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28 agosto 2024

Auto-biografia do prof. Pinheiro (*) < Cap. III >

 

< Capítulo III >

UM MATUTO SEMIANALFABETO DE VOLTA À CIDADE GRANDE


Ao eu chegar novamente em Manaus, naquele dezembro de 1.966, aos doze anos e meio, matuto e semianalfabeto (sabia ler somente), era como se os taxistas já estivessem “me aguardando” no porto da ‘Escadaria dos Remédios’. Desci do barco ‘José Mitonho’, agarrado em meu saco com frutas, e levei-o até ao primeiro taxi e perguntei ao taxista:

- “Por quanto você me leva neste endereço? ”. E lhe apresentei o papel rabiscado pela minha mãe onde se podia ler (isso eu sabia): “Rua Visconde de Porto Alegre, 1.010”.

O taxista me perguntou:

- “Quanto você tem aí? ”. Mostrei-lhe então todo o dinheiro que minha mãe havia colocado no meu bolso da camisa. Ele então me falou: - “É isso mesmo, vamos embora! ”.

Nem desconfiei que pudesse estar sendo enganado por ele. Na verdade, nunca soube quanto dinheiro tinha no meu bolso. No interior não se utilizavam dinheiro, mas se faziam trocas, produto por produto, praticando um verdadeiro escambo. Na maioria das vezes uma troca injusta, desproporcional. Daí a importância da moeda na história da humanidade. Como reserva de valor e facilitadora das trocas. Toda moeda deve ser confiável por todos. Por essa razão foi, por muitos séculos, geralmenteera cunhada em prata ou ouro, ou em ambos os metais preciosos.  E seu peso e quantidade era  representativa do produto. Depois, a moeda passou a ser escritural, isot é, impressa em papel especial, mas cujo valor ainda era representado pela quantidade de prata e ouro guardado no Banco Central. Era o famoso lastro-ouro. Isso também não foi mais utilizado desde o fim da I Guerra Mundial, quando a moeda passou a ser meramente escritural e cuja fé é estipulada pelo governo, pelo Produto Interno Bruto (PIB) e pela confiança que o cidadão deposita em seu governo, que promete não emitir moeda sem lastro no PIB (teoria quantitativa da moeda). 

Durante a viagem no taxi, ia reconhecendo os lugares por onde já havia antes transitado, num misto de alegria e surpresa por me encontrar novamente em Manaus, a cidade grande. Agora, por minha própria conta e risco. Portanto, a partir deste momento tomei as rédeas de minha vida em minhas próprias mãos. Minha tia Alice me recebeu com um misto de alegria e de preocupação. Perguntou-me sobre “o que eu estava fazendo ali sozinho”. Respondi-lhe que “tinha ido morar com ela para poder estudar”. Ela então baixou o ‘decreto’: - “Então você VAI ESTUDAR! ”, como que desconfiando de meus propósitos. E disse mais:

- “Você vai ajudar (na verdade fazer tudo sozinho) nos afazeres aqui de casa”. Depois entendi que ela disse isso para me 'blindar' contra as opiniões contrárias dos meus inúmeros “primos” e outros agregados.

Meus primos já eram muitos. Mais de dez. Todos filhos do meu primo mais velho de primeiro grau, José Brito, o ‘Zeca Brito’. Todo ano ‘Zeca Brito’ fazia um primo novo na Rute, sua mulher magra e de aspecto fraco. Somente na aparência, pois a mesma ainda está viva e forte até hoje. Fora os primos que ela abortava espontaneamente.

Dessa forma, para mim, ‘comer’ se tornou um exercício de extrema complexidade. E competitividade.

Como cheguei praticamente no Natal, meu primo ‘Zeca Brito’ me “aprontou logo uma”, fazendo troça deste matuto, que não sabia comer ‘uvas passas’ e nem ‘ameixas secas’, ou em ‘caldas’. Me perguntou: - “você conhece isso? ”, como na música do Zeca Pagodinho sobre conhecer ‘caviar’. Respondi:

- “Não sei, nunca vi, eu só ouço falar”. Na verdade, eu não conhecia muita coisa da cidade grande. Principalmente sobre as novidades da Zona Franca de Manaus (ZFM) e sua quinquilharias. Nessa época, vivíamos a fase de importação da ZFM.

‘Zeca Brito’, então, me “ensinou” a comer: pegou minhas tvas passas e minhas ameixas em calda e as comeu todinhas. Fiz cara de choro. e minha tia Alice brigou com ele e me deu novamente aquelas iguarias típicas de Natal para eu comer. Que delícias! Foi assim que aprendi rapidinho a comer ‘uvas passas’ e ‘ameixas’ secas e em caldas. Eram deliciosas, apesar do aspecto feio.

A professora Terezinha, amiga de minha prima Maria Emília, fez comigo umas ‘provas’ para verificar em qual série do ensino primário eu me enquadraria. Terezinha era professora da ‘Escola Industrial Salesiana’ (EIS) ‘Domingos Sávio’, que funcionava na paróquia de ‘São José’, que ficava na mesma quadra onde morávamos, na Praça 14, esquina das Ruas Visconde Porto Alegre e Ramos Ferreira. Bem próximo de onde eu havia nascido. Não foi necessário muito tempo para ela verificar que eu era o próprio “Sócrates”, ou seja: eu ‘nada sabia’! Em termos de escrita e aritimética.

Meus primos de segundo grau (filhos do ‘Zeca Brito’), ‘Heriberto James’ e ‘Lady Elaine’ (todos os meus primos tinham nomes artísticos em homenagens aos artistas dos filmes de Holywood, os quais estrelavam os filmes que se passavam nos cinemas do Centro de Manaus: ‘Polyteama’; ‘Guarany’; ‘Avenida’; ‘Odeon’, com exceção dos cines 'Popular' ou ‘Poeira’ - que ficava na Praça 14; e o cine ‘Ypiranga’ - que ficava na Cachoeirinha.

Para sque se tenham ideia do verdadeiro cast de artistas que foi se formando na casa de minha tia Alice, meus outros primos se chamavam: Hudson Jansen; Lislie Helen; Herbert; Lilibeth Audrey; e assim por diante. Faltaram Gina Lolobrígida; Bo Dereck; Johnny Weismuller...

Os meus primos mais velho, Heriberto e Lady, passaram a me ensinar o que já sabiam. Por isso lhes sou muito grato até hoje. Me ensinaram desde ‘pegar’ em um lápis a ‘fazer cópias’ de textos. Aprender tabuada foi para mim um exercício particularmente dolorido em razão do método empregado: palmadas com as famosas palmatórias de madeira. Funcionava! Jean Piaget ficaria impressionado!

Foi então que eu redescobri minha capacidade de memorização fácil e rápida.

Em poucas semanas fiquei apto a ingressar no terceiro ano primário da ‘EIS Domingos Sávio’, que minha tia passou a pagar para eu estudar. Até hoje não faço ideia do valor. Foi um sacrifício dela ao qual correspondi com muito afinco nos estudos. Esse meu esforço me rendeu dois anos de ‘primeiros lugares’ das turmas do ‘terceiro’ (1967) e do ‘quarto’ (1968) anos primários, que me propiciaram as condições de passar no ‘exame de admissão’ ao ‘ginásio industrial’, da Escola Técnica Federal do Amazonas (ETFAM). 

Assim, concluí o quarto ano primário na ‘EIS’ ‘Domingos Sávio’ e já fui direto para a ETFAM, a fim de economizar o dinheiro de minha tia Alice. Na verdade, ela me ‘intimou’ a ir para a ETFAM, justamente porque era gratuita. meu primo Heriberto não conseguiu. Foi estudar na escola Benjamin Constant. Confesso que fiquei (sem razão, claro) com inveja dele.

Assim foi o início de minha vida acadêmica na cidade grande. Até hoje considero esse período de fundamental importância para minha vida.

Na ETFAM, paralelamente às matérias normais como: ‘Língua Portuguesa’; ‘Matemática’; ‘Ciências’; ‘Geografia’; ‘História’, etc., tive de realizar cursos ‘profissionalizantes’, como parte da disciplina ‘Artes Industriais’, que relatarei em capítulo específico mais à frente, dada a sua importância para vida profissional.

Como um bom ‘mateiro’ que eu era, minha tia me responsabilizou pelas ‘criações’ dela: galos de briga do Zeca Brito; galinhas poedeiras e de corte; porcos, que eram mortos nos aniversários de ‘Zeca Brito’ e de ‘Maria Emília’ (minha outra prima, irmã de Zeca), ambos no dia 24 de dezembro, que coincidiam com o Natal. Sempre me perguntava: ‘que “culpa tinham” os pobrezinhos’ para morrerem assim? “na véspera”, como os perus.

Treinei tão bem os galos de briga do Zeca que chegamos a ser campeões na rinha de galos. Eu era o “nutricionista” e o “médico veterinário” da galinhagem. Comprava ração, milho, remédios, etc. E aplicava emplastros de andiroba e copaíba nos bichos. Ficavam novinhos em folha.

Como ‘José do Egito’, um de meus heróis bíblicos, consegui ótimos resultados com a “criação” de minha tia e do Zeca Brito, que também era conhecido como Zé Galo. 

Além de cuidar da criação, todos os dias, após retornar da aula na ETFA, eu tinha de caminhar, sob sol no zênith (a pino), para buscar ‘sopa’ e ‘pão’ na casa dos sogros de ‘Zeca Brito’ , que tinham banca de café no ‘mercado grande’, ‘Adolfo Lisboa’ (meu velho conhecido dos tempos de “colheita” das bananas, que o Arnaldo fazia utilizando Gillete e ia colocando num saco pra guardar as ditas cujas dos olhares das pessoas curiosas).

Aoós andar quatro quarteirões, eu chegava, por volta do meio dia, esbaforido, na casa de ‘Donatila’, sogra de ‘Zeca Brito’. Ela me dava sopa, almoço e sossego. Após o almoço, eu aproveitava para ler as revistas e gibis do futuro médico, Dr. Ricardo, estudante autodidata incansável para passar no concurso vestibular para medicina da UA. Ricardo viria a se tornar médico cardiologista. Aprendi com ele a ter disciplina autodidata nos estudos. Ele foi para mim um grande exemplo de dedicação aos estudos. Uma inspiração.

O trajeto que eu fazia entre a casa de ‘Donatila’ e da minha tia Alice era de uns seiscentos metros (quatro quarteirões).

Como se faz no interior para buscar água no rio, eu improvisei uma vara para pôr as panelas com sopas quentíssimas, uma panela em cada extremidade, e assim facilitar seus transportes. A vara ia nos meus ombros. O saco com pães, também. Porém, mais achegados ao meu corpo, para não desbalancear a carga.

O sacana do ‘Passarinho’ – um moleque velhinho entroncado que gostava de bater nos meninos mais novos –, sempre me sacaneava quando eu passava com as panelas quentes cheias de sopas, ameaçando de me bater. Eu também o ameaçava de jogar a sopa quente nele. Assim, com medo de ser “escaldado”, ele me deixava passar em paz. Todo dia era isso. O Zeca Brito, porém, policial civil que era acostumado a bater em bandido, me dizia o seguinte:

- “Se você chegar aqui da rua ‘apanhado’, vai levar mais peia”.

Com esse encorajamento, eu ficava arrogante e batia na meninada que se atrevia a me desafiar. Mesmo sendo franzino. Ao ponto de terem me apelidado de “Maceta”, “Hércules”, “Tarzan”, “Maciste”. Maceta foi o prferido pela canalha!

Dizia eu para a garotada “bandida”:

- “O Zeca Brito, policial civil, é meu primo, hein! ”, em tom de ameaça. Funcionava.

Chegando em casa mais esbaforido ainda, lá pelas treze horas, ou mais, ao ponto de um dia ter desejado a morte, assim como fez Elias no deserto.

Ao chegar, porém, essa “vontade de morrer” passava porque eu tomava rapidamente meu banho com aquela água danada de fria, que era armazenada em tambores metálicos, e que chegava nas casas por meio de canos ‘galvanizados’ (os tubos PVC ainda não eram empregados), água essa sem nenhum tratamento. Sobrevivi.

Após o banho, fazia as tarefas de aula; depois, ouvia rádio FM e músicas MPB na vitrola que ‘Zeca Brito’ comprou na ZFM para o nosso deleite. Era um móvel grande e sofisticado para a época. Dessa maneira, formei uma memória musical considerável. Ouvia de tudo, tais como:

 ‘Cauby Peixoto’; ‘Agnaldo Timóteo’; ‘Ângela Maria’; ‘Tim Maia’; ‘Trio Los Panchos’; ‘Júlio Jaramillo’; ‘Altamiro Carrilho’; Nelson Gonçalves’; ‘Renato e seus Blue Caps’; ‘Jovem Guarda’; ‘Carlos José’; ‘Beatles’; ‘Armando Manzzanero’; ‘Bossa Nova’ (Tom, Vinicius, Toquinho); ‘Cascatinha e Inhãna’; ‘Altemar Dutra’; ‘The Fevers’; ‘Frank Sinatra’; ‘Dorival Caymi’; ‘Francisco Petrônio’; ‘Carlos Galhardo’; ‘Edith Piaf’; ‘Ray Charles’;etc.

Após esses momentos de ‘sossego’, lá pelas 15h, era a vez de eu cuidar dos galos, galinhas, pintos, ou seja, de alimentar a “criação”... Das 16h até às 18h, íamos, eu e meu primo pernas-de-pau Heriberto, brincar de bola no ‘Oratório Domingos Sávio’. Futebol de quadra. Esse meu primo ‘Heriberto James’ era muito ruim de bola! Já eu, me saia muito bem nessa arte. Era muito rápido e habilidoso com a pelota (em alusão à bola feita de pélas de seringa). Me achava mesmo um Pelé. Mas era muito franzino!

Essa rotina na casa de minha tia Alice durou os cinco anos nos quais morei com ela, ou seja, de 1967 a 1971. Neste ano, mandei buscar minha mãe e meus irmãos do ‘Careiro da Várzea’, em razão da grande alagação.

Minha mãe tinha sido “despejada” do quarto da fazenda do Sr. Adalto Leite, no Cambixe, em razão da ausência do Valdé, o qual “vivia pelo mundo” (em lugar incerto e não sabido). Fiquei sabendo disso da pior maneira possível: ao desembarcar no porto da fazenda. Um dos filhos do Sr. Adalto Leite, que viajara comigo de Manaus para o Cambixe no barco ‘José Mitonho’, me falou disso a poucos minutos antes do desembarque, dizendo: - “Sua mãe não mora mais aqui! ”.

Essa foi para mim uma notícia desconcertante! Eu não esperava por isso! Tive, então, de andar de volta, a pés, por vários quilômetros entre a fazenda de ‘Adalto Leite’ até a casa onde, provavelmente, minha mãe deveria estar morando de favor: a casa da d. Antônia, sua vizinha e comadre.

Por ironia do destino, minha mãe foi se abrigar justamente na casa da d. Antônia, filha do ‘Severino das Canas’ (Severino Souza, o ‘SS’), cujo sítio era vizinho do sítio que minha mãe e meus tios haviam vendido para o ‘SS’ onze anos antes. Todos os dias, o velhinho SS passava na frente de nossa casa com sua carroça cheia de canas, para dar para o gado comer na ‘maromba’ (uma estrutura de madeira sobre um piso de terra elevada e coberta de zinco).

Não foi fácil a caminhada! Eu ia caminhando e me perguntando: “onde estará morando a minha mãe, d. Alzira? ”. Ninguém sabia dizer...

Porém, logo a encontrei na casa de d. Antônia - como imaginara -, e fiquei muito feliz! Como foi bom revê-la e aos meus irmãos, Renato e Jânia! E também aos meus colegas de infância, Gregório e Manoel, filhos da d. Antônia, que era “uma mãe para nós”. E eles, como irmãos!

Minha mãe era muito querida pelas inúmeras ‘comadres’ que tinha nas redondezas da ‘Vila Velha’ do ‘Careiro da Várzea’.

Uma dessas ‘comadres’, dona da fazenda vizinha, esposa do Sr. José Alves, e suas filhas, com a ajuda do prefeito, fizeram uma casinha para minha mãe morar (com restos de madeiras de materiais de construção e telhas de barro, doados pelo prefeito). Ficava nas terras de sua fazenda (fazenda ‘dos Alves’), entre a casa de d. Antônia e a delas próprias.

Para nós era uma ‘boa casa’, a não ser pelo fato de ter sido construída em uma baixada, que acabou se transformando em um “furo”, quando as águas do ‘Paraná do Careiro’ atingiram seu nível máximo e transbordavam, e corriam velozmente no rumo do Lago dos Reis por esses ‘furos’. Era um fenômeno recorrente.

Os Alves não foram os únicos a fazerem casa para minha mãe morar. Antes, a esposa do Severino das Canas, d. ‘Dista’, já tinha feito a mesma coisa, ao lado de sua casa grande da fazenda.

Assim também fizera outra filha de d. Antônia, casada com Francisco Souza, filho do SS, no alto do Careiro.

Na verdade, a casa que os ‘Alves’ fizeram para minha mãe foi a última dessa fase, antes de eu mandar buscar minha mãe para Manaus, em 1971.

Após eu retornar das férias a Manaus, em março de 1971, busquei pela ajuda da ‘Assistência Social’ da ETFAM, onde estudava. Consegui Cr$ 50, que dava para pagar um quarto em algum bairro de Manaus, para minha mãe e meus irmãos poderem morar em terra firme, longe da alagação. Dessa forma, estávamos de novo, todos reunidos na ‘Cidade Grande’.

Com exceção de Valdér que, como sempre, estava há três anos desaparecido, em lugar incerto e não sabido. Até coloquei ‘nota’ na Rádio Difusora na tentativa de que Valdé ouvisse e desse as caras lá em casa. Em vão.

Aliás, Valdé tinha aparecido lá na casa de minha tia Alice em plena copa do mundo de 1970, bêbado como um gambá. Para minha vergonha. Porém, Valdé não tinha esses escrúpulos, como todo alcoólatra. Eu tinha de praticamente expulsá-lo após assistirmos o vídeo-tape do jogo do Brasil, que chegava de avião e era transmitido de madrugada pela TV ‘Ajuricaba’, recém-inaugurada em Manaus., Os jogos passavam tarde da noite. Iniciavam lá pelas 23h e varava a madrugada.

Já morando em Manaus, em quartos alugados, de bairro em bairro, eu passava os finais de semana com minha mãe e meus irmãos no quartinho onde estivessem “morando”. Primeiro, no bairro de Petrópolis; depois, na Cachoeirinha; por fim, na Praça 14.

Ainda permaneci na casa de minha tia até julho de 1972, quando completei 18 anos e o ‘Zeca Brito’ me empregou na Moto Importadora. Nesse ano, fui dispensado do Exército por ‘insuficiência física’. Suprema humilhação! O bom disso é que já podia “tirar meus documentos” e, quem sabe, conseguir algum emprego. Consegui.

A conquista de meu primeiro emprego em CTPS foi assim:

‘Zeca Brito’, policial de muitos “amigos”, me disse: - “Pegue seus documentos e vamos ali no Centro” (centro da Zona Franca de Manaus). Eu, ainda muito matuto, não atinei para o ‘quê’...

Na Rua Guilherme Moreira, entramos na loja da ‘Moto Importadora’, que pertencia à esposa do Sr. Natan, fazendeiro do ‘Careiro da Várzea’, cujo filho, Odri, era meu colega de infância, o qual, anos mais tarde, viera a falecer em desastre de automóvel, fato que deixou sua família desestruturada e que acabou vendendo tudo em Manaus e se mudando para o Rio de Janeiro, sonho de todo amazonense.

‘Zeca Brito’ foi subindo comigo as escadas da loja Moto Importadora Central até ao piso superior, como se ele já conhecesse muito bem a loja. Na verdade, a loja ficava bem próxima da ‘Delegacia Geral de Polícia’, onde ele trabalhava. Quer dizer, “dava expediente”, em suas palavras. Tava explicado.

Chegando no piso superior da loja, entramos em uma ampla sala e, para minha surpresa, encontramos o ‘gerente de pessoal’ sentado atrás de sua mesa. Ele era, para mim, um dos “irmãos Metralhas” da ETFAM. Explico: como ele era aluno ‘veterano’ da ETFAM, tinha o “direito” de bater em nós, os ‘bichos’, novatos (neófitos) da Escola. Me assustei! Perguntei para mim mesmo: - “Que diabos deu no ‘Zeca Brito’ para trazer-me aqui?

Em poucos minutos estaria tudo esclarecido. Disse o ‘Zeca’ ao ‘Metralha’:

- “Consegue um emprego aqui para este meu primo! ”. O Metralha me olhou com desprezo e me falou, entregando-me um bilhete, dizendo: - “Desça e se apresente para a gerente na loja, lá embaixo”. Ainda sem saber do desfecho daquele inusitado “passeio” ao centro da cidade, desci e fiz como o ‘Metralha’ me mandou. Me apresentei para a gerente. Uma tal de Cleide.

Esta me olhou com mais desprezo ainda e berrou comigo: - “O que você está fazendo parado na minha frente? Pegue aqueles baldes, vassouras, panos-de-chão, e vá lavar o pátio, ali atrás! “.

Pronto! Agora eu entendi! Estava empregado. Com CTPS assinada e tudo. Era “Aprendiz de serviços gerais”, vulgo office boy. Era um “faz tudo”. Um tipo de estagiário (eles sabem do que estou falando!).

Foram cinco meses de “mijadas” e de grande aprendizado sobre ‘o que era ser um empregado’. Um office boy. Um aprendiz-sei-lá-de-quê. Na verdade, aprendi de tudo um pouco. Aplicava na prática o que eu já havia aprendido na ETFA.

Foi assim que, já empregado e com minha mãe e irmãos morando em Manaus, fui “convidado” pela minha tia e pelo ‘Zeca Brito’ (agindo em causa própria), a deixar a sua casa e ir morar com minha mãe. Uma boca a menos para sustentar. Como o Chaves, minha rede, entre “mihares”, ficava embaixo da mesa de centro. Era meu “barril”.

Como a casa de minha tia já estava entupida de primos, compreendi e, a partir dali, passei a “caminhar mais ainda com minhas próprias pernas”. Peguei minha maletinha e fui...


(*)  Prof. Pinheiro é técnico em estradas; administrador; advogado; especialista em docência superior; e mestre em administração.

Auto-biografia do prof. Pinheiro (*) < Cap. II >


< Capítulo II >

A ILUSÃO DA CIDADE GRANDE

Alzira herdara de seus pais, Guilherme e Maria, meus avós, o sítio do Careiro da Várzea, próximo à ‘Vila Velha’ do Careiro da Várzea. Era uma casa de madeira construída no estilo ‘duas águas’, coberta de zinco. Lembro do enorme barulho da chuva ao bater sobre o telhado de zinco. Havia muitas árvores ao redor da casa. Pripalmente cacaueiros e seringueiras. À frente da casa, ficava o Paraná do Careiro. O porto era feito com dois troncos presos por tábuas e amarrados com cordas à margem., como são quase todos os portos de quem não pode construir um banheiro flutuante. De qualquer maneira, esses portos sobem e descem no barranco ao sabor do fluxo das águas, nas vazantes (que oos caboclos chamam de 'sêcas') e nas enchentes.

Nas constantes ausências de nosso pai Valdé, nossa mãe Alzira tinha muito medo de dormir na nossa própria casa e, por isso, toda noite se dirigia conosco para a casa da vizinha, D. Antônia, filha dofazendeiro conhecido como ‘Severino das Canas’. A casa de d. Antônia ficava ao lado da nossa, separadas apenas pelos cacaueiros e pelas seringueiras.

Como já dito, d. Alzira tinha muito medo dos mortos enterrados no cemitério que ficava quase em frente da nossa casa. Inclusive, seus pais e nossos avós estão enterrados ali. Por isso d. Alzira se deixou iludir por Valdé – nessa época já era reconhecidamente um alcoólatra – com o sonho (ou pesadelo?) de morar na cidade grande, na capital, perto de sua irmã Alice, que desde sempre a protegeu por ser única irmã do segundo casamento de meu avô Guilherme. A tia Alice protegia nossa mãe e a nós também.

Embora Manaus tivesse nessa época em torno de pouco menos de 300 mil habitantes, para nós era uma “cidade muito grande”, comparando com a meia dúzia de “ruas” existentes na Vila Velha do Careiro. Ao contrário das casas do Careiro da Várzea, as casas de Manaus ficavam na ‘Terra firme’. Ou seja, não alagavam. Isso para nós soava como algo muito bom. Mas não sabíamos que tudo em Manaus tinha ser comprado.

Era o ano de 1962. Já éramos cinco membros na família: pai (?) e mãe; dois irmãos homens (Raimundo Nonato e Francisco Renato) e uma menina de dois anos. Jânia Maria nasceu no ano eleitoral de 1960. Ganhou esse nome 'Jânia' em homenagem ao “homem da vassourinha”, Jânio Quadros, que acabou se tornando o primeiro alcoólatra presidente da República. Este, depois de uma cachaçada, renunciou à presidência da República numa jogada errada de marketing eleitoral (achava que o povo que o elegeu não deixaria que renunciasse). Seu vice comunista, João Goulart, levou o país para o caos e para os braços dos milicos, em 1964. Portanto, chegamos a Manaus na copa de 1962, quando o Brasil saiu-se vencedor, tornando-se bi-campeão mundial de futebol, no Chile. Só se falava em Pelé e Garrincha.

Não sei por qual valor o nosso sítio do Careiro da Várzea foi vendido. Meus tios diziam para minha mãe:

- “Não venda, mas se vender vai ter de dividir o valor entre todos os irmãos”. Imagina!

Contudo, o “medo dos mortos” de minha mãe, e a vontade de Valdé de “meter a mão na bufunfa”, falaram mais alto. Venderam o sítio para o “Severino das Canas” (um dos maiores fazendeiros do Careiro da Várzea e pai de nossa vizinha, D. Antônia) e dividiram a “fortuna”.

Eu era colega de infância dos netos do SS (Severino Souza, o das canas), que eram nossos vizinhos, filhs de d. Antônia. O SS agregou o “nosso” sítio ao seu, que naquela época já era um vasto campo de gado. Um dos poucos que tinha 'maromba' (um galpão elevado de terras, coberto com zinco, ou palha), para abrigar o gado de leite nas alagações.

Meus tios, Waldemar e Alice, fizeram com que a parte da herança de minha mãe Alzira fosse empregada na compra de uma casa de madeira próxima da casa da tia Alice. E do próprio Waldemar, que movava de aluguel na mesma Vila da Rua Ramos Ferreira, esquina com a Rua Jônathas Pedroza. Era uma casa de dois pisos, localizada no “buraco da Marreca” (continuidade da Rua Jônatas Pedrosa), depressão entre as ruas de Ramos Ferreira e Ipixuna. Hoje urbanizada pelo Projeto PROSAMIN.

Na verdade, nossa “nova” casa ficava ao lado de uma grande vala por onde corriam águas servidas, esgotos e águas das chuvas, que deixavam o lugar fétido e com aspecto de cratera, extremamente insalubre e propador de verminoses, foram outras doenças. Hoje faz parte do complexo ambiental do “PROSAMIM”. Mas que continua sem tratamento dos efluentes e esgotos.

Digno de nota foi a minha irmã Jânia ter crises de vermes em razão das condiçoes do local. Não gosto nem de lembrar. Muito em razão da ignorância de como evitar e tratar as verminoses e outras doenças típicas de quem mora nesses lugares insalubres. Triste realidade do paísainda até hoje. Manaus não tem esgotos tratados até hoje.

Nessa época (anos sessenta), se cozinhavam com fogão a lenha ou carvão. Quem podia, cozinhava em fogão a gás, mas isso era um luxo para poucos. Foi para nós um misto de alegria e desconfiança quando Valdé comprou um fogão a querosene, da marca “Jacaré”. Comida com gosto de querosene é bem pior que com gosto de lenha ou carvão.

Por falar em Valdé, este, assim como fazia no Careiro da Várzea, nos abandonava também em Manaus para continuar com suas aventuras artísticas no Careiro da Várzea, no Cambixe (corruptela de Cambridge, falado pelos gringos que passavam pelo local) e arredores, longe dos olhares de reprovação de minha mãe e dos meus tios, em razão de suas bebedeiras.

Quando Valdé estava em Manaus, vivia bêbado, sujo e fedorento, alcoólatra que era.

A fim de comermos, tínhamos de comprar ‘fiado’, cujos valores eram anotados num caderninho, que Valdé um dia pagaria., quando voltasse de suas 'viagens'. Realmente pagava. E a vergonha tinha prosseguimento. Minha vergonha. Dele não. Quantas vezes tive de ouvir do taberneiro: - Chega! Não posso mais vender fiado! Mas a fome tem cara de herege. Insistia até ser atendido.

Quando sobrava algum dinheiro no bolso de Valdé, após a pinga, nos raros momentos em que este reaparecia em Manaus, ele pagava e começava tudo de novo.

Tão diferente do Careiro da Várzea, onde bastava estender a mão e apanhar as frutas das árvores, que produziam em profusão. Goiabas, mangas, graviolas, cupu-açú, etc. Tínhamos leite e seus derivados; carnes; peixes; frangos; ovos, etc. Além de caças.

Em Manaus, minha tia Alice ‘segurava as pontas’, nos oferecendo sopa todos os dias. Com pão, era nosso principal alimento.

Nossa vizinha no ‘Buraco da Marreca’ era cozinheira do ricaço do petróleo, Isaac B. Sabbá, que morava na Praça do Congresso. Essa praça ficou assim conhecida após a visita do Papa, João Paulo II, em um 'Congresso' católico.

Na enorme mansão de D. Irene Sabbá (sede do Ideal Club), eu e Arnaldo, o filho da vizinha no buraco da Marreca, apanhávamos as mangas que caiam no quintal da grande casa, e íamos vender as mangas na Avenida Eduardo Ribeiro. Dona Irene Sabbá contabilizava tudo, como boa judia que era e, ao final das vendas, ficava com a sua parte e nos dava a nossa. Isso foi para mim um grande ensinamento de como ‘se deve dar valor às coisas’, que as coisas se conquistam com esforço, e que “ninguém dá nada a ninguém”. Nada vem “de graça” nesta vida.

Arnaldo, o filho da vizinha do buraco da Marreca não era assim muito honesto, não. Gostava de “colher” bananas, uma a uma, dos cachos à venda na feira do mercado municipal Adolfo Lisboa. Para essa “colheita”, usava uma lâmina da marca Gillete. Assim ficava fácil. Ninguém percebia. Com essas bananas “pacovão”, sua mãe fazia mingaus para as famílias, a dela e a nossa. A vizinha também costumava trazer, da casa da patroa, D. Irene Sabbá, “canjas” feitas com muito arroz, gorduras e ossos. Era uma delícia para quem precisava se alimentar, “forrar o estômago”.

Não se podiam reclamar do método utilizado pelo filho da vizinha, mas isso me incomodava moralmente uma vez que eu assistia às missas e tinha aulas de catecismo na Paróquia de São José Operário. Meus escrúpulos de menino católico já estavam bastante aguçados em minha mente. Afinal, o oratório Domingos Sávio (na paóquia São José Operário), ali ao lado, era por nós frequentado todos os domingos, onde assistíamos às missas e recebíamos aulas de catecismo.

No oratório Domingos Sávio, jogávamos futebol de salão e outras brincadeiras, e onde havia uma sala de leituras aos domingos. Naquela sala tinha uma grande bíblia católica ilustrada. Foi meu primeiro contato com o “livro preto”. A Palavra de Deus!

 Aprendi a ler aos cinco/seis anos na escola chamada “dos gazeteiros”, com a professora Fany, que ficava na Rua Major Gabriel com Rua Ramos Ferreira.

Lembro que, por conta desse aprendizado rápido, fui escolhido para prestar exame oral frente aos fiscais do MEC (ou da Secretaria de Educação). Não é de hoje que as escolas se aproveitam de seus bons alunos para demonstrar o nível do ensino que praticam! Na época não entendi bem porque fora escolhido para prestar essa prova oral. Na verdade, lembro vagamente do método utilizado: juntar as sílabas, formando os sons das palavras, os fonemas. Minha memória herdada de Valdé já se fazia presente. Aprendi a ler de maneira tão “natural” que não lembro de como foi que aprendi. É como se já tivesse nascido sabendo ler.

Contudo, isso era o máximo de alfabetização que havia adquirido até os meus doze anos, o que para mim já era o bastante, pois assim podia ler os gibis do Oratório Domingos Sávio. Não só, mas também outros livros. Como já dito, até a Bíblia.

A casa onde morávamos no ‘Buraco da Marreca’ foi perdendo as condições de moradia, pois as palhas da cobertura se deterioraram e chovia ‘mais dentro do que fora’. As paredes da parte inferior foram sendo “canibalizadas” para consertar as paredes da parte superior. A casa já parecia uma garça de uma perna só.

Porém, Valdé deu um jeito na situação: vendeu a casa com a gente dentro. Vendeu em duas parcelas. Creio que numa espécie de separação de bens sem divórcio que fez com minha mãe, sem ela saber, claro. Vendeu a “casa” para a família de um conhecido do Careiro da Várzea. Não lembro o nome.

A parte da venda da casa que Valdé considerou como ‘sendo dele’, ele a “bebeu” toda de cachaça com os amigos e as quengas. A outra parte, que supostamente pertencia à minha mãe, nós a “comemos” parceladamente. Não lembro se em seis ou doze parcelas. Ficamos sabendo da venda pelo próprio comprador, que se meteu na casa com sua família, dizendo que tinha comprado a casa.

Passamos a morar juntos, nós e a família que comprou a casa de Valdé. Pelo menos a nova família ‘socialista’ mandou cobrir a casa com palhas novas. Portanto, já não chovia dentro. Ao final de certo tempo, fomos “convidados” a sair da casa, pois já havíamos “comido” toda a nossa parte do pagamento da casa.

Valdé, contudo, 'boa alma' que era, conseguiu emprestar um quarto em uma casa, também ‘socializada’, para nós morarmos, com outra família, lá pelas matas do Japiim, onde Manaus terminava, e que hoje é o bairro do Japiim.

Valdé, acho eu, era “socialista”. O que vocês acham?

Minha mãe, contudo, lembrou-se que tinha um conhecido fazendeiro do Careiro da Várzea, que era irmão de meu padrinho Oscar Leite. Chamava-se Adalto Leite. Alzira foi lá em sua bela casa na rua de Ramos Ferreira, próxima ao Clube Sociedade Portuguesa, e pediu ‘com fé’ para que o Sr. Adalto deixasse irmos morar como caseiros em sua fazenda, localizada no Paraná do Cambixe. O Sr. Adalto soube das peripécias de Valdé, que era seu conhecido das cantorias e sabe-se lá mais o quê. Quem não conhecia Valdé? Se autodenominava o ‘Estrela do Norte’, seu nome artístico...

Assim, após quatro anos de ilusão na cidade grande, retornamos de onde nunca devíamos ter saído: o Careiro da Várzea. O Cambixe. Um paraná que tem início no paraná do Careiro, próximo à Vila Velha, Sede do hoje município do Careiro da Várzea, e termina no mesmo paraná do Careiro, a 150 km rio abaixo.

Era 1964, eu estava com dez anos. Essa época no Brasil era o final da Bossa Nova e início da Jovem Guarda. Portanto, no melhor dos “anos dourados”, eu estava novamente me embrenhando na várzea. Sem rádio. Ouvia apenas o canto dos bichos, nas matas, nos rios e lagos. ‘Raízes Caboclas’, me socorram!

No Cambixe, nossa rotina, minha e de meu irmão Renato, era tocar gado para o curral; tirar leite na madrugada; fazer coalhada e queijo; nadar e pescar nos rios e lagos; correr de cavalo como cowboy. Era uma vida maravilhosa, lúdica, extremamente prazerosa, farta. Como já dito, havia muita fruta, peixes, carnes, ovos, galinhas. Passei dois anos e meio dessa forma lúdica. Até tentei estudar na ‘Escola Coronel Fiúza’, na ‘Vila Velha” do Careiro da Várzea, mas o ensino não me agradava e preferia correr de cavalo e fazer outras peripécias. Por exemplo, pegar o barco José Mitonho e ir procurar o Valdé no “baixo do Cambixe”, na fazenda de meu padrinho Oscar Leite e de minha madrinha Ana Leite. Sempre fui recebido por eles com muita alegria e satisfação. Essa coisa de “padrinho” e “madrinha” funcionava bem nessa época.

Na seca, essa parte do Cambixe onde ficava a fazenda de meu padrinho Oscar Leite (baixo Cambixe) era tomada por uma tapagem de vegetação típica da várzea, que mal permitia se locomoverem por canoa. Meu padrinho Oscar Leite, todos os dias nos quais eu ficva na sua fazenda, me levava com ele visitar sua irmão, a Preta do Leite, que ra casada com o Sr. Beca Canafé. Há muitas histórias e lendas sobre a ‘Preta do Leite’. Porque ela falava muito. Aliás, essa é uma característica do interiorano, onde as notícias e ideias se transmitiam oralmente.

Na fazenda do Sr. Beca Queiroz, ficava uma fábrica de queijo, onde se faziam queijos 'coalho' e queijos 'manteiga' (o meu preferido!) EU aproveitava para coletar os restos de queijo que sobravam no tacho onde se cozinhavam a coalhada até virar queijo. Eram as chamadas 'raspas', que rendiam mais de um quilo de queijo. Aprendi em Manaus que não se devem desperdiçar nada.

O Valdé sempre aparecia por lá pelo baixo Cambixe. Algumas vezes, por sorte, o encontrava. Como sempre, bêbado. Ele tinha orgulho de mim e eu vergonha dele.

Uma das garatas lembranças que guardo desses momentos que passava na fazenda do padrinho Oscar Leite foi a minha façanha de ter domado um potro branco, que nominei de 'Trancelim' (em alusão a um tipo de cordão de ouro extremamente fino). Comecei acariciando-lhes as crinas quando o mesmo se encostava à cerca. Depois fui aos poucos montando nele próximo à cerca. Até que finalmente ele permitiu que eu omontasse livremente, aceitou os arreios e galopava com o vento na cara. Me achei um verdadeiro cowboy.

Porém, ao fim de um certo tempo, eu voltava para o alto Cambixe, onde éramos caseiros do Sr. Adalto Leite.

 Morei com minha mãe e meus irmãos no Cambixe até que a saudade de Manaus, e das coisas que existiam lá, com as quais havia me acostumado, “falaram mais alto”. Tinha saudade de coisas como o cinema das segundas-feiras à noite no Oratório Domingos Sávio; tinha saudades dos gibis; das músicas no rádio... Televisão somente chegou em Manaus por volta de 1969-70. Em preto e branco.

Foi assim que decidi, por conta própria, que “iria morar com minha tia Alice”, em Manaus. “Para estudar” - dizia eu para minha mãe e para minha tia Alice. Minha mãe dizia: - “Teu pai vai de matar! ”. Dizia eu, com muita certeza: - “Mata nada! ”. E assim é que, em dezembro de 1966, eu peguei “minhas trouxas”, literalmente, e algumas frutas para levar como ‘agrado’ para minha tia, e fui morar com ela. Com ela e mais uma dezena de outras pessoas, primos e primas. Afinal, tinha aprendido o que era “socialismo” com o Valdé...

Minha mala, era um saco; o cadeado, era um nó. Como na música de Gonzagão.


 (*) Prof. Pinheiro é técnico em estradas; administrador; advogado; mestre em administração, e especialista em docência superior

27 agosto 2024

Auto-biografia do prof. Pinheiro (*) < Cap. I >

 

< Capítulo I >

MEU PAI 'VALDÉ' - UM ARIGÓ SOLDADO DA BORRACHA

 

Meu pai 'Valdé' (assim chamado por minha mãe Alzira - modo carinhoso para Waldetário, seu verdadeiro (?) nome, isto quando ela esta 'de bem' com ele),  tinha 18 ou 19 anos quando se alistou em Fortaleza como ‘soldado da borracha’, por volta de 1941. Após se alistar, Valdé ‘foi embarcado’ em um daqueles ‘itas do Norte’ (alusão à música de Dorival Caymi) e, sem passar por Manaus, foi mandado direto para o ‘inferno verde’ (Euclides da Cunha) das bandas do 'Acre’.

Não sei que vantagem haveria para um sujeito sair do sertão (onde Pernambuco se encontra com o Ceará), entre Crato e Granito, onde o sol inclemente ferve os miolos do sertanejo, para embrenhar-se nos seringais “do Acre”. Valdé se alistou no Exército para extrair o 'leite' de seringa e assim ajudar os aliados no esforço de guerra (II Guerra Mundial). Enquanto nosses heróis da FEB compabiam os alemães e italianos na europa, nossos soldados da borracha “combatiam”, além do sistema servil a que foram relegados nas selvas do Amazonas, os mesmos tinham de combater outros inimigos: ‘mosquitos da malária e febre amarela’; ‘cobras peçonhentas’; ‘tifo’, e outras mazelas.

Valdé me dizia ser de Granito – lugarzinho de pé de serra, vizinho do Crato cearense -, onde ele nasceu aí por volta de 1923. Tudo na vida de Valdé era incerto. Nesse ‘pé-de-serra’ - dizia ele - para obter água tinha de “ia buscar por léguas e léguas de distância, em lombo de jumento”.

O calor escaldante da selva era diferente do calor seco do sertão. Na servidão do aviamento, Valdé viveria um outro tipo de inferno. Fora outras questões como doenças, a bebida e a violência, ‘o calor amazônico cozinhava o cérebro’. Esse relato foi do próprio Valdé (Waldetário, assim chamado quando estava sóbrio; quando bêbado, Walter Dário. Vá saber...). Valdé morreu de câncer do estômago em fevereiro de 1977. Aos 55 anos. Um desperdício... Valdé era um homem de muitas prendas: ourives; relojoeiro; marceneiro e carpinteiro; pintor; e cachaceiro (de fazer e de beber cachaça).

Pelos relatos, a vida de ‘soldado da borracha’ não era diferente da vida dos antigos ‘seringueiros’. Estes, ao chegarem em um seringal, ou ‘colocação’ (na linguagem deles), recebia um ‘kit’ composto por roupas próprias para o trabalho no seringal (calça e camisas de mangas compridas, feitas de algodão cru); botas de borracha; poronga de cabeça (lamparinas a querosene); caneca de coletar a seiva; ferramenta para “sangrar” as árvores de seringueira, etc.

Ao receber esse 'kit', o soldado/seringueiro já chegava no seringal devendo. Esse 'kit' seria pago com borracha coletada. Ou seja, com o fruto do trabalho de coleta.

Da mesma maneira se dava a aquisição, pelos soldados/seringueiros, de ‘produtos da cidade’, levados pelos 'regatões' (barcos que trocavam açúcar; café; sal; cachaça; arroz; feijão; etc., por borracha, - o 'aviamento'). Era um verdadeiro escambo. O soldado/seringueiro sempre ficava devendo ao 'aviador', pois os preços desses ‘produtos da cidade’ eram sempre mais caros do que o preço da borracha produzida pelos seringueiros. Era uma relação de servidão.

Naquela época, a borracha ficou conhecida como ‘ouro negro’ (pelo seu grande valor e em razão da cor das ‘pélas’ - bolas de borracha após a defumação do látex).

O látex é uma seiva leitosa retirada das árvores das seringueiras. As seringueiras nativas ficam espalhadas aleatoriamente na selva, à mercê do pipocar das sementes de seringas. A seringueira não admite concorrência de outras árvores de sua espécie.

A coleta da seiva era controlada por meio de “estradas”, traçadas idealmente pelos seringalistas no meio da selva, na tentativa de se evitarem disputas.

Entre 1880 e 1912, a borracha fez a fortuna dos ‘seringalistas’, os ‘imperadores do Acre’ (no dizer de Márcio Souza in ' Galvez, o impredor do Acre'; ‘A expressão amazonense’; e 'Mad Maria').

O centro histórico de Manaus ainda hoje reflete o fausto daquela época com seu opulento teatro e suas casas em estilos inglês e francês por conta da riqueza gerada pela borracha. Ganhou imponentes construções, casarões em estilos europeus. Ingleses, franceses, etc. O Teatro Amazonas é a mais vistosa dessas construções. Foi construído a fim de proporcionar a execução de peças de óperas, de recitais de músicas clássicas orquestradas, em grandes eventos culturais somente encontrados em grandes teatros de Viena, de Paris... Em contraponto, havia o ‘cabaré chinelo’ (recentemente restaurado), que fazia a delícia dos ‘coronéis’, com putas francesas de fino trato e grandes “cachês”. Lembram a música ‘The lady is a trump’, na voz de Frank Sinatra. As damas eram umas vagabundas. Chiques. Cheirosas. Falando francês e inglês.

 Voltando aos seringais, onde os infelizes seringueiros comiam o ‘pão que o Diabo amassou’, a vida corria lenta, ao sabor dos rios e igarapés, da umidade de quase 100%, que garante um calor que torna esse lugar em um verdadeiro ‘estágio para o inferno’. Mas há um contraste: as noites podem ser extramente frias.

Os soldados-seringueiros passavam seus dias cortando as cascas dos caules das árvores de seringueiras - cortes feitos em formato de “y”, feitos com ferramentas próprias para isso -, recolhendo-lhes o ‘leite’ ao final de cada dia. Como já dito, esse “leite” era a seiva da árvore (branca como leite), que escorria de cima a baixo e eram recolhidos em ‘canecas’ que eram incrustradas na árvore, no final do corte em “y”.

A borracha era chamada de “ouro negro”, como já explicado, e essa cor era adquirida em razão da maneira pela a qual os seringueiros defumavam esse ‘leite’ e faziam com ele uma espécie de “bola de futebol americano” em uma vara que girava como se fosse um churrasco, sob a fumaça, enquanto se derramava o leite sobre a “bola”, fazendo-a ficar cada vez maior, camada após camada.

Em 1912, a economia do látex chegou ao seu pico de produção e preço. Manaus, de Parias dos Trópicos passou a 'porto-de-lenha' (em alusão aos catanarães a vapor que cruzavam os rios do Amazonas).

Esse ano também coincidiu com o início da produção de borracha na Malásia (possessão inglesa onde as sementes e mudas de seringueiras da Amazônia foram furtadas, aclimatadas e plantadas racionalmente em 'estradas' retas, o que facilitava a coleta e tornava seus custos de produção e de extração extremamente baixos. Deflação de custos. Um verdeiro paradoxo. Maior produção e maior preço para, em seguida, estagnação da produção e menor preço internacional.

Portanto, nós amazônidas, fomos na verdade “furtados” pelos ingleses. A Amazônia até hoje é objeto da ambição estrangeira pelos seus recursos naturais: minérios; biodiversidade, etc. E fruto de ambição e contrabando de nossas riquezas minerais e biológicas e farmacológicas.

O ‘seringal’ da Zona Franca de Manaus (ZFM) também está se acabando.

“Mas essa terra ainda vai cumprir seu ideal: ainda vai tornar-se um império colonial”. (Chico Buarque, parodiando Fernando Pessoa).

De 1.912 em diante, Manaus e a Amazônia viveram sua bancarrota. Viraram ‘porto de lenha’ da música de Torrinho (como já dito, em alusão aos barcos a vapor que na época faziam o transporte de passageiros na região. Os famosos catamarãs. Os ‘itas do Norte’, da música de Caymi).

Voltando aos seringais, onde Valdé servia à 'pátria-mãe-gentil', este, não aguentando o sistema servil que ali imperava e sem atinar que estava ali também como ‘soldado’ e não como mero seringueiro, evadiu-se, desertou, escafedeu-se, e fugiu rio abaixo, e foi parar nas bandas do Careiro da Várzea.

No Careiro da Várzea, o delegado Setembrino Diniz emitiu um RG para o Valdé. Gostava dele pelas cantorias e por limpar ao redor da delegacia como pena após a brigas de cachaça.

Valdé se considerava um 'artista', com sua viola de doze cordas, repentista que era, passou a fazer ‘cantorias’ pelas fazendas e sítios naquela ilha de várzea e arredores: Careiro; Manaquiri; Autazes; Lago do Janauacá; Curari, etc.

O Careiro da Várzea invariavelmente alaga, ano após ano, pelas eras sem fim. Ali Valdé conheceu e conquistou Alzira (minha mãe e de mais dois irmãos, Renato e Jânia), filha de Guilherme, um cearense do sertão do Crato, vizinho de Granito, terra de Valdé, da família dos ‘Pinheiros’. Judeus Sefarditas.

Reza a lenda que eram judeus que mudaram seus nomes como ‘stein’, ‘cohen’, ‘ben’, p.e., para nomes de árvores, tais como: ‘Pinheiro’; ‘Pereira’; ‘Mangueira’; ‘Mangabeira’, etc. Outros, mudaram seus nomes para nomes de animais, tais como: ‘Bezerra’; ‘Carneiro’; ‘Leão’; ‘Leitão’, etc. Outros ainda, para nomes de insetos como: ‘Barata’; ‘Puga’; ‘Aranha’, etc.

Guilherme e Maria, portanto, eram meus avós maternos. Maria era índia da etnia dos Muras: índios autóctones da região do Careiro, Autazes, Manacapuru, Manaquiri. Maria era índia dos cabelos lisos e caídos, “negros como a noite que não tem luar” (da música de Cascatinha e Inhãna). Imagino que olhar para a minha avó Maria era o mesmo que olhar para minha mãe; para minha tia Alice; e para as minhas filhas Bruna; Alice; e Clara. Santo DNA!

Valdé, agora casado e pai de dois filhos, Raimundo e Renato, partiu para ‘ganhar a vida’. Alguns dizem que ele ‘caiu na vida’. Como já dito, além de ‘cantador’, também era ‘ourives’; ‘relojoeiro’; ‘agricultor’; ‘carpinteiro’; ‘pintor’; ou seja, um ‘homem de sete instrumentos’. Após a morte de meus avós, Valdé sumia na várzea e nos abandonava, eu, meu irmão Renato e minha mãe Alzira. Depois se somou nessa desdita nossa irmã Jânia.

Quando Valdé parava em casa, no sítio herdado pela minha mãe Alzira, podíamos ver nele um profícuo agricultor. Ao contrário dos caboclos da região, Valdé limpava o beiradão do sítio enquanto a água ia subindo. Na vazante, a terra já estava pronta para o plantio, ganhando tempo. Eu fazia isso junto com ele. Com uma vara pontiaguda, eu socava o solo e punha as sementes que levava em uma sacola: tomate; pepino; abóbora; maxixe; quiabo; milho; etc. Produtos de ciclo curto. Em três meses havia colheita.

O sítio era uma nesga de terras de 150 m de frente (pelo Paraná do Careiro) e cerca de 1000m, ou mais, de fundos (pelo Lago dos Reis). Ao o rio iniciar sua vazante, o solo estava próprio para plantar. E Valdé plantava de tudo o que se podia em termos de produtos de ciclo curto: batatas; abóboras; pimentões; milho; tomates, etc. Descrevo isso a partir de minha própria experiência e memória de menino de seus cinco anos.

Contudo, o prazer da colheita logo dava lugar à frustração em razão do preço obtido pela venda desses produtos, como resultado do abandono dos produtores pelo Poder público, que deixava os mesmos ao sabor da sanha dos atravessadores, os quais pagavam um valor miserável ao produtor.

Desanimado com essa situação, Valdé desistia de ser agricultor e voltava às suas atividades “artísticas” de 'cantador', as quais lhe davam mais dinheiro e mais prazer. Cantava os cordéis de Cego Aderaldo; João Grilo; 'Deus e o diabo na terra do sol'...

Minha mãe Alzira, eu e meu irmão Renato ficávamos vivendo daquilo que ainda sobrava das colheitas; das frutas e verduras; das galinhas e seus ovos; de peixes pescados por amigos; de leite, coalhada e queijos feitos pelos fazendeiros amigos. Que também doavam as vísceras e alguma carne para minha mãe a cada quinze dias. Havia fartura. Não passávamos fome no ‘Careiro da Várzea’. Acho que Valdé se fiava nisso.

Meus avós morreram e foram enterrados em frente do sítio, onde ficava o cemitério do Careiro da Várzea. Minha mãe morria de medo de cemitério. Eu não entendia por quê. Isso fez com que ela acabasse aceitando a ideia de Valdé, que era de vender o sítio e irmos nos aventurar em Manaus. Contra a vontade de meus tios Waldemar; Alice; Edgar; Antônio. Não sabíamos da desgraça que seria essa nefasta decisão de vender o sítio e ir morar em Manaus! Estou escrevendo essa história em cordel.

 

 (*) Prof. Pinheiro é técnico em estradas; administrador; advogado; mestre em administração, e especialista em docência superior.

20 agosto 2024

 

Prof. Pinheiro (*)

Os donos do Poder no Brasil: patrimonialismo e estamento burocrático.

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O Brasil é um país sui gêneris! Ou seja, difícil de copiar. Não é para amadores...

Já na origem da dominação portuguesa no Brasil, com a chegada da armada de Cabral, o ‘Estado’ português se fez presente por estas bandas. Os autóctones (índios, na narrativa fraudulenta de Cabral e cia), foram cooptados pela troca de presentes como espelhos, apitos, instrumentos de corte, etc. Em contrapartida, os tuxauas ofereciam macacos, frutas, araras, e suas meninas à luxúria dos marinheiros (vide Darcy Ribeiro, in ´O povo brasileiro´). O marinheiro que se desse ao desfrute dessas “Evas” tropicais sem saber estava se “casando” com toda a família dela, a começar pelo pai dela, o Tuchaua. Daí o termo ´cunhadismo´ de Darcy Ribeiro. Até hoje é assim. Cunhado não é parente, mas se acha...

Os caboclos advindos dessa miscigenação não se identificavam nem com o índio e nem com o português, passando à condição de ´zé ninguém´. Assim foi-se formando o ´povo brasileiro´, composto por essa ´ninguemzada´, sem raça definida e sem identidade nacional.

Mais tarde, o mesmo fenômeno de miscigenação se deu pelo relacionamento entre os filhos dos senhores de engenho com as negras escravas nos engenhos de açúcar, descrito por Gilberto Freire em sua monumental obra ´Casa grande e senzala´.

O sentimento de brasilidade demorou a surgir. Ou foi se amoldando lentamente com o passar do tempo. Apenas no século dezenove essa brasilidade aparece mais explícita, culminando na Inconfidência Mineira. Cumpre aqui lembrar a influência da independência dos EUA (1.776) e da Revolução francesa (1.789).

Portanto, a ‘nação brasileira’ é fruto dessa miscigenação acerba, que foi se formando ao longo dos séculos de dominação portuguesa. Como corolário desse fenômeno, tem-se a criatividade proverbial do brasileiro. Mas também sua indisciplina. Aqui virtude se confunde com defeito.

Após o fim da escravidão, em 1.888, vieram os europeus para exploração do café e de outras atividades, formando verdadeiros enclaves populacionais (colônias fechadas). Italianos, alemães, japoneses, turcos, libaneses, etc.

Assim, o primeiro ‘Estado’ “brasileiro” chegou pronto de Portugal nas caravelas de Cabral.  Com sua armada, sua bandeira, seu hino, e sua burocracia. Portanto, antes mesmo que houvesse uma ‘Nação brasileira’, o Brasil foi administrado pelo Estado português. Pero Vaz de Caminha lavrou em sua famosa Carta o ato de posse da terra. Há relatos que dão conta da presença anterior dos portugueses no Brasil por meio da esquadra de Gaspar de Lemos, que inclusive integrava a frota de Cabral. Mas essa é outra história.

Voltemos ao conceito de Estado: ´Estado é a Nação politicamente organizada´. Assim, pela falta de uma ‘Nação brasileira’ (na época haviam inúmeras nações, constituídas pelos indígenas, que viviam em sua condição primitiva, sem organização estatal), foi o Estado português que se fez presente desde o descobrimento. Um Estado sem Nação. Para que surja a figura do Estado são necessárias as existências de três elementos: território, povo e língua (ou cultura). Principalmente que esses elementos formem uma unicidade cultural.

No Brasil na época do descobrimento haviam os elementos todos, mas de maneira multifacetada. Haviam muitos povos, muitas línguas e muitas culturas, mas faltava unidade. Por isso, o Direito era emanado a partir das ‘Ordenanças’ portuguesas ‘Manoelina’ (referente a Dom Manoel) e ‘Filipinas’ (referente a Dom Felipe).

O Estado é uma forma superior de organização. Antes disso, são os costumes que prevalecem. Geralmente por imposição de uma figura carismática e religiosa. Com a crescente complexidade das relações sociais, com a divisão do trabalho e a estratificação social em castas (ou estamentos), com as ´classes´ sociais estratificadas em forma piramidal, cuja base é composta por escravos ou servos e os soldados (os que trabalham, a infraestrutura social); e, no topo, a nobreza (reis, sacerdotes, escribas, etc.), compondo a superestrutura social (os que não trabalham). As ´Classes´ intermediárias vão se acomodando, tendo como suporte as ordens vindas de cima, da superestrutura (com os seus privilégios hereditários, por meio dos ‘aparelhos ideológicos’). A classe média, em todos os tempos e em todo lugar, reproduz a ideologia dominante emanada do topo da pirâmide. E a impõe às classes subalternas por meio dos seus aparelhos repressores.

O termo ´classe´ social é aceito pelos historiadores e sociólogos apenas para descrever o fenômeno capitalista a partir da industrialização, no século dezenove.

Raymundo Faoro, em sua magistral obra ‘Os donos do Poder’, identifica nosso proverbial ´patrimonialismo´ e ´estamento´ burocrático como tendo sua gênese no Estado português a partir de cerca de 1.300 a.D.

Antes de prosseguirmos, ofereço aqui a ‘operacionalização’ dos conceitos de ´patrimonialismo´ e ´estamento burocrático´: o primeiro termo se refere ao desvio moral dos burocratas, pelo qual estes se apropriam dos dinheiros públicos para enriquecimento pessoal. Já o termo ´estamento burocrático´ é a falta de mobilidade social entre as classes.

Num verdadeiro ciclo vicioso, o ´patrimonialismo´ instrumentaliza o ´estamento burocrático´. Os recursos desviados do patrimônio público para os patrimônios particulares garantem a perpetuação dos burocratas no Poder. Isso se dá mediante fraudes e regras jurídicas criadas casuisticamente para lhes favorecer.

No Brasil, o sistema eleitoral, tal como descrito em meu artigo anterior, é o órgão burocrático garantidor do ‘sistema’. O TSE surge aqui como o árbitro-mor do estamento burocrático, que legitima o patrimonialismo.

No período histórico identificado por Raymundo Faoro, se formou o Estado português tendo por base o ´direito divino´ dos reis, a ´monarquia absolutista´ e o ´monopólio comercial´. O rei era o comerciante-Mor. Isso enriqueceu o monarca. E empobreceu a Nação. Esse modelo deu azo a um Estado extremamente pesado, inchado e corrupto. Quando esse Estado aportou no Brasil em 1.500 trouxe consigo toda sorte de descalabro administrativo, financeiro e moral. Está na origem do nosso patrimonialismo e do nosso estamento burocrático.

Laurentino Gomes (in ‘1.808’) demonstra “como uma rainha louca (D. Maria I), um príncipe medroso (D. João) e uma corte corrupta enganaram Napoleão Bonaparte e mudaram a História de Portugal e do Brasil”.

Para manter um Estado com essas características, faz-se necessária uma carga tributária imensa. Daí a ordem da Coroa portuguesa de estabelecer, por volta de 1.789, uma cobrança desproporcional de 20% (um quinto) de todo ouro existente em posse dos brasileiros. Eram os “quintos dos infernos” (verbalizado por D. Carlota Joaquina ao deparar-se com o Rio De Janeiro).

Essa cobrança escorchante e confiscatória desembocou na ‘Inconfidência Mineira’, e na delação dos inconfidentes (alferes Tiradentes e seus seguidores) por um contumaz devedor de tributos à Coroa portuguesa (Joaquim Silvério dos Reis). Tiradentes foi esquartejado por ordem de D. Maria I, a Louca. Seus companheiros foram degredados para outras colônias portuguesas na África. A ordem de morte e esquartejamento de Tiradentes foi executada pelo Marquês de Pombal.

Interessante é que, hoje, nossa ´máquina pública´ cobra cerca de 40% de carga tributária para que o ‘estamento burocrático’ se mantenha no Poder. E isso não causa nenhuma comoção insurgente.

A pergunta que não quer calar é a seguinte: por que o povo não se revolta com isso?

A resposta é até certo ponto simples: porque a nossa carga tributária é indireta, isto é, não atinge diretamente os patrimônios. Os tributos indiretos são repassados para “toda” a sociedade, posto que incorporados aos preços dos produtos. ICMS, ISS, IOF, IPI, etc., são repassados aos preços. O povo não sabe identificar quanto está pagando de carga tributária. É um modelo perverso e desproporcional, pois quem tem menos acaba pagando mais. Os pobres carregam nas costas o estamento burocrático. E este concentra cada vez mais riqueza em suas mãos.

O estado brasileiro vem tentando se organizar desde o Império. De lá para cá, foram feitas as Constituições de 1824; 1.989; 1934; 1.946; 1964-69; e 1.988. O estamento burocrático sempre esteve no comando dessas tentativas.

 Com a “reforma” tributária que está sendo feita, a mencionada carga tributária aumentará mais ainda, e seu produto se concentrará nas mãos da União (governo federal), que distribuirá esses recursos sem nenhum critério constitucional claro. É o famoso IVA (com seus desdobramentos). Sob o comando do ‘’estamento burocrático. Em benefício dos patrimonialistas.

Já os tributos diretos (IR, IPTU, IPVA, ITR, etc.), que atingiriam o patrimônio e a renda dos brasileiros, estes são objeto de “planejamento” tributário, pelo qual o ´estamento burocrático’, legislando em seu favor, deixa de pagar. É a tal de elisão fiscal.

O Brasil não é para amadores.

O estamento burocrático é hereditário. Daí o fenômeno do ‘filhotismo’ político, sobre o qual trataremos em artigo próximo.

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(*) Administrador e advogado, mestre em Administração e especialista em docência superior.

19 agosto 2024

 Prof. Pinheiro (*)

Brasil: quem são os donos do Poder.

As eleições no Brasil nunca se contentaram em circunscrever-se apenas aos distritos regional ou local. E nem aos períodos de tempo designados para cada pleito.

As estratégias eleitorais montadas pelos caciques partidários (são 29 partidos registrados nesta data, segundo site do TSE: www.tse.jus.br), vão desde a designação dos candidatos pensando nos resultados imediatos da atual refrega e se estendem às candidaturas das eleições seguintes.

O Brasil saiu de um quadro bipartidário em 1980 (Arena x PDS) para o quadro multipartidário de hoje. Aliás, não é de hoje. Desde a anistia política de 1979 e a consequente repatriação dos antigos caciques da esquerda, como Leonel Brizola, Miguel Arraes e outros, o quadro partidário se segmentou, dadas as vaidades e interesses pessoais desses caciques. Desde então, o Brasil se esfarelou partidariamente. Mas, na verdade, o que conta mesmo no geral são três espectros políticos: os partidos de esquerda (PT e seus partidos satélites); os partidos de direita (PL e seus satélites. Se muito, uns três partidos), e os partidos de centro (aqueles que oscilam entre esquerda e direita, ao sabor das negociatas). Todos se dizendo “democráticos”.

Para gerir essa geleia partidária, o Brasil criou uma jabuticaba: o TSE e seus espelhos regionais (os TREs), com poderes quase absolutos sobre o Processo Eleitoral, legislando e julgando todos os atos sobre as eleições; sobre os partidos; sobre os candidatos; sobre a propaganda eleitoral; sobre as finanças; e sobre os resultados eleitorais. A par das urnas eletrônicas sem apuração pública do somatório dos votos, que é feito por um computador centralizado no TSE e que tem dado margem a inúmeras controvérsias. Principalmente o seu custo financeiro, sua estrutura nababesca e as mordomias de seus membros. Fora as dúvidas acerca das decisões tomadas ao sabor dos casuísmos.

O processo eleitoral brasileiro ainda conta com um grande problema que é o financiamento das campanhas. Seja privado, seja público, pela via dos seus Fundos partidário e eleitoral, os caciques se digladiam para comandar esses Fundos e daí exercerem seus nacos de Poder.

Abstraindo todo esse caldo de cultura, tendo como certos os seus resultados, montam-se os cenários municipal, regional e federal. Uns dependendo dos outros.

Daí que uma eleição nunca é apenas uma eleição, mas várias concatenadas umas nas outras, em que os resultados de umas influenciam as outras. Dos resultados eleitorais de 2024 se processarão as estratégias para 2026.

Dando nomes aos bois, nesta eleição de 2024 se movimentam Lula e o PT x Bolsonaro e o PL. Este provavelmente com maior influência nas Regiões Norte, Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Aquele com maior influência no Nordeste. Os resultados dirão quem irá se cacifar melhor para 2026. Tudo sob a supervisão do TSE...

 

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(*) Administrador e advogado, mestre em Administração e especialista em docência superior.

 

Prof. Pinheiro (*)_19.08.2024

O Camelô morreu! Viva o Camelô!

Silvio Santos (Senor Abravanel) morreu neste sábado.

Pablo Marçal “nasceu” no debate eleitoral da BAND!

Ambos tinham em comum a mesma origem “profissional”.

Sílvio Santos começou a vida vendendo bugigangas nas ruas. Fazia, sem teoria nenhuma, o que os marqueteiros recomendam aos bons vendedores: oferecia às pessoas “coisas de que (talvez) não necessitavam, para pagarem com dinheiro que (eventualmente) não tinham ”. Em outras palavras, criava necessidade. Despertava o interesse em seu público. Chamava a atenção dos transeuntes para seus "incríveis" produtos. Despertava neles o interesse, o desejo. E finalmente a aquisição. Na verdade, era um excepcional animador de plateias. Fez disso a razão de sua vida com o Baú da Felicidade. Na Globo, na TVS e no SBT. Nunca deixou de ser camelô. Fez fortuna! Cada uma das filhas (7), dizem, receberá algo como R$ 100 milhões. A viúva, cinco vezes mais! Soma de mais de 1 bilhão de reais.

É emblemático que quase ao mesmo tempo surja no cenário nacional a figura de um Pablo Marçal. Ao contrário de Sílvio, já chega rico, milionário, e “vendendo” aos paulistanos o “sonho” de terem parte de seus problemas resolvidos nas áreas mais diversas, tendo como substrato teórico a formação de animador de investidores de internet (que os adversários chamam pejorativamente de coaching), de financista, além de bacharel em direito. Principalmente um gestor de inúmeros negócios bem-sucedidos. Um empreendedor.

Marçal se apresentou no debate de maneira completamente disruptiva, debochada mesmo, vestido de maneira informal, com boné na cabeça (e mensagem subliminar com um M estampado), quebrando as regras há tanto tempo estabelecidas pelos marqueteiros eleitorais e pelas emissoras de tv, que transformaram os debates eleitorais em algo detestável de assistir. Um festival de platitudes sobre temas previamente estabelecidos, sorteados, com tempo de pergunta e de resposta. Um saco!

Marçal destruiu com isso tudo. De propósito. Tornou-se a sensação do pleito. Em uma semana tocou o terror nas três candidaturas até então melhor avaliadas pelos institutos de pesquisa. Parece que não irão mais a nenhum debate com a presença de Pablo. Fugiram?

Boulos foi “exorcizado“ com a CTPS em resposta à provocação de que Pablo era uma espécie de “padre Kelmon”. Viralizou nas redes sociais! Boulos virou meme.

Nunes se apequenou. Não tem posição definida. Nem esquerda, nem direita. Virou um “zé ninguém”. Provavelmente, vai amargar o abandono dos bolsonaristas.

Tábata foi rotulada por Pablo como “para-choque de comunista” e “adolescente mimada”.

Datena provavelmente seguirá os passos de Boulos. Apoiador de comunista e invasor de propriedades (um valor desprezado pelos comunistas desde sempre).

É paradoxal que o direitista Pablo Marçal tenha feito hoje o mesmo que fez o esquerdista Mário Covas  com Paulo Maluf nos anos 80/90: quebrou todas as regras do debate.

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(*) Administrador e advogado, mestre em Administração e especialista em docência superior.

08 agosto 2014

A contadora de Alberto Yousseff conta tudo à revista VEJA. Prefeituras do PT eram a grande fonte do doleiro

Vou republicar aqui o post de Reinaldo Azevedo. É, infelizmente, um caso corriqueiro nestes últimos 12 anos, quase 13.
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A revista VEJA desta semana traz uma reportagem com Meire Bonfim Poza. Eis a capa.
capa da veja
Quem é ela? Meire era a contadora do doleiro Alberto Yousseff. Meire viu, ouviu e participou de algumas das maiores operações do grupo acusado de lavar R$ 10 bilhões de dinheiro desviado de obras públicas e destinado a enriquecer políticos corruptos e a corromper outros com pagamento de subornos. Qual era a fonte privilegiada da mamata? Prefeitura do PT.
Meire Poza viu malas de dinheiro saindo da sede de grandes empreiteiras, sendo embarcadas em aviões e entregues nas mãos de políticos. Durante dois anos, Meire manuseou notas fiscais frias, assinou contratos de serviços inexistentes, montou empresas de fachada, organizou planilhas de pagamento. Ela deu ares de legalidade a um dos esquemas de corrupção mais grandiosos desde o mensalão.
Meire sabe quem pagou, quem recebeu, quem é corrupto, quem é corruptor. Conheceu de perto as engrenagens que faziam girar a máquina que eterniza a mais perversa das más práticas da política brasileira. Meire Poza era a contadora do doleiro Alberto Youssef — e ela decidiu revelar tudo que viu, ouviu e fez nos dois anos em que trabalhou para o doleiro.
“O Beto era um banco de dinheiro ruim. As empreiteiras acertavam com os políticos, e o Beto entrava para fazer o trabalho sujo. Ele passava o tempo todo levando e trazendo dinheiro, sacando e depositando. Tinha a rede de empresas de fachada para conseguir notas e contratos forjados”, diz. Um dos botes mais ousados de Youssef, segundo ela, tinha como alvo prefeituras comandadas pelo PT.
O doleiro pagava propina de 10% para cada prefeito que topasse apostar em um fundo de investimento criado por ele. “E era sempre nas prefeituras do PT. Ele falava: ‘Onde tiver PT, a gente consegue colocar o fundo’”. André Vargas era um parceiro fiel. O deputado estava empenhado em fazer com que dois fundos de pensão de estatais, o Postalis (dos Correios) e a Funcef (da Caixa Econômica Federal), injetassem R$ 50 milhões em um dos projetos do doleiro.
Leiam a reportagem. É de estarrecer. As empreiteiras que fizeram contratos com a Petrobras não se saem bem na história. É um esquema de corrupção que rivaliza com o do mensalão e que, muito provavelmente, o supera no valor movimentado. Vejam qual é o “modus operandi” deles.

06 agosto 2014

‘Para ocultar a podridão’, editorial do Estadão


Publicado no Estadão desta terça-feira
Só pode ter uma causa a farsa armada pelo governo, o PT e a Petrobrás na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o escândalo da compra da Refinaria de Pasadena, em curso no Senado – a seleção sob medida e o repasse antecipado das questões a cair nas sabatinas a que se submeteriam figurões da estatal, como revelou a revista Veja -: a ânsia de calafetar até a mais microscópica das frestas do caso para que permaneçam nas sombras as dimensões do pântano profundo que recobre os subterrâneos da transação.
Segundo o transcrito de uma conversa de 20 minutos filmada a que a publicação teve acesso, o chefe do escritório da Petrobrás em Brasília, José Eduardo Sobral Barrocas, comentou com o advogado da empresa, Bruno Ferreira, e um terceiro interlocutor não identificado que o assessor especial da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, Paulo Argenta; o assessor da liderança do governo no Senado, Marco Rogério de Souza; e o assessor da liderança do PT na Casa, Carlos Hetzel, foram os autores das perguntas previamente encaminhadas à presidente da petroleira, Graça Foster, ao seu antecessor Sérgio Gabrielli e ao ex-diretor Nestor Cerveró, para que combinassem as respostas a fim de não cair em contradição. Eles depuseram na CPI entre os dias 20 e 27 de maio.
Dos 13 membros do colegiado, que tem 180 dias de prazo para apurar o negócio de Pasadena e as ligações de funcionários da Petrobrás com o doleiro Alberto Youssef, 10 são governistas. Maioria na Casa, as lideranças do PMDB, PT e de outras siglas da base do Planalto haviam se apropriado, numa operação a que não esteve alheia a presidente Dilma Rousseff, de uma iniciativa da oposição, quando ficou claro que não seria possível bloqueá-la. Lesados, os oposicionistas conseguiram emplacar outra CPI, dessa vez mista, e ignoraram a contrafação montada no Senado, tendo como presidente o peemedebista Vital do Rêgo e como relator o petista José Pimentel. Nem essa confortável situação era o bastante, agora se sabe. “Risco zero” foi a palavra de ordem.
Isso não pode ser atribuído a um velho cacoete petista nem, apenas, ao cuidado para que nada, absolutamente nada, possa respingar no projeto da reeleição de Dilma – que, em 2006, chefiando o Conselho de Administração da Petrobrás, autorizou a compra de metade da refinaria, por 8,5 vezes mais do que a sua proprietária, o grupo belga Astra Oil, havia pago pelo empreendimento inteiro, apenas um ano antes. A estatal acabaria enterrando na tenebrosa transação US$ 1,245 bilhão, com um prejuízo de US$ 792 milhões, segundo o Tribunal de Contas da União. Em decisão recente, que se seguiu a intenso trabalho de lobby, o órgão isentou a presidente de qualquer responsabilidade pelo maior rombo na história da empresa e resolveu abrir outra ação contra 11 dos seus diretores ou ex-diretores.
Por que então os operadores do Planalto, com a presumível cumplicidade do relator José Pimentel, prepararam e entregaram a “cola” da prova aos sabatinados? Repita-se: o único motivo que faz sentido era impedir que, por descuido, um deles desse uma pista das enormidades que possam estar por trás do escândalo de Pasadena. Não que inexistam indícios veementes disso. Basta citar um exemplo pontual, uma ponta de iceberg: um relatório da própria Petrobrás, obtido em abril pelo jornal O Globo, descobriu que, em fevereiro de 2010, US$ 10 milhões foram retirados da conta da refinaria mediante mera autorização verbal – não se sabe de quem, para quem e para quê. E Pasadena muito provavelmente não foi um raio em céu azul.
O PT no poder, ao aparelhar a Petrobrás, “criou um monstro”, como disse certa vez o general Golbery do Couto e Silva da sua criatura, o Serviço Nacional de Informações (SNI). E se há uma personagem central nesse processo, que permitiu o inadmissível na estatal, é a então ministra de Minas e Energia, depois titular do Gabinete Civil e, enfim, chefe do governo. Ninguém, ao longo desses anos, nem mesmo o ex-presidente Lula, há de ter tido influência comparável na estatal. É dela, portanto, a responsabilidade objetiva – não por uma ou outra decisão desastrosa ou falcatrua, mas pelo conjunto da obra.

27 julho 2014

‘O fiasco do Mercosul e a diplomacia de banquinho’, de Rolf Kuntz

O material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:
Publicado no Estadão deste sábado
ROLF KUNTZ
Foi uma semana dura para a diplomacia brasileira e revoltante para os anões. Na quinta-feira, o governo de Israel ofendeu os baixinhos de todo o mundo ao descrever o Brasil como um anão diplomático. Três dias antes, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, havia cobrado, em tom quase paternal, mais empenho de Brasília para a conclusão do acordo comercial do Mercosul com o bloco europeu. Os dois fatos evidenciaram, mais uma vez, a desmoralização e a falência da política externa brasileira, tanto na área comercial quanto na geopolítica. O fato coberto com maior destaque foi o bate-boca entre funcionários de Brasília e de Tel-Aviv, mas os dois episódios são partes da mesma história.
Anões, ao contrário da atual diplomacia brasileira, inaugurada em 2003, podem ser inteligentes, eficientes, equilibrados e relevantes. Outros governos têm pressionado o de Israel e cobrado a suspensão ou moderação dos ataques à Faixa de Gaza, mas nenhum deles pagou o mico de se explicar e de responder em tom quase meigo a um porta-voz de chancelaria. A explicação oferecida: o Brasil criticou apenas a violência “desproporcional” de Israel, sem contestar seu direito de defesa. A resposta complementar: o Brasil mantém relações diplomáticas com todos os membros da ONU e, portanto, se houver algum anão, será outro país. A explicação e a réplica foram apresentadas pelo chanceler Luiz Alberto Figueiredo. Polidamente, ele se absteve de mostrar a língua e de chamar de feio o funcionário israelense.

25 julho 2014

Como já era de se esperar, Dilma despencou nas pesquisas após a derrota da Seleção na Copa — e a situação atual não dá esperanças ao governo

Republico aqui a análise feita por Veja e publicada por Ricardo Setti, por importantíssima  para as pessoas de bem:


É TÓIS? — O Brasil lamenta o quarto gol da Alemanha: outros três ainda viriam. E Dilma não passou impune (Foto: AP Photo/Natacha Pisarenko)
É TÓIS? — O Brasil lamenta o quarto gol da Alemanha: outros três ainda viriam. E Dilma não passou impune (Foto: AP Photo/Natacha Pisarenko)

SIM, SOBROU PARA ELA
Os números da primeira pesquisa pós-Copa são ruins para a presidente Dilma. Mas a verdadeira má notícia para a petista é que eles deverão piorar
Reportagem de Pieter Zalis publicada em edição impressa de VEJA

O Datafolha respondeu à pergunta que estampou a capa de VEJA na semana de 16 de julho. A candidata Dilma Rousseff não passou impune pela indignação popular produzida pela pior derrota sofrida pela seleção brasileira em sua história. O levantamento do instituto, feito nos dias 15 e 16, mostrou uma piora em todos os indicadores da petista.
“Sobrou para a presidente na medida em que ela perdeu o bônus que os bons resultados logísticos e de organização do evento prometiam trazer para sua campanha”, diz o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino.
As pistas desse bônus apareceram na pesquisa realizada pelo instituto durante a Copa, entre os dias 1º e 2 de julho, quando Dilma subia 4 pontos nas intenções de voto. “Depois do jogo trágico, o cenário das eleições voltou à situação pré-Copa.”
O levantamento divulgado na quinta-feira pelo Datafolha mostra que Dilma Rousseff perdeu 2 pontos nas intenções de voto e que a taxa de descontentes com seu governo é a pior desde o início de seu mandato – mais baixa até do que nos protestos de junho do ano passado: 29% de ruim ou péssimo, contra 25% no auge das manifestações.
Mas a má notícia de fato para a presidente não é que sua situação está ruim, como revelam os números – é que tende a piorar, como eles indicam numa análise mais atenta.
Afirma o cientista político Antonio Lavareda: “Como os candidatos da oposição ainda têm uma alta taxa de desconhecimento, o peso da avaliação do governo hoje é mais importante do que as intenções de voto. Será impossível Dilma se reeleger com uma aprovação de apenas 32% (taxa dos que ­veem seu governo como ‘ótimo ou bom’, se­gundo o Datafolha)”.
O cenário não está a favor da presidente Dilma (Gráfico: VEJA)
O cenário não está a favor da presidente Dilma (Gráfico: VEJA)
Há outro complicador para a petista, que pela primeira vez empata no segundo turno com o tucano Aécio Neves (44% a 40% para ela, com margem de erro de 2 pontos). Seu potencial de crescimento é o menor entre todos os principais candidatos.
O potencial de crescimento é um indicador do Datafolha que relaciona, com base em um cálculo matemático, os eleitores que não votam no candidato, mas o conhecem e não o rejeitam. Segundo Paulino disse a VEJA, o da presidente é de 18%, enquanto o de Aécio chega a 53% e o de Eduardo Campos (PSB) a 73%.
Afirma Paulino: “Hoje, o cenário de crescimento é claramente favorável aos candidatos da oposição”. Ou, dito de outra forma: a disputa eleitoral está ainda mais apertada do que mostram os números que castigam a presidente.

24 julho 2014

‘Estabilidade enganosa’, por Merval Pereira

Publicado no Globo desta quarta-feira
MERVAL PEREIRA
A boa notícia para a presidente Dilma que a pesquisa do Ibope Inteligência, feita a pedido da TV Globo e do Jornal O Estado de S. Paulo, traz é a estabilidade da corrida presidencial, embora sua tendência de queda tenha sido registrada, assim como o crescimento da candidatura oposicionista de Aécio Neves, ambas dentro da margem de erro.
Os indícios de que o futuro não guarda boas notícias para a incumbente estão, porém, registrados na pesquisa, assim como o noticiário econômico reforça a idéia de que ela não tem boas notícias daqui até a eleição. O fato de o próprio governo já estar admitindo uma inflação mais alta, próxima do teto da meta de 6,5% no ano, e o crescimento mais baixo, de 1,9%, já indica que dificilmente a situação econômica ajudará o projeto de reeleição.
A perspectiva de que entremos em uma recessão técnica, com dois trimestres negativos, é uma realidade que o governo terá que enfrentar. Esses dados têm como conseqüência a má avaliação do governo Dilma, com apenas 31% dos eleitores considerando-o bom ou ótimo, quando as pesquisas mostram que dificilmente um candidato à reeleição consegue êxito se tem avaliação de ótimo e bom abaixo de 35%.
A situação para um eventual segundo turno, que a pesquisa do Ibope indica ser provável, mostra a presidente Dilma com uma distância pequena, mas consistente, contra seu principal adversário, o candidato tucano Aécio Neves.
Melhor situação que o empate técnico apontado pelas pesquisas do Datafolha e do Sensus, mas sendo reduzida ao longo da campanha. Todos os gráficos mostram um crescimento dos oposicionistas e um decréscimo da presidente Dilma. Ela é escolhida por 41% dos eleitores brasileiros, enquanto o candidato do PSDB recebe 33%. É sintomático que a presidente Dilma cresça apenas três pontos em relação ao primeiro turno, e que Aécio acrescente 11 pontos percentuais à sua escolha. Até o candidato do PSB Eduardo Campos, que não cresce na pesquisa do primeiro turno, na simulação de um segundo turno contra Dilma aumenta incríveis 20 pontos percentuais, enquanto Dilma fica nos mesmos 41%.
A resiliência da presidente Dilma, no entanto, é uma força de sua candidatura. Independentemente de em quem irão votar, o Ibope constatou que mais da metade dos eleitores brasileiros (54%) acredita na sua reeleição. Isso não impede, no entanto, que Dilma continue sendo a candidata mais rejeitada de todos os que concorrem à presidência da República. Tem 36% de rejeição, contra 16% de Aécio Neves e 8% do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos.
A maneira como a presidente Dilma está governando o país é desaprovada por metade (50%) dos eleitores brasileiros, e aprovada por 44%. São números que mostram uma estabilidade enganosa, mas destacam também a dificuldade que os candidatos de oposição estão tendo para convencer que são capazes de realizar as mudanças desejadas por nada menos que 70% dos eleitores.

22 julho 2014

A queda de Dilma

Assistam a esse vídeo! É hilário!
Por essa eu não esperava tão cedo!