
VISÃO
DE FUTURO -- A premiê, férrea na gestão do Estado, em 1981: a validade
de suas ideias era e, em grande parte, ainda é universal (Foto: Peter
Marlow / Magun / Latin Stock)
UMA DAMA DO LADO DIREITO DA HISTÓRIA
Margaret Thatcher salvou a Inglaterra do declínio
econômico e político. O conjunto de suas ideias ganhou um nome,
thatcherismo, algo que nenhum outro premiê britânico alcançou – nem
Winston Churchill
Margaret Thatcher morreu dia 8 de abril, vítima de derrame. Ela tinha
87 anos. Andou esquecida até que Merryl Streep a representou no cinema,
em um filme espetacular que se fixou mais no outono de sua vida, quando
Thatcher, viúva e senil, conversava com Denis, o marido morto havia
anos, como se ele estivesse tomando café da manhã com ela. Comovente e
triste.
Mas Thatcher, feita baronesa depois de deixar o posto de
primeira-ministra, se permitia raras demonstrações públicas de emoção.
Ela estava com os olhos marejados de lágrimas quando diante da imprensa
se despediu do cargo, ocupado por ela por onze anos, entre 1979 e 1990.
Nesse período, transformou a política no Reino Unido, ajudou a
enterrar o moribundo comunismo soviético e criou uma doutrina de
política econômica, o thatcherismo, que, em diferentes gradações,
dominou o período áureo da globalização na década de 90, dando
racionalidade aos políticos no poder e tirando milhões de pessoas da
miséria em países tão díspares quanto o Vietnã e o México.
Foi chamada pela primeira vez de Dama de Ferro por um jornal oficial
soviético, que julgou estar ofendendo-a. Ela adorava o apelido. Fez jus a
ele na vida pública. Mostrou que governo e povo não são a mesma coisa.
Governo é uma gigantesca burocracia cujos interesses só em alguns poucos
casos, aqueles em que há ganho político, coincidem com os do povo. Por
isso é preciso vigiar os governantes, cobrar eficiência deles e diminuir
seus poderes.
Thatcher foi demonizada pelas esquerdas retrógradas por ter obtido
sucesso em suas políticas e tê-las imitadas em quase todas as partes do
mundo. Com razão, pois o salvacionismo insurrecional das esquerdas só
tem, na cabeça de seus seguidores, alguma chance quando tudo dá errado
em um país e a miséria se instala.
Tolice.
Se fizessem uma pequena pesquisa histórica, descobririam que, no
Ocidente, os partidos de esquerda crescem mesmo é nos momentos de
bonança econômica, quando o capitalismo produz excedentes econômicos
bastantes para sustentar a imensa turma de socialistas e assemelhados
que invariavelmente ganham a vida sem trabalhar. Foi assim nos Estados
Unidos.
Durante a dura recessão dos anos 30, o partido comunista do país
praticamente desapareceu. Foi só no esplendor econômico do pós-guerra,
quando a classe média enriqueceu e os pobres viraram classe média, que
as ideias socialistas e comunistas ganharam maior projeção nos Estados
Unidos.
Não é por outra razão que o esquerdismo no Ocidente tem sempre um quê
de esnobismo, um ar de superioridade moral, intelectual e de classe.
Isso vem da certeza de que, enquanto derrubam o sistema nos bares e
em ambientes chiques, o capitalismo continua firme produzindo o
excedente econômico que permite aos militantes viver sem trabalhar e aos
ricos dizer-se de esquerda sem o temor de perder tudo para os
revolucionários.
O esquerdismo no Ocidente é apenas um estado de espírito. Quando passa disso, cobra um alto preço.

AMIZADE
À PRIMEIRA VISTA -- Thatcher com Ronald Reagan, em 1985: "Ela era
agradável, feminina, graciosa, inteligente, e ficou evidente nas nossas
primeiras palavras que éramos almas gêmeas", disse o presidente
americano (Foto: Gamma)
Na Grã-Bretanha deu-se um fenômeno semelhante. O conservador Winston
Churchill, vencedor na II Guerra Mundial, não foi apeado do poder pelos
socialistas no alvorecer da paz por causa das penúrias impostas ao povo.
Livres da guerra e da pobreza pela ajuda dos Estados Unidos, os
eleitores britânicos sentiram-se confortáveis o bastante para embarcar
na experiência socializante que afundaria o Reino Unido – até que
Thatcher salvasse o país.
Entre 1945 e 1951, praticamente todas as grandes companhias de bens e
serviços foram estatizadas e passaram a se pautar por aquela dinâmica
antiprogresso, antitecnologia e antieficiência que caracteriza a
esquerda no poder.
A British Telecom, por exemplo, conseguiu bloquear a entrada do fax
no Reino Unido. A empresa temia que o aparelho fosse uma ameaça ao uso
do telefone para falar. Em quadro muito familiar aos brasileiros antes
das privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso, um telefone na
Inglaterra podia ficar mudo seis semanas antes que aparecesse um técnico
da estatal para tentar resolver o problema.
Sem concorrência, sob a proteção do monopólio, as estatais
tripudiavam sobre os usuários e o público. Prejuízos? O governo cobria.
Mas de onde tirar tanto dinheiro? Ora, aumentando os gastos públicos e
deixando a inflação devorar o poder de compra das pessoas.
Somados todos os sindicatos, os dias de trabalho eliminados por
greves na Inglaterra antes de Margaret Thatcher se contavam em dezenas
de milhões por ano. Thatcher chegou e acabou com o processo de
destruição do país. “A Inglaterra antes de Thatcher era como a Argentina
de hoje, mas sem a maquiagem dos índices”, resume o economista Maílson
da Nóbrega, que vivia em Londres naquele período.












