstruosa. Se somarmos tudo e dividirmos por 12, eles não ganham 26 (mil), ganham 50, 40 (mil)”. – Audiência na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, em 28 de fevereiro de 2012
MARACUTAIAS NOS PRECATÓRIOS – “O precatório [título de dívida dos governos para com pessoas e empresas] está todo desorganizado e, muitas vezes, a desordem é para encobrir o malfeito” – Agência Brasil (entrevista coletiva), em 13 de fevereiro de 2012
CORPORATIVISMO E ELITISMO – “Estamos removendo 400 anos de representação elitista dentro do Judiciário (…) A modernidade vai tomando conta dos espaços públicos e deixando engessados os movimentos corporativistas” – Estadão, em 7 de fevereiro de 2012
A rebelde ministra: "Não faço favores" (Foto: GF fotografias)
A ministra, segundo a qual o Judiciário vive "gravíssimos problemas de infiltração de bandidos que estão escondidos atrás da toga" (Foto: GF fotografias)
SÍMBOLO – “Acabei simbolizando um movimento de abertura do Judiciário” — Estadão, em 7 de fevereiro de 2012
OS PODERES DO CNJ – “Eu me emocionei a cada voto, contra ou a favor, fiquei muito emocionada. Ao final, quando tudo terminou, falaram ‘O que você vai fazer?’. Eu disse ‘Eu vou dormir, porque não durmo há três meses’” – Agência Brasil (entrevista coletiva), em 3 de fevereiro de 2012 (sobre conflito judicial sobre as competências do CNJ, julgado favoravelmente ao Conselho pelo Supremo Tribunal Federal)
ASSOCIAÇÕES DE MAGISTRADOS MENTIRAM – “Só posso lamentar [a polêmica], fruto de maledicência e irresponsabilidade da AMB [Associação dos Magistrados Brasileiros], Ajufe [Associação dos Juízes Federais do Brasil] e Anamatra [Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho], que mentirosamente desinformam a população ou informam com declarações incendiárias e inverossímeis”, pretendendo fazer um “linchamento moral” – Declarações feitas num debate no auditório da Folha de S.Paulo, em 21 de novembro de 2011 (a ministra rebatia informações de associações de magistrados segundo as quais o Conselho Nacional de Justiça havia quebrado os sigilos bancários e fiscais de juízes e levaria a cabo uma investigação sobre 270 mil pessoas. Segundo ela, havia já quatro anos que a corregedoria do CNJ realizava investigações sobre patrimônio de juízes, com base em suas declarações de imposto de renda, atividade prevista na legislação)
COLARINHO BRANCO – “O senhor conhece algum colarinho branco preso?” – Roda Viva, TV Cultura, em 14 de novembro de 2011
“Eu não posso resolver todos os problemas do Judiciário…, mas eu me posiciono” – Roda Viva, TV Cultura em 14 de novembro de 2011
BANDIDOS INFILTRADOS – “Eu não tenho que me desculpar. Estão dizendo que ofendi a magistratura, que ofendi todos os juízes do país. Eu não fiz isso de maneira nenhuma. Eu quero é proteger a magistratura dos bandidos infiltrados” — Coluna de Mônica Bergamo, Folha de S.Paulo, em 28 de setembro de 2011
"Não terei tolerância" (Foto: Agência Brasil)
"Os bandidos (na Justiça) são minoria, uma coisa mínima, de 1%, mas fazem um estrago absurdo" (Foto: Agência Brasil)
MINORIA QUE FAZ UM GRANDE ESTRAGO — “A quase totalidade dos 16 mil juízes do país é honesta, os bandidos são minoria. Uma coisa mínima, de 1%, mas que fazem um estrago absurdo no Judiciário”  – Coluna de Mônica Bergamo, Folha de S.Paulo, em 28 de setembro de 2011
COMPLÔ PARA NÃO PUNIR – “As portas estão se fechando. Parece haver um complô para que não se puna ninguém no Brasil” – Coluna de Mônica Bergamo, Folha de S.Paulo, em 28 de setembro de 2011
A DIFICULDADE DE INSPECIONAR O TJ DE SÃO PAULO – “Sabe que dia eu vou inspecionar São Paulo? No dia em que o sargento Garcia prender o Zorro. É um Tribunal de Justiça fechado, refratário a qualquer ação do CNJ e o presidente do Supremo Tribunal Federal é paulista” — Entrevista à Associação Paulista de Jornais (APJ), em 27 de setembro de 2011
OS PIORES MAGISTRADOS ACABAM CHEGANDO AO TOPO – ‘Hoje é a política que define o preenchimento de vagas nos tribunais superiores, por exemplo. Os piores magistrados terminam sendo os mais louvados. O ignorante, o despreparado, não cria problema com ninguém porque sabe que num embate ele levará a pior. Esse chegará ao topo do Judiciário” — VEJA, em setembro de 2010
NOS TRIBUNAIS SUPERIORES, SÓ CRITÉRIO POLÍTICO – “Para ascender na carreira, o juiz precisa dos políticos. Nos tribunais superiores, o critério é única e exclusivamente político” – VEJA, em setembro de 2010
FRUTO DE UM SISTEMA – “Certa vez me perguntaram se eu tinha padrinhos políticos. Eu disse: ‘Claro, se não tivesse, não estaria aqui’. Eu sou fruto de um sistema. Para entrar num tribunal como o STJ, seu nome tem de primeiro passar pelo crivo dos ministros, depois do presidente da República e ainda do Senado. O ministro escolhido sai devendo a todo mundo”– VEJA, em setembro de 2010
Eliana Calmon, do CNJ (Foto: Valter Campanato / ABr)
"Nós, magistrados, temos a tendência a ficar prepotentes e vaidosos. Isso faz com que o juiz se ache um super-homem (...). Precisamos ter cuidado para ter práticas de humildade dentro do Judiciário" (Foto: Valter Campanato / ABr)
AUTO-DEFINIÇÃO COMO “REBELDE” – “Eu não sou a única rebelde nesse sistema, mas sou uma rebelde que fala”– VEJA, em setembro de 2010
JUIZ NÃO PODE SER PREPOTENTE NEM VAIDOSO – “Nós, magistrados, temos tendência a ficar prepotentes e vaidosos. Isso faz com que o juiz se ache um super-homem decidindo a vida alheia. Nossa roupa tem renda, botão, cinturão, fivela, uma mangona, uma camisa por dentro com gola de ponta virada. Não pode. Essas togas, essas vestes talares, essa prática de entrar em fila indiana, tudo isso faz com que a gente fique cada vez mais inflado. Precisamos ter cuidado para ter práticas de humildade dentro do Judiciário. É preciso acabar com essa doença que é a ‘juizite’”– VEJA, em setembro de 2010
RETRATO DE JUSTIÇA CARA, LENTA E INEFICIENTE – “Pela primeira vez [com a criação do CNJ], foram feitos diagnósticos oficiais do funcionamento da prestação jurisdicional, dos serviços cartorários. Pela primeira vez, veio a conhecimento de todos, até dos próprios protagonistas da função judicante, o resultado de uma justiça cara, confusa, lenta e ineficiente” — Discurso de posse como ministra do CNJ, em 8 de setembro de 2010
OS VILÕES DO PODER – “Não está sendo fácil corrigir os rumos, implantar práticas administrativas modernas, desalojar os vilões do Poder e, principalmente, mudar os usos e costumes de um Judiciário desenvolvido à sombra de uma sociedade elitista, patrimonialista, desigual e individualista”. – Discurso de posse como ministra do CNJ, em 8 de setembro de 2010
AVISO PRÉVIO – “Terei tolerância zero” – Discurso de posse como ministra do CNJ, em 8 de setembro de 2010

26 outubro 2012

Representação do procurador da República que pede a responsabilização criminal de Lula pelo mensalão

 
EXCELENTÍSSIMO SENHOR PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA, DOUTOR ROBERTO GURGEL.
No Brasil, muitas pessoas acreditam na impunidade. Parece que o ex-Presidente Lula não só acredita como tem certeza, e até fez piada com as irrisórias multas sofridas por sucessivas infrações à Lei Eleitoral. É preciso colocar um basta nisso, pois é inadmissível que o rigor da lei seja aplicado apenas ao pequeno infrator. Por exemplo, a Controladoria-Geral da União (CGU) anunciou que, durante o Governo Lula, quase três mil servidores do Executivo foram demitidos. Todavia, não há notícia de que a CGU tenha agido para apurar os gravíssimos fatos informados na Ação de Improbidade Administrativa, suporte desta representação.
Aliás, é bem provável que parte dessas demissões tenha ocorrido porque os servidores punidos se opuseram a práticas criminosas e foram perseguidos. Conforme registrado e demonstrado nesta peça, em 2004, a Coordenadora-Geral de Benefícios do INSS foi exonerada porque se recusou a publicar o convênio fraudulento, que proporcionou ao banco BMG faturar mais de três bilhões de reais em empréstimos a aposentados e pensionistas. Esse banco é suspeito de ter participado do esquema do mensalão.
O recente relatório da Polícia Federal (publicado na imprensa) não só ratifica como traz mais detalhes sobre o esquema do mensalão. Esta representação baseia-se nesse relatório e, principalmente, nos elementos de provas colhidos no Inquérito Civil Público nº 1.16.000.001672/2004-59, que angariou as provas que são utilizadas na Ação de Improbidade, proposta recentemente contra o ex-Presidente Lula. A ação de improbidade busca responsabilizá-lo civil e administrativamente por atos gravíssimos, que têm relação direta com o esquema do mensalão.
O objetivo da presente representação é instar a promoção da responsabilidade criminal do Sr. Luiz Inácio Lula da Silva, uma vez que as responsabilidades civil e administrativa são objeto da ação de improbidade há pouco ajuizada, que traz fatos gravíssimos diretamente ligados ao mensalão. Foi o ex-Presidente Lula quem praticou atos materiais que fomentaram esse gigantesco esquema criminoso, e sem a presença dele na ação penal, o STF não terá elementos para condenar os líderes, mormente os autores intelectuais do esquema criminoso, pois estes não praticaram atos materiais e não deixaram rastros. Do jeito que está, apenas os integrantes braçais da “sofisticada organização criminosa” (o mensalão no dizer da denúncia levada ao STF) serão condenados.
Por ano, cada brasileiro trabalha cerca de seis meses apenas para pagar impostos. Essa carga tributária é exagerada, absurda para os padrões de um país como o Brasil (altas cargas tributárias são comuns em países ricos. Aqui, contudo, a carga é tão alta que são raros os países ricos que têm carga tributária semelhante a nossa). Caso não haja punição exemplar para os líderes envolvidos no gigantesco esquema do mensalão, os vultosos recursos arrecadados com os impostos continuarão sendo insuficientes para prestar serviços públicos de boa qualidade, uma vez que grande parte do que é arrecadado vaza pelo ralo da corrupção, que se alastrou no país. Atualmente, é raro encontrar uma obra ou serviço público que não esteja contaminado pela corrupção, e a tendência é piorar. Para servir de exemplo, é preciso segregar por longos anos os grandes corruptos, especialmente os líderes do mensalão, considerado o maior esquema criminoso de todos os tempos, que envolveu até produção sucessiva de atos legislativos. Enquanto isso não for feito, a corrupção continuará crescendo, pois o corrupto sentir-se-á seguro de que vale a pena apoderar-se dos recursos públicos.
MANOEL DO SOCORRO TAVARES PASTANA, Procurador Regional da República, endereço funcional na Rua Sete de Setembro nº 1133, Centro, Porto Alegre/RS, com supedâneo no artigo 5º, inciso XXXIV, alínea a, da Constituição Federal e no artigo 236, inciso VII, da Lei Complementar 75/1993, vem
R E P R E S E N T A R
Contra o senhor LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA, ex-Presidente da República, CPF 070.680.938-68, residência na Av. Francisco Prestes Maia, 1501, bl. 01, apto 122, Santa Terezinha, São Bernardo do Campo-SP, pelos fundamentos de fato e de direito a seguir delineados.
AS CARTAS DO MENSALÃO
1 – Conforme os autos do processo nº 7807-08.2011.4.01.3400, em trâmite na 13ª Vara Federal, Seção Judiciária de Brasília, no dia 15 de janeiro de 2011, a Procuradoria da República no Distrito Federal manejou ação de improbidade administrativa contra o ex-Presidente Lula e o ex-Ministro da Previdência Social Amir Lando. Conforme consta na inicial da ação, foram enviadas 10.657.233 (dez milhões, seiscentas e cinquenta e sete mil, duzentas e trinta e três) cartas endereçadas a segurados da Previdência Social (aposentados e pensionistas), instando-os a tomar empréstimos bancários consignados em folha de pagamento. As correspondências foram assinadas pelo ex-Presidente Lula e pelo o ex-Ministro Almir Lando e, conforme a imputação, teriam o propósito de convencer os aposentados a tomar empréstimos junto ao banco privado BMG. A ação de improbidade busca a responsabilidade civil e administrativa, já esta representação objetiva instar a promoção da responsabilidade criminal do ex-Presidente.
2 – É que, segundo a denúncia do mensalão (doc.01), que resultou no maior processo criminal da história do Supremo Tribunal Federal, o banco BMG teria participação no esquema criminoso, repassando vultosas quantias ao Partido dos Trabalhadores, sob o disfarce de empréstimos bancários. Veja-se o que diz trecho da acusação (fl. 17 da denúncia): “Também foram repassadas diretamente pelos Bancos Rural e BMG vultosas quantias ao Partido dos Trabalhadores, comandado formal e materialmente pelo núcleo central da quadrilha, sob o falso manto de empréstimos bancários.” (grifo nosso). E mais. Conforme consta à fl. 182 do relatório da Polícia Federal, divulgado recentemente pela imprensa, a perícia contábil detectou cinco “empréstimos” milionários feitos, entre 2003 e 2004, pelo Banco BMG ao PT e mais três empresas que teriam participado do mensalão.
3 – A denúncia do mensalão afirma que o BMG foi beneficiado com operações financeiras decorrentes de empréstimos bancários feitos a segurados do INSS, mediante consignação em folha de pagamento. Veja-se o que diz a inicial da Ação 470, em trâmite no STF (fl. 18 da denúncia): “Ficou comprovado que o Banco BMG foi flagrantemente beneficiado por ações do núcleo político-partidário, que lhe garantiram lucros bilionários na operacionalização de empréstimos consignados de servidores públicos, pensionistas e aposentados do INSS, partir de 2003, quando foi editada a Medida Provisória nº 130, de 17.09.03, dispondo sobre o desconto de prestações em folha de pagamento dos servidores públicos e também autorizando o INSS a regulamentar o desconto de empréstimos bancários a seus segurados”.
4 – O que a denúncia do mensalão não apontou e agora está categoricamente demonstrada, mediante provas robustas, é a participação decisiva do ex-Presidente Lula na trama arquitetada para favorecer o banco BMG com tais empréstimos. Daí o motivo desta representação, pois se trata de fato novo, que tem relação direta e fundamental com a Ação Penal nº 470, em trâmite na Suprema Corte.
5 – A Ação de Improbidade Administrativa, ajuizada contra o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é resultado da apuração levada a efeito no Inquérito Civil Público nº 1.16.000.001672/2004-59, da Procuradoria da República no Distrito Federal, que contou com exames técnicos realizados pelo Tribunal de Contas da União (TC nº 012.633/2005-8 e TC nº 014.276/2005-2).
6 – O conteúdo do referido Inquérito Civil Público é assustador e estarrecedor. Para que o Banco BMG se beneficiasse dos referidos empréstimos, produziram-se atos normativos, violaram-se regras elementares que norteiam a Administração Pública, como as que estão elencadas na Lei de Licitações (Lei 8.666/1993), ignorando-se, entre várias exigências legais, previsão orçamentária e regras contratuais básicas; coagiram-se servidores públicos, inclusive exonerando servidora que não aceitou participar da trama montada para favorecer o banco suspeito. Ao final, depois de incluir o citado banco como privilegiada instituição financeira a efetuar os empréstimos consignados em folha de pagamento, o ex-Presidente Lula e o ex-Ministro da Previdência Amir Lando assinaram carta dirigida aos segurados da Previdência, informando sobre os “vantajosos empréstimos”. Como se verá adiante, a carta tinha o nítido propósito de incentivar o segurado a contrair o empréstimo anunciado, pois fala até dos valores “vantajosos” dos juros.
7 – A intenção era enviar 17 milhões de cartas aos segurados, todavia, após a emissão, impressão e postagem de 10.657.233 (dez milhões, seiscentos e cinquenta e sete mil, duzentos e trinta e três cartas), o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), em dezembro de 2004, suspendeu a operação. Além das mais de 10 milhões de cartas enviadas, 453.329 (quatrocentos e cinquenta e três mil, trezentas e vinte e nove mil) foram emitidas, mas não impressas e outras 510.625 (quinhentas e dez mil, seiscentas e vinte e cinco), que tinham sido emitidas e impressas, mas ainda não postadas, foram destruídas.
8 – O custo de produção e de postagem das cartas foi de R$ 9.526.070,54 (nove milhões, quinhentos e vinte e seis mil, setenta reais e cinquenta e quatro centavos). Por considerar a conduta ilegal, pois teria a finalidade de fazer promoção pessoal do ex-Presidente da República e de favorecer o banco BMG, a Procuradoria da República no Distrito Federal aviou ação de improbidade administrativa contra o ex-Presidente Lula e o ex-Ministro da Previdência Amir Lando, objetivando a responsabilização administrativa e o ressarcimento ao erário do valor utilizado na produção e remessa das cartas.
9 – As condutas são gravíssimas, pois o elevado prejuízo ao erário com o custo da emissão, impressão e postagem (superfaturadas) das cartas, e inúmeras infrações a regras administrativas tiveram o nítido propósito de fomentar – com vultosos recursos – o esquema criminoso do mensalão. A empreitada deu tão certo que, segundo o Tribunal de Contas da União, apesar de o banco BMG ser muito pequeno, pois tinha apenas 10 agências e 79 funcionários na área operacional, fez mais empréstimos a segurados do INSS do que Caixa Econômica Federal com suas mais de duas mil agências. A título exemplificativo, até meados de 2005, a gigante Caixa Econômica havia celebrado 964.567 (novecentos e sessenta e quatro mil, quinhentos e sessenta e sete) contratos de empréstimos a segurados do INSS, faturando R$ 2.380.992.632,75 (dois bilhões, trezentos e oitenta milhões, novecentos e noventa e dois mil, seiscentos e trinta e dois reais e setenta e cinco centavos). Por outro lado, o minúsculo BMG fez bem mais, apesar de ter iniciado a operação vários meses após a Caixa (inicialmente só bancos pagadores de benefícios poderiam conceder os empréstimos; contudo, a regra foi alterada para proporcionar a habilitação do BMG). O banco suspeito, ou melhor, suspeitíssimo, celebrou 1.431.441 (um milhão, quatrocentos e trinta e um mil, quatrocentos e quarenta e um) contratos de empréstimos do mesmo perfil financeiro, com faturamento de R$ 3.027.363.821,06 (três bilhões, vinte e sete milhões, trezentos e sessenta e três mil, oitocentos e vinte um reais e seis centavos), isso até agosto de 2005.
SEQUÊNCIA DOS ATOS NORMATIVOS QUE FAVORECERAM O BMG
10 – A Medida Provisória nº 130, de 17 de setembro de 2003 (doc.02), editada pelo ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, instituiu empréstimos consignados em folha de pagamento a segurados do INSS. De acordo com o artigo 62 da Constituição Federal, em caso de relevância e urgência, o Presidente da República pode adotar medida provisória com força de lei. Ora, a concessão de empréstimos bancários não parece preencher o requisito da relevância nem da urgência, essa aberração, por si só, indica algo anormal. Mas isso é apenas um pequeno detalhe, pois o que veio depois escancara, com todas as letras, o verdadeiro objetivo da empreitada que contou com a participação sucessiva, efetiva e determinante do ex-Presidente Lula.
11 – Pouco tempo após a edição da famigerada e suspeitíssima Medida Provisória houve a sua conversão na Lei 10.820/2003 (doc.03). Ocorre que um parecer da Procuradoria Federal do INSS entendeu não ser possível a concessão dos empréstimos por instituições financeiras que não fossem pagadoras de benefícios previdenciários. Esse parecer inspirou a Instrução Normativa nº 097/INSS/DC, de 17 de novembro de 2003 (doc. 04), que assim dispôs no artigo primeiro: “Podem ser consignados descontos na renda mensal dos benefícios de aposentadoria ou de pensão por morte, para pagamento de empréstimos, financiamentos e operações de arrendamento mercantil contraídos pelo titular do benefício em favor da instituição financeira pagadora do benefício…”. (grifo nosso). Tal exigência jogou por terra a pretensão do banco BMG, pois ele não é pagador de benefício.
12 – Todavia, mais uma vez o ex-Presidente Lula entrou em cena, ao baixar o Decreto nº 5.180/2004 (doc.05), que expressamente permitiu a concessão dos referidos empréstimos por qualquer instituição financeira, independentemente de ser pagadora de benefícios previdenciários. Veja-se o que diz o art. 1º, inciso VI, do curioso decreto: “o empréstimo poderá ser concedido por qualquer instituição consignatária, independentemente de ser ou não responsável pelo pagamento do benefício.” Logo após a edição desse ato normativo, o banco BMG requereu habilitação e, como se verá adiante, atropelaram-se todas as normas de tramitação junto ao INSS, proporcionando, em tempo recorde, a participação do banco na lucrativa operação financeira.
13 – A edição desse decreto foi tão absurda, pois estava evidente que tinha o objetivo de favorecer o referido banco, que a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) representou contra o ex-Presidente Lula. Todavia, o ex-Procurador-Geral da República Antonio Fernando, da mesma forma como não viu motivos nem necessidade de prender Marcos Valério quando destruía provas, também não viu fundamento para responsabilizar o ex- Presidente pela escandalosa conduta.
AS PROVAS COLHIDAS NO INQUÉRITO CIVIL PÚBLICO E NO INQUÉRITO POLICIAL
14 – Agora, mais uma vez, provas contundentes, que indicam a participação do ex-Presidente Lula no esquema do mensalão, vêm à baila. O Inquérito Civil Público nº 1.16.000.001672/2004-59, que serviu de fundamento para o manejo da ação de improbidade e instou esta representação, acrescenta dados relevantes e estarrecedores. Nele é apontada a utilização descarada da estrutura e do poder público, com efetiva participação do ex-Presidente Lula, para favorecer instituição financeira (BMG) que, sob disfarces de “empréstimos”, alimentou o esquema do mensalão com vultosos recursos. Ademais, o relatório da Polícia Federal, recentemente divulgado na imprensa, esclarece que o banco BMG não só “emprestou” dinheiro ao PT, como também a empresas que estariam envolvidas no esquema criminoso (foram cinco “empréstimos” milionários).
15- No processo nº 7807-08.2011.4.01.3400 (ação de improbidade), em trâmite na 13ª Vara Federal, Seção Judiciária de Brasília, que apura a responsabilidade civil e administrativa do ex-Presidente Lula, o objeto da demanda está assim delimitado (doc. 06):
A presente ação tem por objeto a imposição de sanções civis-administrativas ao primeiro requerido (ex-Presidente da República) e a condenação de ambos os requeridos ao ressarcimento dos prejuízos causados ao erário, em razão da prática de ato de improbidade administrativa, consistente no envio irregular de correspondências aos segurados do INSS, através das quais informavam sobre a possibilidade de obtenção de empréstimos consignados com taxas de juros reduzidas.
Referidas correspondências, emitidas pela DATAPREV e custeadas pelo INSS, foram assinadas pelo então Presidente da República e pelo então Ministro da Previdência, Luiz Inácio Lula da Silva e Amir Francisco Lando, respectivamente, em total desrespeito ao art. 37 § 1o, da CF, e sem que houvesse anuência do INSS ou interesse público na divulgação daquelas informações, da forma como fora feita.
A imposição das sanções descritas na Lei no 8.429/92 e o ressarcimento ao erário são imperiosos, tendo em vista as irregularidades praticadas pelo ex-Presidente Lula e pelo ex-Ministro Amir Lando, no exercício de suas atribuições, conforme será demonstrado.”
16 – A ação está robustamente fundamentada, inclusive com apuração minuciosa realizada pelo TCU. Assim, pela primeira vez, o ex-Presidente Lula é oficialmente apontado como envolvido em trama que está relacionada diretamente ao esquema do mensalão. Como visto antes, na própria denúncia do mensalão está consignado que o banco BMG foi favorecido pelo esquema criminoso, emprestando a aposentados com consignação em folha de pagamento, o que lhe proporcionou lucros extraordinários. Diz também a denúncia que o referido banco fez “empréstimos” ao PT. O Relatório recente da PF informa, com análise contábil, que os empréstimos não se limitaram ao referido partido, mas também a empresas que teriam participado do mensalão.
17 – Com efeito, considerando que a ação de improbidade busca a responsabilidade civil-administrativa do ex-Presidente Lula, faz-se necessário perquirir a responsabilidade penal. Esta até com maior razão, pois, sem a presença do ex-Presidente na ação penal do mensalão, fica impossível responsabilizar os líderes (autores intelectuais) do maior esquema criminoso de todos os tempos, segundo o que já foi apurado.
18 – Conforme pode se aferir no último relatório da PF, a origem do megaesquema criminoso é anterior ao Governo Lula. Contudo, foi no governo do ora representado que o esquema cresceu assustadoramente, a ponto de serem produzidos atos normativos dentro do Executivo (Medida Provisória 130/2003, decretos 4.799/2003 e 8.180/2004, além de instruções normativas do INSS), bem como utilização do Congresso Nacional para aprovar leis (Lei 10.820/2003 e 10.953/2004 – doc. 07) com o indisfarçável objetivo de viabilizar a atividade criminosa. A utilização do poder normativo do Estado para a prática de atos objetivando a implementação de atividade criminosa é gravíssimo e assustador. Por isso faz-se necessário rigorosa apuração, com punição exemplar dos envolvidos – é o mínimo que se espera.
19 – Serão transcritos trechos do que foi apurado no Inquérito Civil Público, que indicam, além da produção criminosa de atos normativos, a utilização do poder e da estrutura administrativa para implementar as atividades ilícitas, inclusive com intimidação e perseguição a servidores públicos que se opuseram.
20 – A carta assinada pelo ex-Presidente Lula e dirigida aos segurados tinha o seguinte teor (doc.08):
Brasília, 29 de setembro de 2004.
Caro(a) segurado(a) da Previdência Social,
Em maio passado, o Governo Federal encaminhou ao Congresso um Projeto de Lei para permitir aos aposentados e pensionistas da Previdência Social acesso a linhas de crédito com taxas de juros reduzidas.
Agora, o Legislativo aprovou o projeto e acabamos de sancioná-lo. Com isso, você e milhões de outros beneficiários (as) passam a ter o direito de obter empréstimos cujo valor da prestação pode ser de até 30% do seu benefício mensal. Você poderá pagar o empréstimo com juros entre 1,75% e 2,9% ao mês.
Esperamos que essa medida possa ajudá-lo(a) a atender melhor às necessidades do dia-a-dia. Por meio de ações como esta, o Governo quer construir uma Previdência Social mais humana, justa e democrática. Afinal, a Previdência é sua!
Luiz Inácio Lula da Silva
Presidente da República
Amir Francisco Lando
Ministro de Estado da Previdência Social”
21 – É abominável o conteúdo dessa carta. Ao dizer que acabou de sancionar projeto de lei que permitiria aos aposentados e pensionistas da Previdência acesso a linhas de crédito, o ex-Presidente faltou com a verdade. É que ficou implícita na mensagem que antes não seria possível a tal “vantagem” oferecida em mais de dez milhões de correspondências. Ocorre que a carta é de 29 de setembro de 2004 e desde a edição da Medida Provisória 130/2003, convertida na Lei 10.820/2003, sancionada pelo ex-Presidente Lula, os empréstimos estavam autorizados, tanto é assim que a Caixa já vinha concedendo.
22 – A “novidade” que o ex-Presidente Lula oferecia aos segurados nas milhões de cartas era que, a partir daquela data, o banco BMG poderia conceder os empréstimos, pois antes apenas bancos oficiais que pagassem benefícios previdenciários, como a Caixa Econômica Federal, poderiam fazer. Isso está assim registrado na inicial da ação de improbidade administrativa:
No que se refere à finalidade de expedição da carta, também apurou o TCU ter havido irregularidades, uma vez que a lei que permitia aos segurados do INSS efetuarem empréstimos com consignação em folha de pagamento foi sancionada 10 meses antes do envio da correspondência. Trata-se da Lei 10.820/2003, apenas modificada pela Lei 10.953/2004, citada na referida carta.
Na época de envio das cartas, a única “novidade” era a instituição financeira recém conveniada e apta a efetuar as operações de crédito, qual seja, o Banco BMG, cujo convênio com o INSS tinha sido firmado duas semanas antes, em 14/09/2004, de maneira extremamente ágil para os padrões do INSS (conforme apurou o TCU nos autos do TC nº 014.276/2005-2, do qual trataremos mais adiante). Além desse banco privado, somente a Caixa Econômica Federal estava habilitada a fornecer empréstimos consignados aos pensionistas do INSS, com base em convênio firmado vários meses antes.
Diante do apurado, podemos concluir facilmente que a finalidade pretendida com o envio das correspondências era, primeiramente, promover as autoridades que assinavam a carta, enaltecendo seus feitos e, consequentemente, realizando propaganda em evidente afronta ao art. 37, § 1o, da CF, e, ao mesmo tempo, favorecer o Banco BMG, única instituição particular apta a operar a nova modalidade de empréstimo.” (os grifos são do próprio texto)
23 – O relatório do TCU, juntado na ação de improbidade, desmonta a farsa montada na carta do Presidente (doc.08):
383. A carta faz alusão à Lei nº 10.953, de 27 de setembro de 2004, publicado no DOU de 28/09/2004 que “Altera o art. 6º da Lei nº 10.820, de 17 de dezembro de 2003, que dispõe sobre autorização para desconto de prestações em folha de pagamento” (Anexo, 2.fls. 082)
384. Assim, a própria ementa da Lei nº 10.953/2004 esclarece que, ao contrário do que afirmam na carta o Presidente da República e o ex-ministro da Previdência Social – de que ela “permite aos aposentados e pensionistas da Previdência Social acesso a linhas de crédito com taxas de juros reduzidas” – foi a Lei nº 10.820/2003 que, dez meses antes, criou a possibilidade da consignação em folha de empréstimos e financiamentos, ao passo que o novo diploma apenas alterou o art. 6º da Lei nº 10.820/2003 (Anexo, 2, fls. 083 a 085).
385. Tanto é assim que desde maio a Caixa Econômica Federal já operava o convênio com a DATAPREV e o INSS para essa finalidade. Não poderia fazê-lo se a medida houvesse sido instituída pela Lei mencionada na carta presidencial.”
24 – De mais a mais, a carta faz alusão a valores como taxas de juros que nada tem a ver com informação de interesse institucional. O TCU pronunciou-se assim:
391. Evidencia-se que o teor da correspondência nada esclarece sobre a Lei no 10.953. (que referia ter acabado de sancionar)
392. A carta faz alusão a valores cobrados com taxas de juros, que não constam do texto de nenhuma lei, decreto ou instrução normativa. (…) Quando o Presidente da República e o Ministro da Previdência subscreveram que “Você poderá pagar o empréstimo com juros entre 1,75% e 2,9% ao mês” não estavam se referindo a informações oficiais (…)
393. E mais. Afirmaram que “Esperamos que essa medida possa ajudá-lo(a) a atender melhor às necessidades do dia-a-dia”. Desse modo, a sanção da Lei constituiu-se em pretexto para o intuito de enviar correspondência ao universo de segurados da Previdência Social, destacando a possibilidade de realização de operações de empréstimos. (…)
394. O momento para o envio de correspondência com finalidade esclarecedora foi após a sanção da Lei no 10.820. A expedição das cartas a partir de 29/09/2004 coincide com a entrada em operação do Convênio com o Banco BMG em 14/09/2004.
395. A assinatura por agente público de documentos, com a marca d’água da República e custeado pelo Erário, proclamando as vantagens da aquisição de empréstimos que, naquela data, eram oferecidos apenas por reduzido número de instituições financeiras constitui fato relevante e grave.” Na verdade, esse fato não é apenas grave, é gravíssimo, mormente por ter relação direta com o esquema do mensalão.
25 – O BMG foi o banco que mais cresceu no ano de 2004, dedicando-se quase exclusivamente à concessão dos referidos empréstimos (85% da sua carteira de crédito). Registre-se que, apesar de as taxas de juros serem menores do que as praticadas no mercado de empréstimos sem garantia, elas eram superiores às taxas praticadas nos empréstimos com garantia, ou seja, empréstimos consignados em folha de pagamento (nesse tipo de empréstimo, devido à garantia de o credor ter acesso direto ao rendimento formal do devedor, os juros são os mais baixos do mercado). Ocorre que os juros cobrados nos empréstimos consignados em folha de pagamento dos aposentados e pensionistas (empréstimos com garantia) eram superiores aos juros dos empréstimos feitos aos servidores ativos, embora a garantia seja a mesma. Daí, o fabuloso lucro experimentado pelo banco suspeito.
26 – O enviou das milhões de cartas fazendo propaganda dos empréstimos foi o fechamento com sucesso (rendeu vultosos lucros) da criminosa série de ilegalidades, imoralidades e afronta aos mais elementares princípios que norteiam a Administração Pública. A série escandalosa de absurdos envolveu alteração legislativa e atropelos a tudo e a todos que se apresentassem como obstáculo, incluindo intimidação, perseguição e até a exoneração de servidora que se negou a publicar o ato criminoso.
27 – Demonstração dos absurdos estão registrados na inicial da ação de improbidade:
O Relatório de Auditória do TCU datado de 29/09/2005, produzido nos autos do TC 014.276/2005-2, verificou que o “o BMG foi a instituição financeira cujo processo ocorreu de forma mais célere. Foram 5 dias entre a publicação do Decreto no 5.180 e a manifestação de interesse. E 8 dias entre a manifestação de interesse e a celebração do convênio. Via de regra, são no mínimo dois meses de tramitação processual. O BMG também foi a única instituição financeira não pagadora de benefícios a aposentados e pensionistas do INSS que celebrou convênio antes da adequação da norma interna do INSS ao Decreto no 5.180/2004. A IN no 110/2004 só foi publicada em 14/07/2004. O Banco BMC, Banco Cruzeiro do Sul e Banco Bonsucesso, que apresentaram suas manifestações em datas próximas à data de manifestação do BMG, só conseguiram assinar o ajuste depois da publicação da IN no 110/2004.
(…)
Reiteradas vezes relataram que a tramitação do processo do BMG foi completamente atípica. O processo das demais instituições financeiras, desde a manifestação do pedido até a celebração do convênio, levava, no mínimo, dois meses. Era necessário o encaminhamento dos documentos de regularidade fiscal, da manifestação de concordância com a minuta do convênio, da elaboração de testes e troca de arquivos com a Dataprev, até que disso resultasse a assinatura do termo de convênio.
Diferentemente das demais, a manifestação de interesse do BMG foi encaminhada diretamente à Presidência do INSS, que em 8 dias promoveu a assinatura do convênio. Isso ocorreu a despeito de não existirem ainda uma minuta-padrão e um plano de trabalho adaptados à nova regulamentação que permitiu que instituições financeiras não pagadoras de benefícios aderissem ao convênio, e de não terem sido submetidos à PFE/INSS para aprovação.
(…)
Conforme os relatos da Coordenadora-Geral de Benefícios, à época, Ana Adail F. de Mesquita, o processo foi avocado pela Presidência da autarquia. Como havia chegado o dia da reunião para discussão dos termos do convênio, ela foi em busca do processo na Presidência. Foi quando tomou conhecimento de que o convênio já havia sido assinado. Foi pedido a ela que promovesse a publicação do extrato do convênio. Constatando as modificações promovidas e as irregularidades existentes, ela se recusou a fazê-lo. Dois dias depois foi afastada de suas atribuições e comunicada a sua exoneração.
(…)
A demanda do BMG em utilizar a comprovação eletrônica como forma de autorização do empréstimo, feita em 19/10/2004, também foi rapidamente atendida por meio da assinatura de Termo Aditivo, em 25/11/2004.
(…)
Em 10/12/2004, o BMG pediu que fosse autorizada a cessão de créditos para outra instituição financeira. Antes mesmo de consultar a PFE/INSS quanto à legalidade da operação, o Presidente do INSS, Carlos Gomes Bezerra, pronunciou-se favoravelmente à solicitação, desde que não onerasse o INSS ou a Dataprev. A PEF/INSS, em 26/01/2004, ratificando posicionamento do Banco Central do Brasil, informou não existirem óbices jurídicos sob o ponto de vista da regulamentação do Sistema Financeiro Nacional. Enfatizou, entretanto, a necessidade de se adaptar a IN no 110/2004, o que ocorreu de pronto. Em 28/01/2005, foi publicada a IN no 114/2005, com as adaptações necessárias para atender ao pedido, e foi comunicado ao BMG a concessão da autorização.
(…)
O fato de apenas o BMG, como instituição não pagadora de benefício previdenciário, ter atuado no mercado de empréstimos consignados a aposentados e pensionistas de 26/08 a 20/10/2004, dois meses aproximadamente, a despeito de outras 4 instituições financeiras terem manifestado o mesmo interesse, sem que obtivesse êxito, e de a norma interna do INSS ainda não ter regulamentado esta possibilidade, demonstra também o favorecimento.
Todo o exposto poderia explicar como uma instituição de pequeno porte como o BMG, com apenas 10 agências e 79 funcionários na área operacional, de acordo com dados divulgados pela imprensa sobre os Demonstrativos Financeiros do exercício de 2004, conseguiu que seus lucros subissem de R$ 90,2 milhões, em 2003, para R$ 275,3 milhões, em 2004, o que representa um crescimento de 205%. De acordo com o Relatório da Administração, as operações de consignação em folha representavam 85% da carteira de crédito do BMG em 31/12/2004.
Há que se ressaltar, inicialmente, que a conduta do Sr. Carlos Gomes Bezerra, na qualidade de Diretor-Presidente do INSS possibilitou ao Banco BMG S/A a concessão de 1.431.441 (um milhão, quatrocentos e trinta e um mil e quatrocentos e quarenta e um) empréstimos em consignação totalizando um montante aproximado de R$ 3 bilhões de reais (f.50) – posição de agosto de 2005 – o que tornou, essa instituição financeira, a líder, tanto em número (35,3% do total), como em montante de empréstimos em consignação (36,3% do total), superando, inclusive, a própria Caixa Econômica Federal com as suas mais de duas mil agências.
A gravidade da conduta indevida não se limita a essa questão processual. O termo de convênio assinado com o BMG diferiu dos termos das demais instituições financeiras, que, frise-se, seguiam o mesmo padrão. Isso permitiu que o BMG assumisse e consolidasse sua posição no mercado de empréstimos em consignação no período em que o convênio estava vigente até a sua anulação.
Com efeito, foram incluídas disposições no convênio, fora da minuta-padrão e sem o parecer da assessoria jurídica, que denotam, claramente, a concessão de vantagens indevidas ao citado banco e de atipicidades processuais que não foram justificadas pelo responsável em sua defesa.” (os grifos são do próprio texto transcrito)
28 – E continua a incisiva peça inaugural da ação de improbidade administrativa:
Ora, não bastasse o favorecimento escancarado ao Banco BMG na celebração do convênio com o INSS, esta instituição também foi beneficiada com propaganda gratuita (pago com recursos públicos), consistente no envio de correspondência assinada pelo Presidente e seu Ministro da Previdência a todos os segurados do INSS, a fim de anunciar que agora os aposentados e pensionistas poderiam realizar empréstimos consignados a juros reduzidos.
Por óbvio, os requeridos não mencionaram na referida carta que os segurados só poderiam procurar duas instituições financeiras para obter o “incrível” empréstimo. Mas nem era preciso, pois, ao realizarem pesquisa no mercado, os aposentados e pensionistas só encontrariam a Caixa e o BMG aptos a firmarem tais contratos. Em outras palavras, não era necessário que os réus se comprometessem e deixassem clara sua intenção de favorecer o BMG. Foi possível fazer promoção pessoal de seu sucesso gerencial e ainda realizar propaganda para a instituição financeira que pretendiam favorecer, sem que isso ficasse explícito.
E a estratégia deu tão certo que o BMG ultrapassou a Caixa na concessão dos empréstimos, tendo efetuado empréstimos em consignação totalizando um montante de aproximado 3 bilhões de reais (posição de agosto de 2005).”
29 – A relação de ilegalidades e atrocidades praticadas contra a Administração Pública para implementar o favorecimento ao banco suspeito de participar do esquema do mensalão, apontadas na referida ação de improbidade, é extensa. Nesta representação, mencionam-se apenas alguns pontos reputados suficientes para justificar a providência em questão. A propósito, conforme consta no relatório do TCU, foram necessárias várias carretas para transportar a grande quantidade de papel utilizado na confecção das cartas:
398. O processo de impressão das cartas afetou de tal modo a rotina da DATAPREV que chegou a efetuar-se um procedimento de aquisição emergencial de 18.000 (dezoito mil) resmas de papel (Anexo 2, fls. 138). A tarefa exigiu o consumo de 34.000 (trinta e quatro mil) resmas de papel A4 e 566 (quinhentos e sessenta e seis) frascos de toner (Anexo 2, fls. 123). (…) Foi necessária uma sofisticada operação logística para a entrega do material em diversas carretas (…).”
A RESPONSABILIDADE CRIMINAL DO EX-PRESIDENTE LULA
30 – O artigo 29 do Código Penal dispõe: “Art. 29 – Quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide nas penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade.”. Assim, homem ou mulher, homossexual ou heterossexual, forte ou fraco, feio ou bonito, popular ou impopular, cuja conduta tenha concorrido para a prática delitiva deve ser responsabilizado, a fortiori, quando as condutas são reiteradas e indisfarçavelmente deliberadas para a prática de crimes gravíssimos contra a Administração Pública.
31 – Segundo a denúncia do mensalão, uma das fontes que proporcionaram elevados recursos para o esquema criminoso veio da concessão de empréstimos a segurados do INSS. O banco BMG, facilitado pelo comando central da quadrilha (nas letras da denúncia), operou empréstimos consignados em folha de pagamento, e faturou alto. Esse banco, segundo a acusação, fez empréstimo fictício ao PT. O relatório recente da Polícia Federal acrescenta que o BMG, além de “emprestar” ao PT, também “emprestou” a empresas que teriam participado do esquema criminoso.
32 – Com efeito, tendo em vista que o ex-Presidente Lula praticou atos sucessivos que favoreceram escandalosamente o BMG, sendo que esse banco, segundo a denúncia, irrigou financeiramente o esquema criminoso do mensalão, conclui-se que, nos termos do artigo 29 do Código Penal, o ex-Presidente deve responder por esses atos, pois ninguém está acima da lei, ainda que o suposto infrator seja muito popular. Se havia alguma dúvida da participação do Sr. Luiz Inácio Lula da Silva no favorecimento à referida instituição financeira, a ação de improbidade administrativa contra ele ajuizada, suporte desta representação, não deixa mais dúvida.
33 – De mais a mais, o derradeiro relatório da Polícia Federal mostra que, além do apurado anteriormente, outras empresas e pessoas físicas receberam recursos das agências de publicidade de Marcos Valério. Muitos desses recebedores não sabiam que os recursos vinham do esquema criminoso. É que a trama montada era tão abusada que Valério tornou-se uma espécie de administrador de recursos públicos. Assim, quem recebesse patrocínio público ou prestasse serviço de publicidade ao Governo Federal corria o risco de receber o pagamento por meio de recursos transitados por uma das empresas de Marcos Valério, “o administrador de recursos públicos”.
34 – A título exemplificativo, a Associação dos Juízes Federais da Primeira Região (AJUFER) recebeu patrocínio dos Correios, todavia, o dinheiro, antes de ser liberado, passou por uma das empresas de Marcos Valério, que “administrava” os recursos públicos. Representantes dessa associação alegaram desconhecer o trâmite dos recursos, dizendo que só ficaram sabendo com a quebra do sigilo bancário de Valério. Essa não foi a única associação de magistrados que recebeu recursos na mesma situação. O relatório derradeiro da PF traz relação de várias empresas e pessoas físicas que receberam dinheiro em idêntica situação. É possível que muitas delas desconhecessem a condição de “administrador de recursos públicos” conferida a Marcos Valério pelo Decreto 4.799/2003. A propósito, veja-se registro do dia 03/08/2005, referente à reunião da Comissão Mista Parlamentar de Inquérito, quando o relator informou justificativa apresentada pela referida associação de juízes:
O SR. RELATOR (Osmar Serraglio, PMDB – PR) – Sr. Presidente, já que V. Exa. está fazendo comunicados, muito brevemente, quero dizer ao Plenário da Comissão que recebemos, da Associação dos Juízes Federais da Primeira Região, Ajufer, a documentação. Só para lembrar, essa associação teve o nome vinculado à liberação de recursos. Leio a conclusão, para ser breve – eles estão juntando a documentação e dizendo o seguinte: (…) que apresentam a documentação comprobatória de não ter mantido qualquer relacionamento com o publicitário Marcos Valério e suas empresas, como também do patrocínio legal e legitimamente solicitado aos Correios, e por essa empresa deferido, ter sido, sem conhecimento e anuência da Ajufer, pago por agência de publicidade vinculada aos Correios, com base no Decreto n. 4.799.” Grifou-se
35 – A função de “administrador de recursos públicos” conferida a Valério ocorreu graças ao Decreto nº 4.799/2003, editado pelo ex-Presidente Lula, que alterou a forma de prestação dos serviços de publicidade do Governo Federal. A exemplo do Decreto nº 5.180/2004, elaborado com o nítido propósito de favorecer o BMG, e que de fato favoreceu, o Decreto nº 4.799/2003 teve o indisfarçável objetivo de proporcionar a Marcos Valério o manejo de vultosos recursos da área de publicidade. Esse famigerado ato normativo introduziu Valério na estrutura da administração pública.
36 – A prestação de serviços de publicidade do Governo Federal por intermediação das agências de Marcos Valério foi algo indecente, proporcionando tanto fraudes por serviços não prestados ou superfaturados (prestados por outras empresas e cobrados a mais) como “participação” no pagamento de patrocínio, ou seja, os recursos públicos eram sugados de várias formas. O último relatório da PF divulgado na imprensa recentemente ratifica e traz mais detalhes sobre a distribuição de recursos públicos captados por Valério. Isso ocorreu graças ao Decreto 4.799/2003, que proporcionou a Marcos Valério o acesso a diversas fontes de recursos públicos. Daí, mais uma vez, por força do artigo 29 do Código Penal, o ex-Presidente Lula, autor dos decretos, deve responder criminalmente.
37 – Há registro formal de participação do ex-Presidente da República nas duas principais fontes de recursos do mensalão. Assim, por força do que determina a lei, especialmente o art. 29 do Código Penal, ele deve ser processado para que o Poder Judiciário possa apreciar a sua conduta, pois o poder de acusar não é discricionário. Diante de provas tão evidentes da participação do representado, o Ministério Público tem o dever legal de levá-lo ao Judiciário. Aliás, se antes já era reclamada a sua presença no rol de acusados, tornou-se obrigatória, após o ajuizamento da ação de improbidade administrativa, com fartas provas de participação no favorecimento ao Banco suspeito que, segundo a denúncia (e as robustas provas), irrigou vultosos recursos ao megaesquema criminoso do mensalão.
38 – Além da submissão legal a que todos estão obrigados, há necessidade da presença do ex-Presidente na ação penal do mensalão para que se possa punir os autores intelectuais do esquema criminoso. É que, como costuma acontecer na prática de corrupção, os crimes são perpetrados sob aparência de legalidade, tanto é que no caso do mensalão atos normativos foram produzidos para viabilizar o esquema criminoso. Ocorre que os autores intelectuais não praticaram atos materiais, quem os praticou foi o ex-Presidente Lula, logo a ausência deste na ação penal inviabiliza a punição daqueles.
39 – Não é fácil encontrar provas para responsabilizar os principais autores, mormente os autores intelectuais. Com isso, deixar de fora da acusação quem assinou os atos normativos é fechar as portas para a punição dos envolvidos graúdos; no máximo serão punidos os miúdos que deixaram rastros. Não é por acaso que José Dirceu está ansioso pela conclusão do processo, pois sabe que será absolvido, uma vez que não praticou nenhum ato material (não assinou medida provisória, decreto ou instrução normativa; não mandou ofício, nem bilhete; não celebrou contrato ou qualquer outro ato material que possa fundamentar uma condenação).
40 – A situação mudará de figura se o ex-Presidente Lula for acusado, pois a toda evidência a ideia de editar medida provisória, decretos, mandar cartas a aposentados etc., cujos objetivos criminosos saltam aos olhos, certamente não partiu dele. Ele materializou a intenção criminosa e, por força da lei, deve sentar-se no banco dos réus para explicar as razões que o levaram a praticar tais atos, e aí tudo indica que aparecerão os autores intelectuais. Caso isso não seja feito, não haverá punição para os líderes da societas sceleris, no máximo ter-se-á alguma punição para os integrantes braçais do esquema.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
41 – Na condição de membro do Ministério Público Federal, este Procurador sente-se envergonhado e, como cidadão brasileiro, estarrecido com os acontecimentos envoltos no mensalão. Estarrecido pela ousadia das pessoas que detém o poder, e o utilizam para a prática delitiva. Envergonhado pela ausência de ação efetiva do ex-PGR Antonio Fernando, que chegou a discutir publicamente com integrantes da CPI para que Marcos Valério não fosse preso, apesar de ser de conhecimento público que ele destruía provas. Envergonhado porque Marcos Valério, a exemplo de Durval Barbosa (delator no processo que derrubou o ex-governador Arruda), tentou colaborar nas investigações para ter o benefício da delação premiada, mas o ex-PGR Antonio Fernando não “aceitou”, sob a alegação de que seria “prematura” e “inoportuna”.
42 – Ora, qualquer acadêmico de Direito sabe que a apreciação dos benefícios da delação premiada, conforme expressamente disposto na lei, é feita no final do processo, quando se verificará se a colaboração efetivamente contribuiu para a identificação dos demais participantes da atividade criminosa. Portanto, não tem o menor cabimento dizer que a delação seria “prematura” ou “inoportuna”.
43 – Destarte, pareceu absolutamente estranha a recusa à colaboração de Valério. Aliás, Sílvio Pereira, que foi secretário-geral do PT, em entrevista ao Jornal O Globo, disse que, em uma conversa com Marcos Valério, este lhe falou que, se ele (Valério) entregasse todo mundo, derrubaria a República. Apesar de Sílvio Pereira ter sido denunciado, lhe foi proposta a suspensão processual; assim, ele foi poupado de ser interrogado em juízo.
44 – Desse jeito, sem a colaboração de Marcos Valério, sem a oitiva de Sílvio Pereira e, sobretudo, sem a presença do ex-Presidente Lula, o processo do mensalão, ao que tudo indica, está fadado ao insucesso. Por isso este Procurador representou contra o ex- PGR Antonio Fernando, pois pareceu evidente que ele não observou os princípios que norteiam a persecução penal.
45 – Agora, diante da mencionada ação de improbidade administrativa manejada contra o ex-Presidente Lula, trazendo mais elementos contundentes, indicativos de sua participação na empreitada criminosa, conhecida por mensalão, bem como do último relatório da PF, que reforça a existência desse gigantesco esquema criminoso e traz mais provas, este membro do MPF lança mão da faculdade legal de representar para que o ex-Presidente responda por seus atos, como determina a lei.
46 – O ex-Presidente Lula praticou atos gravíssimos que fomentaram o megaesquema criminoso do mensalão, depois disse que não sabia de nada; fez demonstração pública de apoio a pessoas acusadas de corrupção; por várias vezes deu demonstração de indiferença ao cumprimento da lei; desdenhou decisões do TSE, a ponto de fazer piada quando sofreu pequenas punições de multa por sucessivas infrações à lei eleitoral. Quando perguntado por jornalistas como o seu filho, de modesto servidor de um zoológico, tornou-se empresário de sucesso, o ex-Presidente sugeriu, em tom que pareceu ironia ou desprezo à inteligência alheia, que o seu filho poderia ser um “fenômeno” dos negócios, a exemplo de Ronaldo no futebol.
47 -Recentemente, mais uma vez ele voltou à contumaz atitude desafiadora e debochada com o sistema jurídico do país: em tom jocoso, ele “profetizou” que o processo do mensalão terminará no ano de 2050. É confiar demais na impunidade: até quando ele continuará zombando sem responder por seus gravíssimos atos?
47 – É inadmissível que alguém se ache no direito de fazer o que bem entende, tripudiando do ordenamento jurídico do país. É constrangedor deixar impunes grandes infratores, enquanto se punem pequenos infratores, por exemplo, humildes servidores municipais que, para complementar o irrisório salário, tentam receber benefício assistencial, como o Bolsa Família, ocultando a condição de servidor público. Esses pequenos infratores, quando pegos, o que costuma ocorrer com frequência, perdem o emprego, além de outras punições de natureza penal, civil e administrativa. A título exemplificativo, a Controladoria-Geral da União (CGU) anunciou, em tom solene e com muito estardalhaço, a demissão, no Governo Lula, de quase três mil servidores públicos do Executivo, mas a CGU nada fez para responsabilizar os megainfratores envolvidos no mensalão.
48 – A propósito, não é de se descartar que muitos desses servidores possam ter sido punidos injustamente por se recusarem a participar ou se opuserem a práticas criminosas, basta lembrar o que aconteceu com a Coordenadora-Geral de Benefícios do INSS, exonerada porque se recusou a publicar convênio, eivado de ilegalidades, celebrado às pressas para beneficiar banco suspeito de participar do mensalão.
49 – Fechando esta representação, vale ressaltar que a alteração legislativa autorizando a operação financeira, consistente nos empréstimos consignados em folha de pagamento a aposentados e pensionistas, bem como as mais de dez milhões de cartas assinadas pelo representado e custeadas pelos recursos públicos, fazendo propaganda dos tais empréstimos, produziram dois resultados distintos: lucros fabulosos para o banco suspeito de integrar o esquema criminoso do mensalão, e endividamento para milhões de aposentados e pensionistas. O pior é que muitos tomaram empréstimos sem que tivessem necessidade própria. Eles, provavelmente, foram convencidos ou até mesmo pressionados por familiares a pegar o dinheiro fácil, a “juros vantajosos”, oferecidos na carta presidencial (o dinheiro deve ter ido para familiares, e não para o aposentado). Além disso, diversos foram vítimas de estelionatários que tomaram empréstimos fraudulentos em nome do segurado da Previdência.
50 – Se não bastassem os endividamentos, prejuízos e problemas que os pobres aposentados sofreram em virtude da trama arquitetada para arrecadar dinheiro para o esquema criminoso, parece que esses idosos contribuíram para prejudicar outra categoria de idosos: os servidores públicos aposentados. É que a taxação dos inativos (servidores públicos aposentados), ao que tudo indica só foi possível graças ao mensalão. Essa hipótese é bem provável tendo em vista que antes, no Governo FHC, tentou-se taxar os futuros aposentados do serviço público e não houve apoio parlamentar. Porém, no Governo Lula, conseguiu-se taxar não apenas os que ainda iriam se aposentar, mas os que já estavam aposentados.
51 – Tudo leva a crer que isso só foi possível graças ao mensalão. É que a questão não envolvia apenas resistência política como, por exemplo, quando se tentou taxar os futuros inativos, que tinham mera expectativa de direito. Ao taxar os que já estavam na inatividade, a questão envolveu violação à segurança jurídica. Feriu-se de morte o ato jurídico perfeito e o direito adquirido, cláusulas pétreas da Constituição Federal, que não poderiam ser alteradas por emendas. Contudo, pelo visto, nada disso resistiu à força do mensalão.
52 – Vejam-se as coincidências. Em 2003, ano da votação da emenda constitucional 41, que taxou os inativos do serviço público, o BMG fez “empréstimos” ao PT e a algumas empresas suspeitas de participar do mensalão. Naquele mesmo ano, por meio da Medida Provisória 130/2003, convertida em seguida na Lei 10.820/2003, instituíram-se os empréstimos a aposentados, consignados em folha de pagamento. Todavia, como visto, inicialmente o BMG não conseguiu habilitar-se, porque um parecer da Procuradoria Federal do INSS, daquele mesmo ano (2003), dizendo que apenas instituições financeiras pagadoras de benefícios poderiam participar da concessão de empréstimos consignados (o BMG não pagava benefícios). Em 2004, o ex-Presidente Lula baixou o Decreto 5.180/2004, “esclarecendo” que, mesmo bancos que não pagassem benefício, poderiam conceder os empréstimos. Esse “esclarecimento presidencial” proporcionou ao BMG ingressar na operação financeira lucrativa, o que foi aquecida com o envio de mais de dez milhões de cartas, explicando os benefícios dos empréstimos. As cartas do Presidente despertaram o interesse dos aposentados em fazer empréstimos, entupindo os cofres do banco suspeito. Assim, parece que o banco recuperou com sobras o dinheiro “emprestado”, que provavelmente foi utilizado para “convencer” parlamentares a violar as cláusulas pétreas, taxando os inativos, inclusive os que já se encontravam na inatividade. Daí, a lógica aponta que os inativos da iniciativa privada colaboraram involuntariamente para que os inativos do serviço público fossem taxados. Essa é a conclusão que se tira da série de ilegalidades, imoralidades, insanidades e perversidades praticadas para viabilizar o que ficou conhecido como o mensalão.
53 – Espera-se que os mentores dessas atrocidades sejam severamente punidos. Para que isso aconteça é imprescindível que o autor dos atos materiais – o representado – seja incluído no rol dos acusados, sem o que não será possível alcançar os autores intelectuais, conforme exaustivamente demonstrada nesta representação.
Basta de impunidade!
Chega de corrupção!
PORTO ALEGRE/RS, 17 de abril de 2011.
MANOEL PASTANA
Procurador Regional da República
DOCUMENTOS QUE ACOMPANHAM ESTA PEÇA
1 – cópia da denúncia da ação penal do mensalão;
2 – cópia da Medida Provisória 130/2003;
3 – cópia da Lei 10.829/2003;
4 – cópia da Instrução 097/INSS/DC, de 17 de novembro de 2003;
5 – cópia do Decreto 5.180/2004;
6- cópia da inicial da ação de improbidade administrativa contra o ex-Presidente Lula;
7 – cópia da Lei 10.953/2004;
8 – cópia da carta assinada pelo ex-Presidente Lula;
9 -cópia do relatório do TCU;
10 – cópia do Decreto 4.799/2003.